10 julho 2012

Praça dos Poveiros - 2012

29 junho 2012

O que faz um lar


não são as paredes que fazem um lar.
é o calor que fica entre os tijolos, a pele
perdida sobre a tinta, as camadas de tempo
acumuladas como pó sobre os tacos. 

21 junho 2012

Anónimo


agora outras palavras para encher os mesmos significados. é este
o reverso do silêncio, da ironia: ódios ciciados, o cochichar eléctrico;
a televisão está longe e já não serve - é preciso despertar novamente,
encontrar algo novo para sacudir o torpor dos olhos e dos dedos. olha,
antes de mais, a moral e a verdade são conceitos que não pertencem
a ninguém: apropriamo-nos deles para dar valor às crenças, aos actos,
para explicar quem somos e porque razão fazemos o que fazemos. 
ouvem-se as palavras, mas as vontades ficam por cumprir. limitamo-nos
a ser, preguiçamos por sofás alheios o nosso tédio, o privilégio burguês
que nos permite considerar as acções dos outros à luz do querer, nosso, 
as influências dos astros sobre as personalidades e os humores, deles,
a profundidade e a qualidade de algo tão abstracto como a proximidade
e, sobretudo, sobre quem queremos ser aos olhos e mãos de outros.
estas considerações a dois tempos, como os motores afogados das motas
da minha infância, que subiam como sisífos mecânicos a rampa da rua, 
são apenas outros reflexos da preguiça que nos anima, animais contentes
e enfartados, sem grandes problemas, que precisam de se confundir
para se sentirem um pouco mais vivos. o amor que escrevo, a minha forma
de amar ou de explicar a confusão do amor, não é um axioma, muito menos
é verdade: são palavras alinhadas, uma construção que se pode encher
de ar ou de água, de gritos ou suspiros; é um balão que toma a forma-leitor
e que fala (quando chega a falar) da confusão, da falta de certezas, 
dos caminhos que se tomam, sentidos na flor da pele ainda jovem, 
coisas que todos sentimos e que eu limito dentro do alcance destes signos. 
se tivesse de fazer da minha poesia uma só imagem, escolheria o branco,
a saturação de tudo, a presença de tudo no exagero da luz que cega, 
que corta, que magoa, que esconde. explico ainda melhor, escrevo 
para esconder quem sou, as certezas que tenho, para explicar os medos 
que nos conduziram a tudo isto, a esta confusão de formas e sentidos.
posso também dizer, não me procurem no que escrevo. são fragmentos
que nunca conduzirão a quem sou mesmo - porque sempre um rosto
reconstruído é mais um rosto falseado - acrescentamos muito mais de nós
do que da verdade a que tentamos, sempre, agarrar os nossos receios.

18 junho 2012

Coração de pedra


a saber: tenho um coração de pedra e amo. tenho amor de pedra para dar
a quem eu escolho, sem prender esta pedra em alicerces vãos de edifícios
tortos; tenho uma pedra no lugar do coração que me sustém na queda; 
sou uma pedra que se afunda só, escolhendo a proximidade quando quer.
sou uma pedra fria fundida no calor certo; mãos certas trabalham-me. 
sou eu que escolho quem me trabalha e quando; a solidão não assusta
as pedras, porque o mundo é uma pedra e vivemos sobre ele. alguém
vive sobre mim, ocasionalmente. sou uma pedra e sou quente sob o sol.
já me escondi nas sombras, mas a erosão revelou-me novamente. sou
completamente pedra sobre o sol, impossível perda - ardo sendo mundo.

