31 março 2012
Diz-me a verdade
"diz-me a verdade, gostas do gonçalo, não gostas?"
olhas com a mesma suavidade com que me olhavas.
já passou demasiado tempo sobre isto, mas recordo.
o corpo inconsciente aproxima-se do dele sem dares
conta. a atracção eterna, a gravidade da queda: tu-ele,
ele-em-ti e vocês-na-minha-memória-de-nós. assim:
ele não sai do teu lado. separamo-nos na fila para sair
do bar e a tua nuca cheirava a outras mãos. presencio
tudo, espectador, impotente como todos. máquina de
olhar, frio registo do calor da tua voz próxima, cúmplice.
ele fala. vi-te sorrir como já não via aos anos. tinhas bebido
também. sinto falta da tua espiral de loucura. dói onde
devias estar tu. falam noutro bar, mas estou cansado
desta noite, do correr constante de bar em bar em bar
procurando uma coisa que nunca encontro. caminhei
horas sozinho para queimar tempo para chegar a ti.
tinhas outro. outra vez. outra. novamente. merda! onde
dói mais, como sempre, é na descoberta constante
de que a ausência não faz diferença. sou uma pessoa
que se apaga, que se esquece. o estúpido sábio na torre
de marfim - ou num rés-do-chão suburbano, a solidão
possível, escolhida, imposta. tolerante… minto. onde
dói mais é no saber que haverá sempre outro onde
encontrar a felicidade, o corpo redondo e completo.
o esquecimento.
29 março 2012
Porque escrevo
para Paulo Lucas
escrevo-te, meu rapaz, para que esta doença
não te entre nos ossos; escrevo-te para que
a ira e a fúria não te consumam pleno, este
calor que compreendo e me sobe de dentro;
escrevo-te porque é a única forma que tenho
de falar. não acredito que sejamos todos iguais.
uns são o que são e os outros um pouco menos.
é assim a vida. indiferente a nós e às nossas dores
e vontades. apesar dos meus esforços, sou nada.
nunca serei mais que nada. arrancaram-me a vida
de dentro vezes demais para a voltar a recuperar.
ando, existo: estou perdido e não sei o que fazer.
sou uma colecção de poeira e outras coisas sujas;
infinita amálgama de ócio. é esta a minha verdade.
a poesia é as minhas pernas. sobre elas levo os olhos,
a fotografia do real relativo do mundo, imperfeito
relato da minha solidão. desde sempre que tento
chegar ao mundo e ele me escapa. pessoas, amigos,
namoradas, dinheiro, amor estiveram sempre longe,
do outro lado de um invisível vidro. sempre longe,
entre imensas noites em claro, tentando compreender
o que se passa à minha volta, em mim, nos outros.
há o toque de midas, o meu é o toque de merda.
sou destrutivo, feio, cada vez mais velho, tudo o que toco
se desfaz e desaparece como levado por águas
que ninguém vê ou sente. sinto-me demasiado só
dentro da minha cabeça, sem conseguir falar
a confusão que levo dentro, sem uma única pessoa
que esqueça tudo isso e me faça parar de pensar,
sem medo de mim ou do que sou capaz de fazer
com mãos e palavras. imunidade - sou demasiado
viral para isso. escrevo-te para que saibas isto
e me esqueças e esqueças tudo o que te disse
e ensinei ao longo de demasiados anos estragados
pela minha forma de ser. não tenho filhos, sabes,
e sinto que nunca os terei. para isso é preciso amar,
esquecer o egoísmo de anos e pensar num futuro
que não vejo nem consigo compreender. por isso
falo-te, parte possível do meu sangue, do fundo
de mais um dia que se vai arrastar até à noite
sem nunca ser mais do que isso: 24 horas completas.
a fúria, o calor, a fogueira de dentro apenas serviu
como um suicídio lento, uma forma de retirar forma
à forma do mundo. dizia: esquece tudo o que te disse
sobre o amor, sobre as pessoas, sobre quem somos
ou tentamos. faz o teu futuro com a forma que quiseres,
dá-te às pessoas, aproxima-te do que sentes. o mundo
existe em ti e será o que quiseres. não receies partir
porque terás sempre alguém à tua espera no sítio certo.
acima de tudo, sê tudo o que nunca vou conseguir ser,
completo, único, eterno, uma boa memória para todos.
