"o facto é que ninguém sabe o quanto odeio estar vivo. abrir os olhos, acordar de novo para nada - ninguém ao meu lado, nada que fazer, nenhum futuro pelo qual aspirar - e ter de encontrar uma forma para preencher as 24 horas do dia, as 12 que me restam, é uma tortura lenta e dolorosa. há dias em que me apetece ficar na cama, luzes apagadas, escuridão total e silêncio emprestado à morte: a uma hipótese de descanso, uma forma de deixar de pensar. mas depois começo a fazer planos, a pensar de novo e parece que tudo cai sobre mim novamente. todo o peso da minha respiração se concentra sobre o peito que se afunda no colchão, no medo. o que precisei de fazer para falhar assim? para chegar aqui a este quarto quase vazio e já cheio de recordações como uma comodidade fora de moda. algo que ninguém quer tocar e ver. muito menos sentir. como aqueles objectos metálicos expostos por demasiado tempo, com uma patina de pó e sol que os escureceu e alterou até os tornar irreconhecíveis, feios, maus. assim sou eu, na minha cama, todos os dias para mim mesmo. abrir os olhos e pensar: o que vou fazer hoje? virar-me para o outro lado. esperar que o calor reconfortante do sono se dissipe e a realidade se instale. os olhos habituam-se à penumbra. nada de novo. o telemóvel não diz nada de novo. mais das mesmas vozes cheias de ódio por alguém outro que não eu, mas que usa a minha cara. nenhum plano para o futuro. nada. silêncio. o despertador toca uma, duas, três vezes, até me lembrar de o silenciar. compasso de respiração. o pó assenta novamente. pensar que todos os planos falharam. os investimentos ruíram. as pessoas partiram e restei eu para trás. um negativo do que fui. vazio de significado. a luz magoa-me quando estou assim. sinto os olhos dos outros e a inteligência que escondem a cortar-me à procura do que escondo - e eu escondo tão pouco, nada. tenho as mãos vazias e ninguém vê isso. nem palavras tenho para oferecer. estou sozinho e não compreendo nada. e ainda nem sequer acendi a luz. espero pelo momento mais propício. não quero lançar luz sobre esta desilusão mais. tento telefonar a alguém, mas engano-me no número. acho eu. pelo menos falam comigo como se fosse outro. acho que hoje não vou sair da cama. tenho vontade de desligar tudo o que me liga ao mundo. telefone, internet, campainha. ficar aqui sem ver ninguém. sem estorvar a vida de mais ninguém. dou por mim a pensar que existencialmente sou um erro. algo que apareceu para incomodar, para minar a vida das pessoas. pais, irmãos, amigos, companheiras, vivo entre eles como um vagabundo. um mitra que lhes rouba tempo, preocupações, por vezes trocos. gasto a sua simpatia e generosidade entre as minhas más decisões. existo, sou como sou e chega para ser suficientemente mau. que exemplo, que pessoa serei para as crianças que me rodeiam? há luz debaixo da porta. que horas serão? lembro-me de me contarem a gesta da minha família, desde sempre gente humilde que acreditava no trabalho e explodia por dentro por causa disso; ou ficavam doidos e transpiravam ódio sobre tudo e todos. mau sangue. o douro aqui demasiado perto encheu-nos as veias de lama. posso contar-vos quem sou até à 4 gerações atrás: músicos, enfermeiros, sapateiros, barbeiros, barqueiros, carvoeiros, bancário, mestre de obras - tudo isto para chegar a mim, o fim de tudo. inteligência de nada. mescla de vontades e confusões. ainda assim, respiro. a máquina não se desliga. continua. e este cansaço fantástico de tudo aumenta. inspira, expira, respira. verifica se o teu corpo todo ainda responde. planeia novas formas de te matar lentamente, como quem se diverte e tem um plano maior a cumprir. mas hoje vou ficar na cama. porta e janela fechada. escuro e vazio como dentro de mim."
fragmentos de um diário encontrado no lixo em Vila Nova de Gaia
