29 março 2012

Porque escrevo

para Paulo Lucas



escrevo-te, meu rapaz, para que esta doença
não te entre nos ossos; escrevo-te para que
a ira e a fúria não te consumam pleno, este
calor que compreendo e me sobe de dentro;
escrevo-te porque é a única forma que tenho
de falar. não acredito que sejamos todos iguais.
uns são o que são e os outros um pouco menos.
é assim a vida. indiferente a nós e às nossas dores
e vontades. apesar dos meus esforços, sou nada.
nunca serei mais que nada. arrancaram-me a vida
de dentro vezes demais para a voltar a recuperar. 
ando, existo: estou perdido e não sei o que fazer.
sou uma colecção de poeira e outras coisas sujas; 
infinita amálgama de ócio. é esta a minha verdade.
a poesia é as minhas pernas. sobre elas levo os olhos, 
a fotografia do real relativo do mundo, imperfeito
relato da minha solidão. desde sempre que tento 
chegar ao mundo e ele me escapa. pessoas, amigos,
namoradas, dinheiro, amor estiveram sempre longe,
do outro lado de um invisível vidro. sempre longe,
entre imensas noites em claro, tentando compreender
o que se passa à minha volta, em mim, nos outros.
há o toque de midas, o meu é o toque de merda. 
sou destrutivo, feio, cada vez mais velho, tudo o que toco
se desfaz e desaparece como levado por águas
que ninguém vê ou sente. sinto-me demasiado só
dentro da minha cabeça, sem conseguir falar 
a confusão que levo dentro, sem uma única pessoa
que esqueça tudo isso e me faça parar de pensar,
sem medo de mim ou do que sou capaz de fazer 
com mãos e palavras. imunidade - sou demasiado
viral para isso. escrevo-te para que saibas isto 
e me esqueças e esqueças tudo o que te disse 
e ensinei ao longo de demasiados anos estragados
pela minha forma de ser. não tenho filhos, sabes, 
e sinto que nunca os terei. para isso é preciso amar, 
esquecer o egoísmo de anos e pensar num futuro
que não vejo nem consigo compreender. por isso 
falo-te, parte possível do meu sangue, do fundo 
de mais um dia que se vai arrastar até à noite 
sem nunca ser mais do que isso: 24 horas completas.
a fúria, o calor, a fogueira de dentro apenas serviu 
como um suicídio lento, uma forma de retirar forma 
à forma do mundo. dizia: esquece tudo o que te disse 
sobre o amor, sobre as pessoas, sobre quem somos 
ou tentamos. faz o teu futuro com a forma que quiseres, 
dá-te às pessoas, aproxima-te do que sentes. o mundo
existe em ti e será o que quiseres. não receies partir
porque terás sempre alguém à tua espera no sítio certo.
acima de tudo, sê tudo o que nunca vou conseguir ser,
completo, único, eterno, uma boa memória para todos.



