19 maio 2012

Reconhecimento


as pessoas amam na medida em que se reconhecem:
procuram um espelho na carne baça, alguém 
para reconhecer quem são quando mais ninguém olha.
de resto, mais um nome, outra cara, outro corpo arranjado
entre as lembranças de outros e inevitáveis comparações;
memórias possíveis, uma vontade incrível para contrariar 
as evidências caindo lentamente no poço profundo
onde se escondem os pixéis que já fizeram os dias.
o tempo passa e o mundo vai mudando à sua volta,
as vontades perdidas, os tempos desencontrados, 
os objectivos mútuos feitos aço sujo por detrás das palavras.
somos quem somos na mudança. quanto menos temos,
mais somos quem existe em nós na realidade. ilusões
completamente perdidas atrás de palavras insignificantes, 
sono, séries e filmes de má qualidade que servem para matar
o tempo e o silêncio. a verdade é a paixão transitória.
as vontades desrespeitadas surgem depois, inesquecíveis.
e depois... o verbo esquecer é sempre tão fácil de conjugar.

17 maio 2012

Olhos limpos


não tenho sótão e a casa é demasiado pequena
para as memórias. despojei-me das coisas. vivo.

não tenho luz nem velas. não ilumino. desconheço
o tempo. todo eu sou novo. viajo sem malas ou baús;
câmara apenas, duas objectivas, olhos limpos.