"o amor, só, não chega."
o amor não chega. esperamos sentados,
e ele continua atrasado. passeamos ruas,
passamos estradas e nem lugar dele.
o amor chega atrasado, quando quer chegar.
ninguém viu o amor; ninguém sabe dizer
a sua forma ou razão; por onde parou.
e o amor, só, não chega. nunca. espera…
não, não chegam as palavras faladas
em línguas sempre estranhas - a confusão
de olhos que ignoram o que os olhos sabem.
o amor não chega, só, e esperamos fumando.
cadáveres amarrados aos nossos pés como
grilhetas, como musgo nas raízes da vida,
uma doença que se entranha e apodrece.
uma velha grita a um canto, o amor é feio
como a aparência deste poema, certa está.
e foram feias também as horas perdidas
a escrever, à espera do amor entre cafés,
cigarros e gatafunhadas arranhadas no papel,
os rostos de estranhos, sempre mais. gente.
só o amor não chega. gente que chega. fica.
volta a partir sozinha. desaparecem lentamente
como imagens que se esbatem debaixo da luz.
mesas que se esvaem lentamente. falso sangue
andando de olhos abertos em direcção a nada.
redescoberto o silêncio, olho em volta calmamente.
o amor não chegou.