15 março 2012

Confissões analógicas


"o facto é que ninguém sabe o quanto odeio estar vivo. abrir os olhos, acordar de novo para nada - ninguém ao meu lado, nada que fazer, nenhum futuro pelo qual aspirar - e ter de encontrar uma forma para preencher as 24 horas do dia, as 12 que me restam, é uma tortura lenta e dolorosa. há dias em que me apetece ficar na cama, luzes apagadas, escuridão total e silêncio emprestado à morte: a uma hipótese de descanso, uma forma de deixar de pensar. mas depois começo a fazer planos, a pensar de novo e parece que tudo cai sobre mim novamente. todo o peso da minha respiração se concentra sobre o peito que se afunda no colchão, no medo. o que precisei de fazer para falhar assim? para chegar aqui a este quarto quase vazio e já cheio de recordações como uma comodidade fora de moda. algo que ninguém quer tocar e ver. muito menos sentir. como aqueles objectos metálicos expostos por demasiado tempo, com uma patina de pó e sol que os escureceu e alterou até os tornar irreconhecíveis, feios, maus. assim sou eu, na minha cama, todos os dias para mim mesmo. abrir os olhos e pensar: o que vou fazer hoje? virar-me para o outro lado. esperar que o calor reconfortante do sono se dissipe e a realidade se instale. os olhos habituam-se à penumbra. nada de novo. o telemóvel não diz nada de novo. mais das mesmas vozes cheias de ódio por alguém outro que não eu,  mas que usa a minha cara. nenhum plano para o futuro. nada. silêncio. o despertador toca uma, duas, três vezes, até me lembrar de o silenciar. compasso de respiração. o pó assenta novamente. pensar que todos os planos falharam. os investimentos ruíram. as pessoas partiram e restei eu para trás. um negativo do que fui. vazio de significado. a luz magoa-me quando estou assim. sinto os olhos dos outros e a inteligência que escondem a cortar-me à procura do que escondo - e eu escondo tão pouco, nada. tenho as mãos vazias e ninguém vê isso. nem palavras tenho para oferecer. estou sozinho e não compreendo nada. e ainda nem sequer acendi a luz. espero pelo momento mais propício. não quero lançar luz sobre esta desilusão mais. tento telefonar a alguém, mas engano-me no número. acho eu. pelo menos falam comigo como se fosse outro. acho que hoje não vou sair da cama. tenho vontade de desligar tudo o que me liga ao mundo. telefone, internet, campainha. ficar aqui sem ver ninguém. sem estorvar a vida de mais ninguém. dou por mim a pensar que existencialmente sou um erro. algo que apareceu para incomodar, para minar a vida das pessoas. pais, irmãos, amigos, companheiras, vivo entre eles como um vagabundo. um mitra que lhes rouba tempo, preocupações, por vezes trocos. gasto a sua simpatia e generosidade entre as minhas más decisões. existo, sou como sou e chega para ser suficientemente mau. que exemplo, que pessoa serei para as crianças que me rodeiam? há luz debaixo da porta. que horas serão? lembro-me de me contarem a gesta da minha família, desde sempre gente humilde que acreditava no trabalho e explodia por dentro por causa disso; ou ficavam doidos e transpiravam ódio sobre tudo e todos. mau sangue. o douro aqui demasiado perto encheu-nos as veias de lama. posso contar-vos quem sou até à 4 gerações atrás: músicos, enfermeiros, sapateiros, barbeiros, barqueiros, carvoeiros, bancário, mestre de obras - tudo isto para chegar a mim, o fim de tudo. inteligência de nada. mescla de vontades e confusões. ainda assim, respiro. a máquina não se desliga. continua. e este cansaço fantástico de tudo aumenta. inspira, expira, respira. verifica se o teu corpo todo ainda responde. planeia novas formas de te matar lentamente, como quem se diverte e tem um plano maior a cumprir. mas hoje vou ficar na cama. porta e janela fechada. escuro e vazio como dentro de mim."


fragmentos de um diário encontrado no lixo em Vila Nova de Gaia

13 março 2012

Esforço solitário


não é o meu esforço que vai acabar com a minha solidão. 
no fundo, quando tudo termina e se desligam as luzes
e os corpos, voltamos. vazio. vozes primordiais sussurrando. 
esforço vão, amarga fortuna, amor ardente. fundo.
eloquentes silêncios, mãos que escorrem como água
sobre a pele do tempo. absoluta indiferença:
"preocupas-me tanto que preciso de me afastar, 
não me fazes bem. sinto algo quando estou contigo, 
um nojo, repulsa pelo sexo como o fazes, pelo teu corpo 
total e absoluto perdido entre suor e gemidos. 
o teu toque dá-me vómitos". luzes desligadas
para mais ninguém ouvir as palavras contadas,
olhares frente a frente, um mentindo a indiferença 
do outro. vezes e vezes sem conta o mesmo, sem sentir
nada mais que uma débil vibração de poder,
vezes e vezes sem conta matando a ideia coração.
todas falam, mas nunca ninguém me perguntou o que dizia, 
se tentava comunicar algo no silêncio escuro,
no espaço vazio entre dois corpos com o meu corpo mudo. 
uma outra, quando dissemos adeus pela última vez,
disse-me, de olhos bem abertos e sérios 
"nunca mais vais encontrar alguém que faça amor 
contigo como eu faço" - e eu sabia que o que ela fazia
não era amor, era arrancar-me da pele o castigo 
por existir na vida dela, por ainda lá estar. terminamos
e só ficou esta maldição infantil para trás e demasiados
anos perdidos. outras ainda, quase todas, dizem o mesmo:
"demasiado focado no sexo, incapaz de amar, não reconhece
a dádiva do meu corpo" e depois fodem e contam com o primeiro 
que lhes aparece, entregam o seu amor básico na ponta da piça
e de vinte minutos de esquecimento. felicidade, a quanto obrigas.
por isso não, não é o meu esforço que vai terminar a solidão, 
mas sim a solidão que com esforço termina em mim. e bem.
1000 anos sozinho não serão suficientes para vos apagar de mim,
mulheres que amei, mortes várias que trouxe para mim e que refiz
em expressões vazias, artes várias de morrer continuando a respirar.
hoje sou outro, menos carne, sem espírito, nada mais para entregar.


