26 janeiro 2012

Para empurrar o vazio para longe


já que nos deram um número, uma fé,
uma cultura, pedaços desarticulados
de ferro chamados sonhos e outras 
deficiências várias que nos impedem 
o entendimento, sejamos honestos: 
bebamos vinho e tudo o mais necessário 
para empurrar
                             o vazio 
para longe.

23 janeiro 2012

Escrever

escrever é um acto pessoal.
quem não gostar, que olhe
- noutra direcção.

Pormenores


enquanto nos entretemos a racionalizar
a dor, os nossos entendimentos separados,
os nossos imensos egoísmos, a vida real 
passa-nos ao lado. somos o que somos.
é isto. apenas. com as nossas loucuras
e entregas que não são o que são. são
sempre outra coisa noutros olhos. 
queremos o mundo para nós. o nosso 
fica sempre nas nossas mãos, nunca 
se entrega. a batalha que travamos 
nunca é pela compreensão: procuramos
alguém que se renda a nós, que nos 
persiga a ilusão da nossa solidão 
sem esperar nada em troca. e depois
partimos, sempre, sem mais uma palavra.

a beleza para mim não é nada. 
a macro dos meus olhos é um bisturi 
com que separo a realidade daquilo
que efectivamente é. pormenores soltos,
sem qualquer relação com o corpo
a que pertencem. uma pele. um lábio.
uns olhos. aquela forma particular de ser.
pessoas cubistas, formadas à imagem
das imagens que projectam, escondidas
atrás dos gestos. o mundo dos meus olhos, 
mais completo em cada pormenor, melhor
do que a própria forma como se olham
a si mesmas ao espelho. beleza é uma 
palavra. um conceito abstracto. uma coisa
pouco importante que se preza e se perde. 

nunca me deram nada. mulheres acomodadas
com quem eu me liguei entregaram o corpo,
meia dúzia de horas, o calor de uma cama
e de meia dúzia de gestos gastos com outros 
antes de mim. conversas vazias em que me 
contam os amantes, o prazer, o passado inútil, 
como foi bom sentir que eles me queriam.
chamam a isto sofisticação. ser moderno. 
ver o mundo da perspectiva do umbigo 
e chamar-lhe meio-termo. esperar tudo sem 
dar nada. chegar ao amor como a uma religião:
rastejando, cheio de humildade, sem sequer 
uma lembrança do que foi ter amor-próprio.
esperar. esperar que um dia haja tempo 
e vontade para oferecerem o mesmo 
que exigem. olho o futuro ao lado de alguém
e vejo uma planície branca. sem fim. nada.

20 janeiro 2012

Escrever para


escrevo para não ficar estúpido de todo.
para fugir a horas de silêncio televisivo.
as palavras são o que me ligam. são 
o que me torna pessoal e único. palavras
sou. contínuo. uno. multiplo. confuso.
demasiado excitado pela vida e pelo prazer.
exilado voluntário. procuro um lugar. 
construo. destruo. 
passo por cima de tudo. não sinto. uso.
abuso de mim. esforço-me. sou. não.
incomunicável. experiência. erro. 
constante tentativa. desconhecido. 
frases de espelhos. palavras como nós
em cordéis perdidos em gavetas. maturidade.
o que é isto? são palavras. como muletas
da minha incompreensão das coisas. como 
fogos fátuos de outro que só existe aqui, 
entre a espada e a parede do papel/significado.
continuidade de mim, reencontro com o que perdi,
processo de comunicação difícil e impossível.
escrevo para isto - para continuar a ser. para 
poder recriar-me à minha imagem. reencontrar,
enfim, alguém melhor dentro de mim para lembrar.
escrevo para continuar a pensar. para ser. melhor.

Escapando


não é de carro que vamos escapar.
é inverno todos os dias e chove, 
está frio. as escovas do limpa-vidros
marcam o ritmo do silêncio. passeamos
pelo litoral desolado. estradas em obras, 
casas fechadas. poucos carros a arriscar
o paralelo incerto. uma bomba de gasolina,
ao longe, apertada entre casas, ainda. 
a carne por demais presente sob as palavras:
está a chover cada vez mais.
não sei o que foi feito das pessoas.
parece que não vive aqui ninguém.
tenho de ter cuidado para não chegar tarde.
alguma vez partimos para algum lado?
qual é esta preocupação constante com o chegar
se nunca partimos? nunca levamos a nada.
trocamos de cara, trocamos os tons da voz, 
continuamos os mesmos por dentro. 
só noite à frente. uma língua de alcatrão.
as costas do desejo. o seu reverso solitário.
a culpa por ser demais humano, animal demais.
as cordas dos barcos apodrecem, neste mar
que circum-navegamos entediados, civilizados,
sob horários rígidos - os mesmos de sempre.
não é de carro que se consegue escapar. 
de avião, talvez, se as circunstâncias deixarem.