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| ainda assim, porque continuamos a tentar falar? comunicar: chegar à mente do outro com palavras, gestos, coisas. as palavras são desculpas para a ausência de acção. |
04 maio 2012
é menos que nada
03 maio 2012
Es.co.la
"be cunning and full of tricks"
frase escrita numa parede e definidora de épocas
todos sabiam que a vitória seria breve,
mas ainda assim seria uma vitória.
por um dia, breve também, podiam
ultrapassar as fronteiras humanas
impostas por deus, pátria, sociedade,
família, polícia, capital, educação,
orçamentos, vícios, espaços, fronteiras,
propriedade, política, trabalho, preguiça,
feriado, tempo, idade, e ser democracia:
uma voz que se ergue do fundo, um corpo
milípede que caminha numa só direcção.
sem astúcias básicas, sem truques.
armados de verdades e megafones
e de mãos nuas contra chapas e parafusos
e paredes sujas e fechadas.
toda a gente sabia que seria breve. um
momento apenas em que se ficaria sozinho
no poço silencioso das vértebras e sentiríamos
igual ao sorriso ao nosso lado. entre a chuva
de vidro, de metal, e o ruído ensurdecedor
dos bombos, há um momento pleno de certeza
que emerge, verdadeiro e completo. longe
da mesquinhez de contractos; real, por fim.
no dia seguinte, de manhã cedo, regressariam
as nuvens negras, os cadeados, os polícias,
os cassetetes, mais cadeados, aloquetes e outros
pés mais pesados, e ainda as câmaras e as luzes,
e ainda outras mãos para voltar a fazer esquecer
a absoluta e agora silenciosa vontade popular.
os cassetetes, mais cadeados, aloquetes e outros
pés mais pesados, e ainda as câmaras e as luzes,
e ainda outras mãos para voltar a fazer esquecer
a absoluta e agora silenciosa vontade popular.
02 maio 2012
30 abril 2012
Janela nuclear
não tenho palavras para meter a tristeza dentro.
sei que as rupturas nunca são fáceis, alteram
rotinas, hábitos, pessoas. somos outros
sendo ainda os mesmos.
reparem, ainda ontem, sexta, passavam na rua,
dois casais e o desmarque, e voltaram para trás
quando viram que era eu que estava ali,
junto a mais um tasco fedorento, de álcool barato
e rua livre.
acima de tudo, não gostam de me incomodar
com a nova felicidade,
novos companheiros bons e brilhantes,
mais calmos e sossegados
e bem-sucedidos e com melhor alma do que eu.
agradeço,
porque pessoas assim são por demais entediantes,
por muito interessantes que sejam quando se calam.
ainda assim é cada vez menos fácil ser entendido:
uma pessoa só vale menos que fotografias desfocadas,
do que duas palavras perdidas imediatamente entre o vazio
que há a separar duas pessoas,
do que telefonemas que ficam por atender ou entender
- somos
gémeos desconhecidos separados à nascença entre as horas
que medeiam vontades separadas.
sei bem demais que as rupturas, indiferentes a tudo,
pelo contrário, provocam tristeza, receio e desorientação
- e leio isto e recordo quando sentia fora destes moldes,
quando não via os padrões, as sequências,
as mesmas
repetições de sempre, o meu imenso cansaço de tudo.
acreditava
cego na cegueira, na vontade inquebrantável: alguém único
para fazer frente ao meu génio indomável. preciso de amor
e não de sexo, mas ninguém acredita. o meu enorme cinismo
fala e todos riem. mas ouçam mais uma vez: preciso regressar
a algo que não sei pôr em palavras enquanto o mundo cai
e se desmorona e as casas e os créditos e as economias
e outras mãos se transformam em pó. o plano traçado indicava
que acabaríamos por acreditar e ficaríamos a olhar pela janela
envelhecendo com o mesmo espírito-livre,
absolvidos de tudo,
enquanto tudo o mais teria morrido debaixo deste sol,
desta luz única de um tempo que desaparece.
Agora não procuro nada… quero sossego e estabilidade
ou sempre algo mais,
a emoção fugaz de uma nova descoberta, novos cheiros e toques
que levam a nada,
ao mesmo nada de sempre onde desaguam as emoções
como um rio que transformaram lentamente em esgoto.
não vou apresentar soluções.
ficar pacificamente em silêncio ajuda.
29 abril 2012
Noite sem rasto guia-me até ao meu destino
escondido na solidão das ruas
inconcreto na vastidão das horas
onde tu existes misteriosa e nocturna
no teu perfil de bruxa e de rainha
apátrida e nostálgica
deslizando no vidro da madrugada
azulando de raios gelados o dia que nasce
viva e oculta
cada vez mais viva e oculta
cada vez mais única de amor humano
com a tristeza das luzes marítimas
com a gravidade de quem parte
suavemente para sempre
neste blog
escondido na solidão das ruas
inconcreto na vastidão das horas
onde tu existes misteriosa e nocturna
no teu perfil de bruxa e de rainha
apátrida e nostálgica
deslizando no vidro da madrugada
azulando de raios gelados o dia que nasce
viva e oculta
cada vez mais viva e oculta
cada vez mais única de amor humano
com a tristeza das luzes marítimas
com a gravidade de quem parte
suavemente para sempre
- Ernesto Sampaio
in Telhados de Vidro n.º16 (A Antologia em 2012,
de A Procura do Silêncio, Hiena)
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