para Paulo Lucas
escrevo-te, meu rapaz, para que esta doença
não te entre nos ossos; escrevo-te para que
a ira e a fúria não te consumam pleno, este
calor que compreendo e me sobe de dentro;
escrevo-te porque é a única forma que tenho
de falar. não acredito que sejamos todos iguais.
uns são o que são e os outros um pouco menos.
é assim a vida. indiferente a nós e às nossas dores
e vontades. apesar dos meus esforços, sou nada.
nunca serei mais que nada. arrancaram-me a vida
de dentro vezes demais para a voltar a recuperar.
ando, existo: estou perdido e não sei o que fazer.
sou uma colecção de poeira e outras coisas sujas;
infinita amálgama de ócio. é esta a minha verdade.
a poesia é as minhas pernas. sobre elas levo os olhos,
a fotografia do real relativo do mundo, imperfeito
relato da minha solidão. desde sempre que tento
chegar ao mundo e ele me escapa. pessoas, amigos,
namoradas, dinheiro, amor estiveram sempre longe,
do outro lado de um invisível vidro. sempre longe,
entre imensas noites em claro, tentando compreender
o que se passa à minha volta, em mim, nos outros.
há o toque de midas, o meu é o toque de merda.
sou destrutivo, feio, cada vez mais velho, tudo o que toco
se desfaz e desaparece como levado por águas
que ninguém vê ou sente. sinto-me demasiado só
dentro da minha cabeça, sem conseguir falar
a confusão que levo dentro, sem uma única pessoa
que esqueça tudo isso e me faça parar de pensar,
sem medo de mim ou do que sou capaz de fazer
com mãos e palavras. imunidade - sou demasiado
viral para isso. escrevo-te para que saibas isto
e me esqueças e esqueças tudo o que te disse
e ensinei ao longo de demasiados anos estragados
pela minha forma de ser. não tenho filhos, sabes,
e sinto que nunca os terei. para isso é preciso amar,
esquecer o egoísmo de anos e pensar num futuro
que não vejo nem consigo compreender. por isso
falo-te, parte possível do meu sangue, do fundo
de mais um dia que se vai arrastar até à noite
sem nunca ser mais do que isso: 24 horas completas.
a fúria, o calor, a fogueira de dentro apenas serviu
como um suicídio lento, uma forma de retirar forma
à forma do mundo. dizia: esquece tudo o que te disse
sobre o amor, sobre as pessoas, sobre quem somos
ou tentamos. faz o teu futuro com a forma que quiseres,
dá-te às pessoas, aproxima-te do que sentes. o mundo
existe em ti e será o que quiseres. não receies partir
porque terás sempre alguém à tua espera no sítio certo.
acima de tudo, sê tudo o que nunca vou conseguir ser,
completo, único, eterno, uma boa memória para todos.