20 fevereiro 2012

Amor em tempos de troika


vou tentar mais uma vez ser sincero.
falar. não pensar. ser. ultrapassar o nojo
inicial que estas frases me provocam
para dizer algo maior que isto. pensar.
escrever. algo maior que eu e do que 
estes signos ordenados sobre a ilusão
de uma folha. ainda não disse nada.
converso. preparo as circunstâncias.
paleio de saco para preencher o espaço
em branco que ficaria no inicio da folha.
jogo com o meu corpo em madrugadas
confusas. desafio a morte dos segundos.
tento silenciar a voz interior que me fala
sempre. silêncio em mim. paz universal.
apagar as dores do corpo como rabiscos
mal dados numa folha suja. esquecer. 
fujo há demasiado tempo do amor, lugar
comum dos poemas. encontro de egos. 
a felicidade deixou de me aparecer em 
pessoa, dia estranho. tornou-se difusa.
quanta vontade de merecer a tristeza. 
encontrar alguma forma de sentir a física
dos erros cometidos. todos. estes anos 
em que me dou sem nunca me entregar,
demasiado confusos com a economia doente
e espasmódica e países a afundarem-se 
e alicerces e lama e perda do poder e precários
no mundo e tiques fascizantes de dirigentes
corruptos e desemprego e muito mais mundo 
noticiado, digerido e esquecido. infinito asco.
amor em tempos de troika. tão incompleto 
e belo como uma dádiva maior que o sangue.
momentos breves em que quem sou vem 
como uma onda e dou por mim vivo, respirando
atento à beleza de tudo. as curvas das letras
belas como as tuas ancas de mulher, fotografias
luminosas como olhos cheios de promessas,
vozes precisas e musica infinita, maior. significado
da pele. saber. defino-me lentamente, pleno e fácil.
orçamento-me. redescubro-me. reencontro-me
onde sempre estive. em mim. fora um pouco. 
em pânico por me saber tão pouco. saber
a pouco. sonho. dia longo e cheio de planos.
um dia mais de mãos-vazias. uma possibilidade
de recuperar uma identidade que transcende
nome e número. uma identidade real. alguém
mais que eu em mim. força. uma direcção longe
de promessas. são estes os tempos. silêncio 
fora dos signos. acreditar nas imagens. televisão
como espelho de quem somos, das mentiras 
que escolhemos. eu afasto-me do espelho. 
perco-me. revejo-me. perco-me. perco sonhos
e tento recuperar aquilo a que se chama viver.
é assim. caminhando sozinho. perdendo-me. 
atendendo à vontade de incendiar o mundo. 
mudar. ser outro. melhor. mais. afastar-me
das palavras e do que conheço. mundo.
completo. mais forte agora. não tenho nada.
nem pele nem sonhos nem coisas. de mãos
vazias preparo-me para partir. mundo. 
completo. algo melhor. sem palavras. silêncio
do equilíbrio. o céu é o mesmo. as horas passam.
a felicidade deixou de me aparecer em pessoa. 
um dia vou acordar e ser outro. o mesmo. alguém.
amor em tempos. lugar incomum do poema completo.

09 fevereiro 2012

"It is about recognising impermanence: that moment happened and was gone again, instantly. It was only by paying attention that I noticed it at all."



Clare Gallagher


aqui


07 fevereiro 2012

Longe


cada vez mais, esqueço-te. 
os esforços para te manter viva,
calor contra a pele de mim,
são cada vez mais uma inutilidade
que arrasto atrás da lembrança. 
quantos quilómetros nos separam?
sei onde vives, onde trabalhas,
compreendi também tarde demais
que, na realidade, nunca te conheci.
atravessei-te. chegamos ao outro 
lado de nós e não soubemos ver
mais nada para além do vazio.
um dia, sei agora, a felicidade cairá
novamente no meu colo como pedra.
estarei mais completo. serei completo.
depois de pensar muito e vendo 
com mais atenção, tu tiveste mais sorte: 
esqueceste os teus sonhos e ficaste,
para outro lado, por outro lado, bem
longe de mim.