14 junho 2012

Riga


Riga, cidade estranha dividida pelo mercado, antigos
hangares de zepelins quando sobre a cidade pairavam
foices e martelos e as botas mortas de outros nazis;
e pelos comboios de carga que ainda consigo ouvir
no quarto onde estou hospedado. As ruas aqui ainda 
têm os nomes da revolução: estou na rua do povo, 
entrecruzada com a rua gogol, Gogola iela. de manhã,
entre o meu sono e a janela aberta, gritos dos vendedores,
os produtos que despertam para mais um dia de venda, 
debaixo da chuva, debaixo dos olhos tristes acumulados
sob os tectos altos cheios de ecos e as caras muito pintadas
das mulheres. devia ser deprimente na altura. ainda é agora. 
entre os armazéns vazios e ruas desertas, bêbedos e velhas, 
velhos bêbedos amputados se por bombas ou gelo ou necessidade
não sabemos. dormem nas ruas, nas pontes até chegar a polícia 
para os afastar. do outro lado é o bairro russo, uma continuação
das mesmas casas deprimidas, opressivas, desequilibradas, 
velhas, gastas, das mesmas garrafas vazias, dos mesmo corpos
vazios e de alguns jovens com pinta de mafiosos russos sem potência. 
por cima de tudo isto, a torre imensa da academia das ciências, 
foices e martelos no topo, gotham sem poesia noir e o silêncio total
das ruas vazias. estamos a dez minutos a pé do centro, a 3 passos 
de hugo boss, versace, louis vuitton, de sonhos feitos de vidro, 
cimento e de casas saídas de um sonho eslavo. ruas amplas
e bares e restaurantes e turistas e carrinhas de polícia para segurar
a miragem; mulheres lindas de morrer que passam cheias de frescura
e leveza e olham e sorriem e o mundo pára e depois passam 
e tudo recomeça: bentleys, mercedes, bmw's, turistas, cerveja
e mulheres lindas de morrer que passam e te ignoram e o mundo pára,
ainda assim, para as ver passar debaixo destes tijolos, submetendo
as pedras do caminho sob tacões afiados. aqui a depressão é outra,
é a recuperação, negócios de venda e compra, especulações totais 
e portas a bater interrompem-me,  continuo neste hostel muito hostil
onde estou há dois dias. os russos que aparentemente vivem na sala
de convívio continuam a tossir e a fumar, tudo cheira mal. chegarei
novamente a casa com os dois rins? imensa paranóia
entre os gritos das gaivotas e dos corvos. riga, duas cidades, 
a riqueza separatista do centro que alastra como como cancro
sobre as margens do rio, até englobar tudo sob a mesma alçada
unificadora. mundo de sonho, limpo, onde todos os olhares seguros
se reúnem e corpos se cruzam, sempre anónimos e anódinos.
feira da ladra todos os dias, escondida entre lojas e paredes arruinadas.
um portão em folha de zinco marca a entrada, vagabundos acumulam-se
em volta vendendo pedaços de coisas em cima de revistas velhas, 
partilham em grandes baforadas o péssimo vinho da manhã e antigas
palavras em russo incompreensível. entre eles uma mulher de lenço
e óculos escuros, estranhamente nobre para o local, a vender relógio
de homem, colher de prata trabalhada, com o ar de quem espera
um autocarro para um sítio melhor da cidade. do outro lado do muro,
gritos em russo e letão, vozes que se agridem na manhã ainda incerta
e fria, cheiro a velho a pairar sobre poças de água ainda mais suja,
alcatrão. carros velhos, parados há anos, velhas caravanas, bancas
de madeira húmida, centenas de coisas, entrecruzamento de violências
e ideologias: capacetes nazis, capacetes soviéticos, condecorações
e medalhas de ambos os lados, carimbo das ss, balas, morteiros, 
propaganda imensa de morte, de poder, de supremacia bacoca
recuperada das margens dos rios sem ossos, já carcomidos 
pela lenta digestão do tempo e da terra. quando se volta a sair, 
estamos mais pesados pelo pó que trazemos em cima, memórias
despertadas que nos lembram o precário equilíbrio da história.
e depois o rio a dividir a cidade, as pontes cheias de trânsito 
numa cidade vazia, os barcos das travessias cheios de turistas
sorridentes, os trams e a melancolia destes passos esquecida.
ao lado do mercado, a estação de autocarros. sempre vigiada
pelos grunhos de fato de treino, óculo mosca, vestidos de preto
- medem-te mal sais do autocarro, não se pode facilitar aqui.
depois a estação de comboios e o relógio alto com as horas 
e RIGA garrafal e iluminada. pelo boulevard em frente chegamos
a um jardim que é uma das novas muralhas da cidade, a ópera 
nacional e o eterno céu dividido entre torres de vidro
e torres de igreja. entre o rócóco e a art nouveu e a funcionalismo
teutónico e o racionalismo mecanicista dos soviéticos. cidade
bombardeada, cidade de hotéis, cidade de restaurantes e cafés,
jardins e esplanadas, edifícios que caem lentamente sob o tempo
e o gelo, ruas que se alargam cada vez mais a partir do centro
e se fecham sem gente onde o dinheiro começa a terminar,
pontes, edifícios embargados, o mastodonte que será 
a biblioteca nacional parado do outro lado do rio, 
animal a quem acabou o dinheiro para crescer, torres do sheraton 
e de empresas russas. cidade bombardeada. catedral ortodoxa, 
estranha sensação no interior, debaixo da luz das cúpulas
e da profusão das pinturas, rostos, ouro, dos ícones 
que uma velha limpa com lenços de papel e ajax depois de se benzer,
da mesma forma como limparia lágrimas do rosto de alguém que se ama
ou mais ainda. o pedinte que, fora, exige esmolas de quem esteve lá dentro. 
cidade bombardeada. taparam as feridas com comércio, com hotéis.
está sempre de dia. nunca há noite real, como a conheço. sempre 
um brilho irreal, alvorada permanente e o silêncio de uma cidade 
vazia, cheia de ruelas e turistas que preferi ver de longe. âmbar
do báltico e outras recordações sobre-valorizadas e de mau gosto. 
sushi no centro e casais de vagabundos que deambulam nos parques,
zombies que se espancam lentamente, que todos ignoram enquanto
admiram os aloquetes que casais em casamentos prendem nas pontes.
limusines, hummers e jipes que concorrem entre si e eu, esperando
a vez de passar para o outro lado, admirando o edifício da ópera 
nacional, pensando como é que me escapou o amor e ficaram 
apenas as dúvidas, ouvindo os trams que parecem relíquias 
soviéticas esquecidas pelo tempo, cheias de gente que foge, 
as senhoras idosas que vendem flores de ar triste no final do dia,
pensando na viagem que tenho de fazer amanhã e em tudo o que vi;
abre o sinal verde e atravesso, outra pessoa, regressando a pé 
ao quarto onde vou passar o resto da noite que me sobra a pensar
como e quando vou conseguir recuperar e voltar a sentir-me completo.