não tenho palavras para meter a tristeza dentro.
sei que as rupturas nunca são fáceis, alteram
rotinas, hábitos, pessoas. somos outros
sendo ainda os mesmos.
reparem, ainda ontem, sexta, passavam na rua,
dois casais e o desmarque, e voltaram para trás
quando viram que era eu que estava ali,
junto a mais um tasco fedorento, de álcool barato
e rua livre.
acima de tudo, não gostam de me incomodar
com a nova felicidade,
novos companheiros bons e brilhantes,
mais calmos e sossegados
e bem-sucedidos e com melhor alma do que eu.
agradeço,
porque pessoas assim são por demais entediantes,
por muito interessantes que sejam quando se calam.
ainda assim é cada vez menos fácil ser entendido:
uma pessoa só vale menos que fotografias desfocadas,
do que duas palavras perdidas imediatamente entre o vazio
que há a separar duas pessoas,
do que telefonemas que ficam por atender ou entender
- somos
gémeos desconhecidos separados à nascença entre as horas
que medeiam vontades separadas.
sei bem demais que as rupturas, indiferentes a tudo,
pelo contrário, provocam tristeza, receio e desorientação
- e leio isto e recordo quando sentia fora destes moldes,
quando não via os padrões, as sequências,
as mesmas
repetições de sempre, o meu imenso cansaço de tudo.
acreditava
cego na cegueira, na vontade inquebrantável: alguém único
para fazer frente ao meu génio indomável. preciso de amor
e não de sexo, mas ninguém acredita. o meu enorme cinismo
fala e todos riem. mas ouçam mais uma vez: preciso regressar
a algo que não sei pôr em palavras enquanto o mundo cai
e se desmorona e as casas e os créditos e as economias
e outras mãos se transformam em pó. o plano traçado indicava
que acabaríamos por acreditar e ficaríamos a olhar pela janela
envelhecendo com o mesmo espírito-livre,
absolvidos de tudo,
enquanto tudo o mais teria morrido debaixo deste sol,
desta luz única de um tempo que desaparece.
Agora não procuro nada… quero sossego e estabilidade
ou sempre algo mais,
a emoção fugaz de uma nova descoberta, novos cheiros e toques
que levam a nada,
ao mesmo nada de sempre onde desaguam as emoções
como um rio que transformaram lentamente em esgoto.
não vou apresentar soluções.
ficar pacificamente em silêncio ajuda.