12 abril 2012

Estrada


quando o fim de uma estrada e o início
de outra são o mesmo lugar encontrado,
pode recomeçar-se a viver. respiro. vivo. 
sempre.

Circular


É isto que os círculos fazem: fecham-se;
partem; continuam a girar de ar vazio.

08 abril 2012

Sem beleza e assombrados pela morte


Sem beleza e assombrados pela morte
fechamo-nos todos aqui debaixo, cave
funda do nosso silêncio abafado por música. 
amigos sem amor, amor sem amigos 
e a batida eterna que nos afasta de tudo.
não bebi. não me consigo perder desta forma.
esquecer as tragédias pessoais, a solidão
acompanhada de quem não tem nunca 
ninguém a seu lado quando chega a hora 
de ir. não sei o que fazer para deixar de sentir
esta imobilidade maior que o tempo, maior
que a noção de espaço compreendida. 
caímos neste vão escuro para outro lado, longe 
de nós mais um pouco, quase nada de outro.
Eu falo de mim — daqui —,
desta central,
pelo microfone do corpo,
por esse fio que vem do fundo
eu me irradio:

assim, numa transmissão de
sustos e rangidos,
veia e voz, ao vivo, sob tanto
sangue: pantera escarlate
que passa e pisa

e se espatifa nesse chão:
pata de lacre,
grito, pingo sobre o alvo
tão tátil da minha carne,
nos panos

repentinos do meu espanto,
nas janelas
onde me debruço sucessivo
e vário, sequência de mim,
em fotonovelas

me desdobro — quadro por quadro,
nos desenhos
de dentro do que sou e projeto,
aos poucos — plano e pausa —
para fora

com a vida que me veste
pelo avesso:
— filmes de sêmen onde publico
figuras de suor e celulóide,
numa lâmina

de velocidade e de lembrança,
em fotogramas
de esperas e procuras — falha,
folha de slides-células, sopro
e pulso,

página de pele em que escrevo
o uso,
a articulada letra do meu gesto,
o rascunho de unhas & rasuras
feito à unha

nas nuas marcas do meu corpo
no espaço
e nos lençóis da claridade,
monograma, silhueta, cadência,
e a fala

que se imprime nesta fita,
neste sulco:
— a linguagem como um fim,
— a linguagem por um fio,
e a morte em morse.


- Armando Freitas Filho
in Antologia da Novíssima Poesia Brasileira, Livros Horizonte

deste blog 

05 abril 2012

O amor, só, não chega


"o amor, só, não chega."

o amor não chega. esperamos sentados,
e ele continua atrasado. passeamos ruas,
passamos estradas e nem lugar dele. 
o amor chega atrasado, quando quer chegar. 
ninguém viu o amor; ninguém sabe dizer
a sua forma ou razão; por onde parou. 
e o amor, só, não chega. nunca. espera…
não, não chegam as palavras faladas 
em línguas sempre estranhas - a confusão 
de olhos que ignoram o que os olhos sabem.
o amor não chega, só, e esperamos fumando.
cadáveres amarrados aos nossos pés como 
grilhetas, como musgo nas raízes da vida, 
uma doença que se entranha e apodrece.
uma velha grita a um canto, o amor é feio
como a aparência deste poema, certa está. 
e foram feias também as horas perdidas 
a escrever, à espera do amor entre cafés, 
cigarros e gatafunhadas arranhadas no papel, 
os rostos de estranhos, sempre mais. gente.
só o amor não chega. gente que chega. fica.
volta a partir sozinha. desaparecem lentamente
como imagens que se esbatem debaixo da luz.
mesas que se esvaem lentamente. falso sangue 
andando de olhos abertos em direcção a nada. 
redescoberto o silêncio, olho em volta calmamente. 
o amor não chegou.

31 março 2012

Diz-me a verdade


"diz-me a verdade, gostas do gonçalo, não gostas?"

olhas com a mesma suavidade com que me olhavas.
já passou demasiado tempo sobre isto, mas recordo.
o corpo inconsciente aproxima-se do dele sem dares 
conta. a atracção eterna, a gravidade da queda: tu-ele,
ele-em-ti e vocês-na-minha-memória-de-nós. assim:
ele não sai do teu lado. separamo-nos na fila para sair 
do bar e a tua nuca cheirava a outras mãos. presencio 
tudo, espectador, impotente como todos. máquina de 
olhar, frio registo do calor da tua voz próxima, cúmplice. 
ele fala. vi-te sorrir como já não via aos anos. tinhas bebido
também. sinto falta da tua espiral de loucura. dói onde
devias estar tu. falam noutro bar, mas estou cansado 
desta noite, do correr constante de bar em bar em bar
procurando uma coisa que nunca encontro. caminhei 
horas sozinho para queimar tempo para chegar a ti. 
tinhas outro. outra vez. outra. novamente. merda! onde
dói mais, como sempre, é na descoberta constante 
de que a ausência não faz diferença. sou uma pessoa
que se apaga, que se esquece. o estúpido sábio na torre
de marfim - ou num rés-do-chão suburbano, a solidão 
possível, escolhida, imposta. tolerante… minto. onde 
dói mais é no saber que haverá sempre outro onde 
encontrar a felicidade, o corpo redondo e completo.
o esquecimento.