11 novembro 2012

"Não pretendia ir para lugar nenhum, não me lembrava de nada ou de ninguém, não desejava nada senão realmente metralhar o mundo. Um massacre que fosse mais real que toda a realidade em que as pessoas eram e não eram elas, morriam e não morriam, eram cadáveres e não eram, sumiam e não sumiam, amavam e não amavam, entregavam-se e não se entregavam, eram de todos e de ninguém, eram e não eram elas mesmas. E, afinal, para lá de serem ou não serem elas, perdiam a própria identidade".

Jorge de Sena, Sinais de Fogo

10 novembro 2012

O cadáver do poema

Brinco já com o cadáver deste poema
que, olhando melhor, nem isso chega
a conseguir ser. As palavras, monólitos
de papel ou de outra coisa qualquer,
são presenças inadequadas para exprimir
esta falta de... clareza. Posso escrever:
foste embora e cabelos teus aparecem 
no colchão nu e frio do Inverno,
mas isto não diz nada do que sinto dentro.
A crise chegou aqui também - ou talvez
nunca tenha saído de dentro de mim
sempre que faço da vida as palavras
possíveis
              ou
outras inutilidades para encher as horas
com algo mais que as melancólicas
observações que antecedem o sono.

Sem nenhum valor

O mundo avançou e tu

ficaste para trás, para horas
perdidas e inúteis investidas
num futuro incompleto. nunca
chegou a devorar-te a carne,
a fazer-te crescer sem plano
traçado ou definido, confuso
apenas por todos os elementos.
Afinal de contas, a vida real
já te abandonou há muito.
Continua a respirar, cumpre
esse reflexo que não sabes parar,
um cristal vegetal de carne rodeado
de paredes de gestos, palavras.
Sem te dar conta, esqueceste tudo:
como eras, de onde vinhas, o mundo
completo que querias apesar do medo.
Já não sabias como ser, mas continuaste
irrevogavelmente, a ser algo, uma outra
forma, mas ainda sem nenhum valor.

19 outubro 2012

sem terra


agora que não és daqui nem de mais nenhum sítio
vão continuar a lembrar-te sempre que lerem
uma palavra tua
ou
quando uma mulher que amamos, sem saber,
passe rápida sem olhar o momento demorado
em que nos prendemos. ao escrever-te agora
escrevo para todos os mortos que trago dentro:
avôs, mulher abandonada, pais que envelhecem
sem que se possa parar o tempo, eu mesmo,
cada dia mais embrutecido e silencioso. escrevo
para todos os mortos perdoarem o esquecimento
que é a sua lembrança. o mundo continua, é certo,
mas um dia todas as palavras serão o mesmo pó
inerte acumulando-se sobre o que fica para trás.
e a viagem é sempre tão curta, não é?

a morte é isto

A um homem do passado

Estes são os tempos futuros que temia
o teu coração mirrou sob pedras,
que podes recear agora tão fundo,
onde não chegam as aflições nem as palavras duras?

Desceste em andamento; afinal era
tudo tão inevitável como o resto.
Viraste-te para o outro lado e sumiram-se
da tua vista os bons e maus momentos.

Tu ainda tinhas essa porta à mão.
(Aposto que a passaste com uma vénia desdenhosa.)
Agora já não é possível morrer ou,
pelo menos, já não chega fechar os olhos.

Manuel António Pina, in "Nenhum Sítio"