30 julho 2012

Dois poemas menores e um texto


o homem polímero

SAÚDEM A CRIAÇÃO MODERNA!!!
O HOMEM POLÍMERO!!! 
PELA PRIMEIRA VEZ RESISTENTE!!!
PELA PRIMEIRA VEZ INQUEBRÁVEL!!!
PELA PRIMEIRA VEZ INFINITAMENTE!!!
PELA PRIMEIRA VEZ DIZER QUE SIM
INFINITAMENTE A TODAS AS PROPOSTAS!!!
SIM, NÃO INTERESSAM CONCEITOS, PRECEITOS,
VALORES, PELA PRIMEIRA VEZ SEM CORAGEM
PARA RESPIRAR FUNDO E GRITAR!!!
PELA PRIMEIRA VEZ INFINITAMENTE SIM!!!
PELA PRIMEIRA VEZ NÃO DEIXOU DE EXISTIR!!!
PELA PRIMEIRA VEZ ÚTIL COMO O SILÊncio imenso
que caiu sobre as vozes sem calar o seu ruído; folhas
secas cheias de conhecimento de nada, ilusões de pessoas
que se multiplicam e enchem o mundo sem significado.

lado nenhum da vida

dizem-me que disseste que estiveste quase para morrer.
é nesta incerteza do diz que ouve e que o que se ouve 
significa aquilo que as palavras dizem mais claramente
no preto-branco do dicionário que vou escrever este poema.
não tenho vontade de continuar a escrever estas coisas
transitórias, cheias apenas do ar que as torna audíveis
e palpáveis. ainda assim continuo a escrever-te e a sentir
a tua falta. ora, eu posso dizer que morri. desapareci em cinza
e passei para o outro lado de mim. não passa um dia sem tentar
compreender onde nos perdemos… refaço vezes sem 
conta um caminho queimado que o tempo começa 
a tapar com os mesmos paralelos cinzentos da infância
e as silvas onde aprendi a brincar enquanto prédios eram
construídos e ocupados por gente estranha. e, sabes, 
nunca chego a lado algum. tudo parece ter desaparecido 
continuando lá. refeitos os dias e as horas e todos os gestos
agora, sob uma luz diferente, e somos outros agora, 
como sempre fomos e apenas não conseguíamos ver.
é domingo, e um poema destes só poderia ser escrito
a um domingo, quando todos os telefonemas falharam 
e nem amigos nem mulheres encontraram tempo 
para ti, para a companhia dos teus problemas 
e pouco mais. e isto seriam umas quantas palavras mais 
trocadas entre si, vozes cruzadas e linhas que se tentam 
fechar em círculos sobre a compreensão. e tudo isto é nada,
e tão belo. e então chegas tu, ou mais uma imagem de ti,
e é como se nunca tivesses partido de mim, muito tempo 
antes de nos separarmos da carne que nos unia. 
e preocupo-me outra vez contigo,
pergunto-me onde estarás ainda… 
sinto-me estúpido e sei que sou e muito,
uma vez mais, pela inutilidade de tudo isto e por saber,
lá bem fundo onde tudo isto significa sentimentos apodrecidos, 
que nada disto passa por ti agora. esqueceste. a verdade é essa. 
e fico eu, poeta homem feito poeta panuca, a lamentar-me
e a procurar-te em outras ao domingo, a tentar reencontrar
uma pista de ti neste trajecto de ideias feitas gesto, feitas sons, 
refeitas novamente noutras ideias - agora de quem lê.
é este o equilíbrio da balança: 5 anos de bem para 5 anos de inferno.
os pratos vão equilibrar-se um dia, a estaca zero do recomeço. 
acima de tudo, um dia tudo voltará a fazer um sentido mais pleno
e deixaremos todos de estar à espera de oportunidades sem sentido, 
sentados dia após dia nos mesmos sítios, rompendo as pedras 
de um caminho que está sempre parado demais. as águas, aqui,
não correm. passam arrependimentos, estas moléculas  de egoísmo, 
de carácter ferido. e o que acontece agora do outro lado do mar?
sudoeste da minha imensa confusão… ondas, palavras 
como ondas, ondas como um prazer prático correndo sobre a pele.
e um dia aquela sensação de tocar alguém voltará a ser algo maior 
quando toco alguém; não será mais um roubo, um sentimento de violação,
mais um roubo. os anos passam e será uma vez mais a entrega plena. 
a questão básica, desconhecida e tensa. e por agora, enquanto continuam 
a olhar-me como a um menino e por dentro sempre existiu um homem 
reavaliando penosamente quem é com olhos limpos: 
nem um passo mais perto dos objectivos; circulando num ritual animista 
as mesmas passadas pesadas do ritmo dos antepassados que nos trouxeram aqui, 
a este lado nenhum da vida.


