19 novembro 2012

Chuva


a vida é feita de coisas desaparecidas, de memórias
passadas. de imagens e vozes rompidas até serem
pó ou menos do que isso. muitas vezes, nem isso: 
confundem-se todas, pessoas, vozes, os sentidos,
quando nos tentamos abrigar neles para seleccionar
uma só que nos tenha marcado mais completamente.
passamos entre tudo isto e tentamos acreditar noutra
coisa que não nos medos que trazemos dentro, 
inconfessáveis, privados; distraídos deles pelo cacarejar
da televisão ou pelo lento zumbido dos computadores.
e a memória, essa coisa incompleta, devolve sempre
outros tempos: melhores, passados e iluminados 
por uma luz mais perfeita que a do cinema. mentiras.
reconstruções do que foi à luz da tristeza do agora, 
das incapacidades de todas as verdades, do apoio 
basilar que nos conduz à crença de que é possível
recuperar dias assim, ter novamente a mesma paz,
mesmo quando já não vivem as pessoas procuradas.
e assim vivemos, sonâmbulos enganados sem vislumbre
de qualquer realidade atrás das pálpebras fechadas, 
coladas pelas remelas da infância e pela solidão presente.
mas, quando olharmos para trás e recordarmos a liberdade
construída pedra a pedra, agora destruída cêntimo 
a cêntimo para a fortuna de que não vimos nem as cores, 
e as mãos que nos apoiaram e enviaram para a vida 
com um abraço fraterno, queimadas por séculos de trabalho, 
os paralelos das barricadas onde brincámos e a algibeira 
vazia na incerteza do futuro e as nuvens escuras que correm
sobre as vidas de todos, podemos pensar que esses tempos
estão lá atrás, que são apenas mais uma memória irrecuperável,
uma alegria básica de uma infância maior do que o corpo frágil
que nos foi dado. mas não. agora é a nossa vez de esquecer
todas as maravilhosas mentiras e criar um mundo novo com
todas as oportunidades que nos escapam por entre os dedos.

11 novembro 2012

"Não pretendia ir para lugar nenhum, não me lembrava de nada ou de ninguém, não desejava nada senão realmente metralhar o mundo. Um massacre que fosse mais real que toda a realidade em que as pessoas eram e não eram elas, morriam e não morriam, eram cadáveres e não eram, sumiam e não sumiam, amavam e não amavam, entregavam-se e não se entregavam, eram de todos e de ninguém, eram e não eram elas mesmas. E, afinal, para lá de serem ou não serem elas, perdiam a própria identidade".

Jorge de Sena, Sinais de Fogo

10 novembro 2012

O cadáver do poema

Brinco já com o cadáver deste poema
que, olhando melhor, nem isso chega
a conseguir ser. As palavras, monólitos
de papel ou de outra coisa qualquer,
são presenças inadequadas para exprimir
esta falta de... clareza. Posso escrever:
foste embora e cabelos teus aparecem 
no colchão nu e frio do Inverno,
mas isto não diz nada do que sinto dentro.
A crise chegou aqui também - ou talvez
nunca tenha saído de dentro de mim
sempre que faço da vida as palavras
possíveis
              ou
outras inutilidades para encher as horas
com algo mais que as melancólicas
observações que antecedem o sono.

Sem nenhum valor

O mundo avançou e tu

ficaste para trás, para horas
perdidas e inúteis investidas
num futuro incompleto. nunca
chegou a devorar-te a carne,
a fazer-te crescer sem plano
traçado ou definido, confuso
apenas por todos os elementos.
Afinal de contas, a vida real
já te abandonou há muito.
Continua a respirar, cumpre
esse reflexo que não sabes parar,
um cristal vegetal de carne rodeado
de paredes de gestos, palavras.
Sem te dar conta, esqueceste tudo:
como eras, de onde vinhas, o mundo
completo que querias apesar do medo.
Já não sabias como ser, mas continuaste
irrevogavelmente, a ser algo, uma outra
forma, mas ainda sem nenhum valor.

19 outubro 2012

sem terra


agora que não és daqui nem de mais nenhum sítio
vão continuar a lembrar-te sempre que lerem
uma palavra tua
ou
quando uma mulher que amamos, sem saber,
passe rápida sem olhar o momento demorado
em que nos prendemos. ao escrever-te agora
escrevo para todos os mortos que trago dentro:
avôs, mulher abandonada, pais que envelhecem
sem que se possa parar o tempo, eu mesmo,
cada dia mais embrutecido e silencioso. escrevo
para todos os mortos perdoarem o esquecimento
que é a sua lembrança. o mundo continua, é certo,
mas um dia todas as palavras serão o mesmo pó
inerte acumulando-se sobre o que fica para trás.
e a viagem é sempre tão curta, não é?