já repararam em que nos tornamos?
a nossa educação de nada nos vale.
os nossos sentidos não nos deixam sentir.
a nossa inteligência não consegue explicar
o que se passa à nossa volta, completamente.
perdemos demasiado tempo a desejar
o que nos ensinam que é desejável. perdemos
o contacto com quem nos rodeia. temos medo
dos nossos vizinhos. não conhecemos pessoas.
morremos de solidão no meio de tanta informação.
a nossa proximidade é artificial. nunca estivemos
tão longe. tão distantes dos nossos iguais. perdemos
a capacidade para a revolta. os ideais não comovem.
as nossas pedras passaram a likes no Facebook;
aplicamos ardis de crianças desocupadas a páginas,
a figuras. expressamos a nossa revolta em silêncio,
a premir teclas. na segurança do lar. do quarto.
da pessoa que somos no computador. confinados
em nós mesmos, cavernas de carne. não sabemos
ver. há quanto tempo não paramos para pensar?
vamos esquecer rapidamente que, um dia, política
e sociedade eram diferentes. vamos esquecer.
o mundo vai ser tão plano como a nossa sabedoria.
apenas vamos existir nós. eu. separado. vocês ali.
do outro lado. desconhecidos feitos corpos.
já repararam no egoísmo? já olharam com gula
para os sentimentos para depois os esbanjarem
quando os encontraram? entre medos, vontades
de poder, cansaço imenso de tudo? tesouro relativo,
alvo não capitalizado. aí, o que sentiram?
sabendo que caindo o céu se fecha e vos devora?
a sós.
os gritos não se escutam. caem para dentro. implodem.
amanhã começa. uma semana mais. 192 horas.
o imenso terror do tempo para preencher. já pensaram?
já alguma vez pressentiram que falharam a vida?