15 março 2012
Confissões analógicas
"o facto é que ninguém sabe o quanto odeio estar vivo. abrir os olhos, acordar de novo para nada - ninguém ao meu lado, nada que fazer, nenhum futuro pelo qual aspirar - e ter de encontrar uma forma para preencher as 24 horas do dia, as 12 que me restam, é uma tortura lenta e dolorosa. há dias em que me apetece ficar na cama, luzes apagadas, escuridão total e silêncio emprestado à morte: a uma hipótese de descanso, uma forma de deixar de pensar. mas depois começo a fazer planos, a pensar de novo e parece que tudo cai sobre mim novamente. todo o peso da minha respiração se concentra sobre o peito que se afunda no colchão, no medo. o que precisei de fazer para falhar assim? para chegar aqui a este quarto quase vazio e já cheio de recordações como uma comodidade fora de moda. algo que ninguém quer tocar e ver. muito menos sentir. como aqueles objectos metálicos expostos por demasiado tempo, com uma patina de pó e sol que os escureceu e alterou até os tornar irreconhecíveis, feios, maus. assim sou eu, na minha cama, todos os dias para mim mesmo. abrir os olhos e pensar: o que vou fazer hoje? virar-me para o outro lado. esperar que o calor reconfortante do sono se dissipe e a realidade se instale. os olhos habituam-se à penumbra. nada de novo. o telemóvel não diz nada de novo. mais das mesmas vozes cheias de ódio por alguém outro que não eu, mas que usa a minha cara. nenhum plano para o futuro. nada. silêncio. o despertador toca uma, duas, três vezes, até me lembrar de o silenciar. compasso de respiração. o pó assenta novamente. pensar que todos os planos falharam. os investimentos ruíram. as pessoas partiram e restei eu para trás. um negativo do que fui. vazio de significado. a luz magoa-me quando estou assim. sinto os olhos dos outros e a inteligência que escondem a cortar-me à procura do que escondo - e eu escondo tão pouco, nada. tenho as mãos vazias e ninguém vê isso. nem palavras tenho para oferecer. estou sozinho e não compreendo nada. e ainda nem sequer acendi a luz. espero pelo momento mais propício. não quero lançar luz sobre esta desilusão mais. tento telefonar a alguém, mas engano-me no número. acho eu. pelo menos falam comigo como se fosse outro. acho que hoje não vou sair da cama. tenho vontade de desligar tudo o que me liga ao mundo. telefone, internet, campainha. ficar aqui sem ver ninguém. sem estorvar a vida de mais ninguém. dou por mim a pensar que existencialmente sou um erro. algo que apareceu para incomodar, para minar a vida das pessoas. pais, irmãos, amigos, companheiras, vivo entre eles como um vagabundo. um mitra que lhes rouba tempo, preocupações, por vezes trocos. gasto a sua simpatia e generosidade entre as minhas más decisões. existo, sou como sou e chega para ser suficientemente mau. que exemplo, que pessoa serei para as crianças que me rodeiam? há luz debaixo da porta. que horas serão? lembro-me de me contarem a gesta da minha família, desde sempre gente humilde que acreditava no trabalho e explodia por dentro por causa disso; ou ficavam doidos e transpiravam ódio sobre tudo e todos. mau sangue. o douro aqui demasiado perto encheu-nos as veias de lama. posso contar-vos quem sou até à 4 gerações atrás: músicos, enfermeiros, sapateiros, barbeiros, barqueiros, carvoeiros, bancário, mestre de obras - tudo isto para chegar a mim, o fim de tudo. inteligência de nada. mescla de vontades e confusões. ainda assim, respiro. a máquina não se desliga. continua. e este cansaço fantástico de tudo aumenta. inspira, expira, respira. verifica se o teu corpo todo ainda responde. planeia novas formas de te matar lentamente, como quem se diverte e tem um plano maior a cumprir. mas hoje vou ficar na cama. porta e janela fechada. escuro e vazio como dentro de mim."
fragmentos de um diário encontrado no lixo em Vila Nova de Gaia
13 março 2012
Esforço solitário
não é o meu esforço que vai acabar com a minha solidão.
no fundo, quando tudo termina e se desligam as luzes
e os corpos, voltamos. vazio. vozes primordiais sussurrando.
esforço vão, amarga fortuna, amor ardente. fundo.
eloquentes silêncios, mãos que escorrem como água
sobre a pele do tempo. absoluta indiferença:
"preocupas-me tanto que preciso de me afastar,
não me fazes bem. sinto algo quando estou contigo,
um nojo, repulsa pelo sexo como o fazes, pelo teu corpo
total e absoluto perdido entre suor e gemidos.
o teu toque dá-me vómitos". luzes desligadas
para mais ninguém ouvir as palavras contadas,
olhares frente a frente, um mentindo a indiferença
do outro. vezes e vezes sem conta o mesmo, sem sentir
nada mais que uma débil vibração de poder,
vezes e vezes sem conta matando a ideia coração.
todas falam, mas nunca ninguém me perguntou o que dizia,
se tentava comunicar algo no silêncio escuro,
no espaço vazio entre dois corpos com o meu corpo mudo.
uma outra, quando dissemos adeus pela última vez,
disse-me, de olhos bem abertos e sérios
"nunca mais vais encontrar alguém que faça amor
contigo como eu faço" - e eu sabia que o que ela fazia
não era amor, era arrancar-me da pele o castigo
por existir na vida dela, por ainda lá estar. terminamos
e só ficou esta maldição infantil para trás e demasiados
anos perdidos. outras ainda, quase todas, dizem o mesmo:
"demasiado focado no sexo, incapaz de amar, não reconhece
a dádiva do meu corpo" e depois fodem e contam com o primeiro
que lhes aparece, entregam o seu amor básico na ponta da piça
e de vinte minutos de esquecimento. felicidade, a quanto obrigas.
por isso não, não é o meu esforço que vai terminar a solidão,
mas sim a solidão que com esforço termina em mim. e bem.
1000 anos sozinho não serão suficientes para vos apagar de mim,
mulheres que amei, mortes várias que trouxe para mim e que refiz
em expressões vazias, artes várias de morrer continuando a respirar.
hoje sou outro, menos carne, sem espírito, nada mais para entregar.
Nota: o autor deste blog não pode em nada ser responsabilizado pelos conteúdos deste poema já que nem sequer concorda com nada destas invenções estilísticas nada pragmáticas.
12 março 2012
08 março 2012
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