06 fevereiro 2012

(Un)like me


já repararam em que nos tornamos?
a nossa educação de nada nos vale.
os nossos sentidos não nos deixam sentir.
a nossa inteligência não consegue explicar
o que se passa à nossa volta, completamente.
perdemos demasiado tempo a desejar
o que nos ensinam que é desejável. perdemos
o contacto com quem nos rodeia. temos medo
dos nossos vizinhos. não conhecemos pessoas.
morremos de solidão no meio de tanta informação.
a nossa proximidade é artificial. nunca estivemos
tão longe. tão distantes dos nossos iguais. perdemos
a capacidade para a revolta. os ideais não comovem.
as nossas pedras passaram a likes no Facebook;
aplicamos ardis de crianças desocupadas a páginas,
a figuras. expressamos a nossa revolta em silêncio,
a premir teclas. na segurança do lar. do quarto.
da pessoa que somos no computador. confinados
em nós mesmos, cavernas de carne. não sabemos 
ver. há quanto tempo não paramos para pensar? 
vamos esquecer rapidamente que, um dia, política
e sociedade eram diferentes. vamos esquecer. 
o mundo vai ser tão plano como a nossa sabedoria.
apenas vamos existir nós. eu. separado. vocês ali.
do outro lado. desconhecidos feitos corpos. 
já repararam no egoísmo? já olharam com gula
para os sentimentos para depois os esbanjarem 
quando os encontraram? entre medos, vontades 
de poder, cansaço imenso de tudo? tesouro relativo,
alvo não capitalizado. aí, o que sentiram? 
sabendo que caindo o céu se fecha e vos devora?
                              a sós.
os gritos não se escutam. caem para dentro. implodem.
amanhã começa. uma semana mais. 192 horas.
o imenso terror do tempo para preencher. já pensaram?
já alguma vez pressentiram que falharam a vida?

01 fevereiro 2012

Let's grab some coffee


agarra a chávena com força.
não caias entre a agitação
dos gestos, a perturbação 
das palavras. volúvel tempo
de passagem, doença mental
que te rói os ossos do ser 
e destrói a alegria dos dias. 
uma chávena de conforto 
com a duração de conversa 
longa. esplanada. supino
solar. passam-se as dores 
como num jogo de crianças.
"passa a sida" - toque mágico,
inocente toque de morte 
no recreio. dizes encosta o ouvido
no meu peito e diz-me se ainda
escutas algo; se assim consegues 
compreender o que fiz comigo.
agarra a chávena, quente, 
aguarda um pouco mais, pede
um pouco mais de açúcar para 
adoçar a tua voz e o que dizes.

a esplanada está a fechar


olho para cima e as nuvens no céu azul 
limpo são pedaços do meu cérebro 
explodido. a esplanada tem música, 
vozes soltas e brutas, o calor já se foi. 
o inverno regressa. este granito é solidão
de lágrimas. casas caem enquanto se pensa
em divertimentos nocturnos. pensar? como?
não é daqui que faço parte. desligado robot
sem missão programada, sem uso, contando
tostões de uma pobreza remediada. cerveja
terminada. sombras de pessoas e edifícios
e coisas alargam-se na praça. frio sobretudo.
a invisível repetição das horas como unhas 
invisíveis no quadro por preencher. têmporas.
estou aqui como um estranho. distante. 
refugiado na economia das palavras, medo
pela forma como elas se gastam enquanto
rolam pela língua, boca fora, em busca 
de compreensão, um significado para os sons
articulados, quase como música, quase como
rochas pesadas que se tiram de sobre o peito.
não entendo nada. observo. registo mental.
os gestos, fragmentos em acção. observo.
tento ver e tento. extrair sentido. um dente.
olhar pessoas e ver passados. contar rugas
nas caras que são tapetes calcados por
todos os calcanhares do mundo. há tempo 
demasiado para encher. estes dias não são
meus. não conheço o seu dono. silencioso, 
escrevo. ainda. não possuo nada. não falo.
silêncio. ruína. nina simone e nuvens. azul.
a esplanada está a fechar. começa a chuva.

29 janeiro 2012

Música feita luz




o visualizador é mais que simples
forma orgânica de ver a música. é
um fenómeno místico. exploração
do espaço, entendimento molecular,
taça onde se pode espreitar o futuro,
a separação das galáxias e a nossa
solidão inteligente no meio de tudo.