o meu funeral

por força de circunstâncias fora do meu controlo, tenho pensado muito no meu funeral. inevitavelmente, acaba por me ocorrer a música "o teu funeral" de censurados e os piores coros da história da música portuguesa. e estou a ser simpático porque até gosto de censurados. apesar desta associação demasiado óbvia, não nos esqueçamos do que faço aqui. literalmente. o pensamento recorrente é este: serei reconhecido pelo quê? não no sentido mesquinho do engrandecimento pessoal e do ego das grandes obras e da memória colectiva (ou o menos mesquinho possível tendo em conta o tema deste texto), mas para tentar descobrir como sou fora de mim. como sou na boca dos outros, daqueles que a trazem perto do peito. é uma ginástica complicada esta. os sopros da fala, como quem diz respira coração, que teriam a dizer? ando a tentar descobrir se acertei em alguma das coisas que tenho vindo a fazer… ou se apenas existo em 1000 avos de segundo ou menos, num equilíbrio triangular entre abertura, velocidade e iso. efemeridade. decisões rápidas e a verdade é uma coisa por demais desconhecida. numa perspectiva mais darwinista, este interesse súbito prende-se à necessidade de saber como é a minha imagem de animal sobrevivente. se efectivamente sobrevivo ou deixo andar a ver como correm as coisas, como se voga no rio. 

afinal de contas não posso ser criticado: apenas procuro o significado das coisas.

19 julho 2012

Gestos habituais


a poesia é como um gato que não sabe brincar:
desinteressante, agressiva, inexplicável. estou
cansado. repito-me, mas é esta a verdade. estou
cansado. estou cansado e sangro e hoje deram-me
amor sem pedir nada em troca. estou cansado e 
sangro e hoje vi lágrimas e gritos e terminei o dia
separado. estou cansado e sangro e estou feliz
apesar dos passados que me perseguem. não 
quero mais poesia nem boas palavras, sonhos 
fátuos que me cegam às evidências: não amamos
a mais ninguém do que a nós mesmos - por isso
não consigo compreender o porquê do teu carinho
hoje de manhã, tentando recompor as minhas costas
partidas, tortas, doentes. escrevo-te este último poema
porque não me pediste nada em troca e te conseguiste
comover com o gesto, por demais habitual, que tentava 
sossegar o susto da vibração do telemóvel que chama
na manhã sonolenta - e fazia-me falta estar vivo assim.

10 julho 2012

Praça dos Poveiros - 2012

29 junho 2012

O que faz um lar


não são as paredes que fazem um lar.
é o calor que fica entre os tijolos, a pele
perdida sobre a tinta, as camadas de tempo
acumuladas como pó sobre os tacos. 

21 junho 2012

Anónimo


agora outras palavras para encher os mesmos significados. é este
o reverso do silêncio, da ironia: ódios ciciados, o cochichar eléctrico;
a televisão está longe e já não serve - é preciso despertar novamente,
encontrar algo novo para sacudir o torpor dos olhos e dos dedos. olha,
antes de mais, a moral e a verdade são conceitos que não pertencem
a ninguém: apropriamo-nos deles para dar valor às crenças, aos actos,
para explicar quem somos e porque razão fazemos o que fazemos. 
ouvem-se as palavras, mas as vontades ficam por cumprir. limitamo-nos
a ser, preguiçamos por sofás alheios o nosso tédio, o privilégio burguês
que nos permite considerar as acções dos outros à luz do querer, nosso, 
as influências dos astros sobre as personalidades e os humores, deles,
a profundidade e a qualidade de algo tão abstracto como a proximidade
e, sobretudo, sobre quem queremos ser aos olhos e mãos de outros.
estas considerações a dois tempos, como os motores afogados das motas
da minha infância, que subiam como sisífos mecânicos a rampa da rua, 
são apenas outros reflexos da preguiça que nos anima, animais contentes
e enfartados, sem grandes problemas, que precisam de se confundir
para se sentirem um pouco mais vivos. o amor que escrevo, a minha forma
de amar ou de explicar a confusão do amor, não é um axioma, muito menos
é verdade: são palavras alinhadas, uma construção que se pode encher
de ar ou de água, de gritos ou suspiros; é um balão que toma a forma-leitor
e que fala (quando chega a falar) da confusão, da falta de certezas, 
dos caminhos que se tomam, sentidos na flor da pele ainda jovem, 
coisas que todos sentimos e que eu limito dentro do alcance destes signos. 
se tivesse de fazer da minha poesia uma só imagem, escolheria o branco,
a saturação de tudo, a presença de tudo no exagero da luz que cega, 
que corta, que magoa, que esconde. explico ainda melhor, escrevo 
para esconder quem sou, as certezas que tenho, para explicar os medos 
que nos conduziram a tudo isto, a esta confusão de formas e sentidos.
posso também dizer, não me procurem no que escrevo. são fragmentos
que nunca conduzirão a quem sou mesmo - porque sempre um rosto
reconstruído é mais um rosto falseado - acrescentamos muito mais de nós
do que da verdade a que tentamos, sempre, agarrar os nossos receios.