Não és mulher. Não és senhora. Nunca uma criança te atravessou.
Estás pousada no passeio, na beirinha, sem ouvir as palavras
que desfio dentro da minha cabeça, sem sequer ver os carros
que deverias estacionar enquanto te desfazes em pó à chuva.
lama lenta dos cabelos brancos raros aos sapatos encontrados
no lixo, demasiado grandes, casaco castanho de homem, olhos
cheios de silêncio que não dizem nada. homem morto ambulando.
o que foste? podias ter 200 anos que ninguém acharia estranho.
seria mais um número sobre ti, um peso mais que não faria diferente.
olho e pergunto-me quem foste. o empregado do café chama-te
boneco de neve à conta do teu cabelo branco e mudez alcoólica.
o cabelo começa a rarear no topo. derretes? não és mulher. não és.
não és senhora. não és. sentas-te no passeio e fumas. trocas um euro,
compras vinho, adormeces no chão. acordas para o mesmo amanhã.
uma vez também te vi a explorar com a língua a boca de um homem,
testa baixa, a mesma cara de neandertal dos livros. poucos dentes.
estava frio. não tive coragem para imaginar mais. aquilo chegou,
uma mistura de asco e nojo e saliva. mais um cigarro. quem és
debaixo do odor e do silêncio? quem és para além da mão que treme?
uma moedinha…
e deixas cair a frase, assim, como se nunca tivesses tido algo mais
para dar… que mundo te devorou a humanidade? e depois passamos,
continuamos a olhar as montras como quem não te viu e nunca exististe.
esqueces facilmente. nunca ninguém te viu. passam-te carros por cima,
o tempo, homens irreconhecíveis, fumo, o vinho mau, o calor das ruas
e o seu cheiro a lixo e pedras, a pele esmagada, a cabelo sujo e tu
permaneces, braço bamboleante basculante que indica o único lugar
que ainda existe para estacionar - uma sopa, um croquete, um café,
um cigarro.