Riga, cidade estranha dividida pelo mercado, antigos
hangares de zepelins quando sobre a cidade pairavam
foices e martelos e as botas mortas de outros nazis;
e pelos comboios de carga que ainda consigo ouvir
no quarto onde estou hospedado. As ruas aqui ainda
têm os nomes da revolução: estou na rua do povo,
entrecruzada com a rua gogol, Gogola iela. de manhã,
entre o meu sono e a janela aberta, gritos dos vendedores,
os produtos que despertam para mais um dia de venda,
debaixo da chuva, debaixo dos olhos tristes acumulados
sob os tectos altos cheios de ecos e as caras muito pintadas
das mulheres. devia ser deprimente na altura. ainda é agora.
entre os armazéns vazios e ruas desertas, bêbedos e velhas,
velhos bêbedos amputados se por bombas ou gelo ou necessidade
não sabemos. dormem nas ruas, nas pontes até chegar a polícia
para os afastar. do outro lado é o bairro russo, uma continuação
das mesmas casas deprimidas, opressivas, desequilibradas,
velhas, gastas, das mesmas garrafas vazias, dos mesmo corpos
vazios e de alguns jovens com pinta de mafiosos russos sem potência.
por cima de tudo isto, a torre imensa da academia das ciências,
foices e martelos no topo, gotham sem poesia noir e o silêncio total
das ruas vazias. estamos a dez minutos a pé do centro, a 3 passos
de hugo boss, versace, louis vuitton, de sonhos feitos de vidro,
cimento e de casas saídas de um sonho eslavo. ruas amplas
e bares e restaurantes e turistas e carrinhas de polícia para segurar
a miragem; mulheres lindas de morrer que passam cheias de frescura
e leveza e olham e sorriem e o mundo pára e depois passam
e tudo recomeça: bentleys, mercedes, bmw's, turistas, cerveja
e mulheres lindas de morrer que passam e te ignoram e o mundo pára,
ainda assim, para as ver passar debaixo destes tijolos, submetendo
as pedras do caminho sob tacões afiados. aqui a depressão é outra,
é a recuperação, negócios de venda e compra, especulações totais
e portas a bater interrompem-me, continuo neste hostel muito hostil
onde estou há dois dias. os russos que aparentemente vivem na sala
de convívio continuam a tossir e a fumar, tudo cheira mal. chegarei
novamente a casa com os dois rins? imensa paranóia
entre os gritos das gaivotas e dos corvos. riga, duas cidades,
a riqueza separatista do centro que alastra como como cancro
sobre as margens do rio, até englobar tudo sob a mesma alçada
unificadora. mundo de sonho, limpo, onde todos os olhares seguros
se reúnem e corpos se cruzam, sempre anónimos e anódinos.
feira da ladra todos os dias, escondida entre lojas e paredes arruinadas.
um portão em folha de zinco marca a entrada, vagabundos acumulam-se
em volta vendendo pedaços de coisas em cima de revistas velhas,
partilham em grandes baforadas o péssimo vinho da manhã e antigas
palavras em russo incompreensível. entre eles uma mulher de lenço
e óculos escuros, estranhamente nobre para o local, a vender relógio
de homem, colher de prata trabalhada, com o ar de quem espera
um autocarro para um sítio melhor da cidade. do outro lado do muro,
gritos em russo e letão, vozes que se agridem na manhã ainda incerta
e fria, cheiro a velho a pairar sobre poças de água ainda mais suja,
alcatrão. carros velhos, parados há anos, velhas caravanas, bancas
de madeira húmida, centenas de coisas, entrecruzamento de violências
e ideologias: capacetes nazis, capacetes soviéticos, condecorações
e medalhas de ambos os lados, carimbo das ss, balas, morteiros,
propaganda imensa de morte, de poder, de supremacia bacoca
recuperada das margens dos rios sem ossos, já carcomidos
pela lenta digestão do tempo e da terra. quando se volta a sair,
estamos mais pesados pelo pó que trazemos em cima, memórias
despertadas que nos lembram o precário equilíbrio da história.
e depois o rio a dividir a cidade, as pontes cheias de trânsito
numa cidade vazia, os barcos das travessias cheios de turistas
sorridentes, os trams e a melancolia destes passos esquecida.
ao lado do mercado, a estação de autocarros. sempre vigiada
pelos grunhos de fato de treino, óculo mosca, vestidos de preto
- medem-te mal sais do autocarro, não se pode facilitar aqui.
depois a estação de comboios e o relógio alto com as horas
e RIGA garrafal e iluminada. pelo boulevard em frente chegamos
a um jardim que é uma das novas muralhas da cidade, a ópera
nacional e o eterno céu dividido entre torres de vidro
e torres de igreja. entre o rócóco e a art nouveu e a funcionalismo
teutónico e o racionalismo mecanicista dos soviéticos. cidade
bombardeada, cidade de hotéis, cidade de restaurantes e cafés,
jardins e esplanadas, edifícios que caem lentamente sob o tempo
e o gelo, ruas que se alargam cada vez mais a partir do centro
e se fecham sem gente onde o dinheiro começa a terminar,
pontes, edifícios embargados, o mastodonte que será
a biblioteca nacional parado do outro lado do rio,
animal a quem acabou o dinheiro para crescer, torres do sheraton
e de empresas russas. cidade bombardeada. catedral ortodoxa,
estranha sensação no interior, debaixo da luz das cúpulas
e da profusão das pinturas, rostos, ouro, dos ícones
que uma velha limpa com lenços de papel e ajax depois de se benzer,
da mesma forma como limparia lágrimas do rosto de alguém que se ama
ou mais ainda. o pedinte que, fora, exige esmolas de quem esteve lá dentro.
cidade bombardeada. taparam as feridas com comércio, com hotéis.
está sempre de dia. nunca há noite real, como a conheço. sempre
um brilho irreal, alvorada permanente e o silêncio de uma cidade
vazia, cheia de ruelas e turistas que preferi ver de longe. âmbar
do báltico e outras recordações sobre-valorizadas e de mau gosto.
sushi no centro e casais de vagabundos que deambulam nos parques,
zombies que se espancam lentamente, que todos ignoram enquanto
admiram os aloquetes que casais em casamentos prendem nas pontes.
limusines, hummers e jipes que concorrem entre si e eu, esperando
a vez de passar para o outro lado, admirando o edifício da ópera
nacional, pensando como é que me escapou o amor e ficaram
apenas as dúvidas, ouvindo os trams que parecem relíquias
soviéticas esquecidas pelo tempo, cheias de gente que foge,
as senhoras idosas que vendem flores de ar triste no final do dia,
pensando na viagem que tenho de fazer amanhã e em tudo o que vi;
abre o sinal verde e atravesso, outra pessoa, regressando a pé
ao quarto onde vou passar o resto da noite que me sobra a pensar
como e quando vou conseguir recuperar e voltar a sentir-me completo.