Nota: o autor deste blog não pode em nada ser responsabilizado pelos conteúdos deste poema já que nem sequer concorda com nada destas invenções estilísticas nada pragmáticas.

08 março 2012

Pedido

não sei como sair daqui.
alguém me explica?

20 fevereiro 2012

Amor em tempos de troika


vou tentar mais uma vez ser sincero.
falar. não pensar. ser. ultrapassar o nojo
inicial que estas frases me provocam
para dizer algo maior que isto. pensar.
escrever. algo maior que eu e do que 
estes signos ordenados sobre a ilusão
de uma folha. ainda não disse nada.
converso. preparo as circunstâncias.
paleio de saco para preencher o espaço
em branco que ficaria no inicio da folha.
jogo com o meu corpo em madrugadas
confusas. desafio a morte dos segundos.
tento silenciar a voz interior que me fala
sempre. silêncio em mim. paz universal.
apagar as dores do corpo como rabiscos
mal dados numa folha suja. esquecer. 
fujo há demasiado tempo do amor, lugar
comum dos poemas. encontro de egos. 
a felicidade deixou de me aparecer em 
pessoa, dia estranho. tornou-se difusa.
quanta vontade de merecer a tristeza. 
encontrar alguma forma de sentir a física
dos erros cometidos. todos. estes anos 
em que me dou sem nunca me entregar,
demasiado confusos com a economia doente
e espasmódica e países a afundarem-se 
e alicerces e lama e perda do poder e precários
no mundo e tiques fascizantes de dirigentes
corruptos e desemprego e muito mais mundo 
noticiado, digerido e esquecido. infinito asco.
amor em tempos de troika. tão incompleto 
e belo como uma dádiva maior que o sangue.
momentos breves em que quem sou vem 
como uma onda e dou por mim vivo, respirando
atento à beleza de tudo. as curvas das letras
belas como as tuas ancas de mulher, fotografias
luminosas como olhos cheios de promessas,
vozes precisas e musica infinita, maior. significado
da pele. saber. defino-me lentamente, pleno e fácil.
orçamento-me. redescubro-me. reencontro-me
onde sempre estive. em mim. fora um pouco. 
em pânico por me saber tão pouco. saber
a pouco. sonho. dia longo e cheio de planos.
um dia mais de mãos-vazias. uma possibilidade
de recuperar uma identidade que transcende
nome e número. uma identidade real. alguém
mais que eu em mim. força. uma direcção longe
de promessas. são estes os tempos. silêncio 
fora dos signos. acreditar nas imagens. televisão
como espelho de quem somos, das mentiras 
que escolhemos. eu afasto-me do espelho. 
perco-me. revejo-me. perco-me. perco sonhos
e tento recuperar aquilo a que se chama viver.
é assim. caminhando sozinho. perdendo-me. 
atendendo à vontade de incendiar o mundo. 
mudar. ser outro. melhor. mais. afastar-me
das palavras e do que conheço. mundo.
completo. mais forte agora. não tenho nada.
nem pele nem sonhos nem coisas. de mãos
vazias preparo-me para partir. mundo. 
completo. algo melhor. sem palavras. silêncio
do equilíbrio. o céu é o mesmo. as horas passam.
a felicidade deixou de me aparecer em pessoa. 
um dia vou acordar e ser outro. o mesmo. alguém.
amor em tempos. lugar incomum do poema completo.

09 fevereiro 2012

"It is about recognising impermanence: that moment happened and was gone again, instantly. It was only by paying attention that I noticed it at all."



Clare Gallagher


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