18 dezembro 2012

não ser lido é libertador

"Só queria dizer uma coisa que me parece ter ficado perdida no meio de tanto ódio mútuo e, depois, de tanta indiferença: muito mais do que querer possuir-te o corpo, queria a companhia do teu sono. As minhas noites e o meu dormir são por demais solitários. Foi isso que gostei em Barcelona, bastava acordar um pouco e estavas tu, viva, ao meu lado para negar as mortes várias em que durmo".

17 dezembro 2012

Cresce


nada significa nada. tudo é óbvio como um grito. 
só na minha cabeça há confusão. uma tempestade
lá fora. silêncio dentro de casa. espero o sono 
de olhos abertos. tenho frio. desconheço quem sou
e como deveria ser. tenho dúvidas. existo. não sou. 
tenho o vazio do mundo dentro de mim e estou 
coberto com pele e, sobre ela, uma manta simples
e laranja. não voto. não acredito. não compreendo 
o que me aconteceu e confundiu. digo metade 
do que falo e penso. dizem que o mundo vai acabar
e eu só penso em escrever linhas e mais linhas 
a explicar porque deves continuar ao meu lado,
pelo menos até verificarmos se, depois de dia 21,
o nosso corpo continuará quente e o teu húmido,
gruta quente onde me escondo todo dentro do teu
desconhecimento de quem sou, do que faço, do que fui.
há quem confunda amor com o cheiro a lixívia e homens
há que choram lágrimas de gin. é assim o mundo, cheio
de confusões e estranhas trocas de funções, pessoas.
todas estas palavras com que jogamos. noções.
intenções que gostaríamos de explicar melhor no papel
ou para alguém escutar. gostaríamos de nos saber.
contar como somos insubstituíveis quando pressentimos
que é o nosso ego que sente por nós - o que somos?
incapazes de sentir. dentro apenas um alçapão de fumo.
eles chegam e partem de carro. ficam dias frente a portas
fechadas, batem e esperam sem que ninguém abra. tristes.
pelas janelas, escapa-se a existência deles, outros, dentro. 
escolheram não fazer parte. afastaram-se o suficiente
para esquecer tudo o que aconteceu e viver assim. melhor.
passei horas a ver fotografias. tento organizar 7 anos
confusos e desconexos. a todos os segundos perco 
informação e sei lá que mais entre finos espaços. 
não ganho. as coisas desaparecem e eu fico a pensar
nelas. um tonto olhando uma bola que salta rua abaixo.
não há como a agarrar agora. o presente escapou. silêncio.
só há palavras mudas através de redes digitais. o orgulho
continua ferido e a falar mais alto. tudo inútil. desenrolar
a língua como exercício para o futuro que tarda, sacudir 
a morte que a cobre, o fel da desconfiança e da raiva pura
que me atira contra todos, espumando. escolhem o que me 
dizem como se disso dependesse a vida. medo… o que é?
há dias em que a minha pele parece arder, mas ninguém 
repara. dói-me a cabeça e não sei onde a esconder. oiço
verde, tenho nojo e continuo sem saber escapar ao que fiz.
sei nomear a gravidade, mas não compreendo a gravidade 
da situação. só frases. palavras para encher a boca 
de alguém que nunca teve nada a dizer; que escrevia 
como exercício para chegar a si - e que parou de escrever
quando compreendeu que essa estação não chegaria. merda.
consigo criar tudo, menos intimidade. a minha vida não pertence
a ninguém, nem mesmo a mim. a minha nudez cega corta 
as línguas, afasta as mãos, seca as palavras no saco da garganta.
quando falo, tudo em volta arde e desaparece em cinza. estou
nu e só no centro de um campo devastado no interior de mim.
tornei-me nada. é o que és, apenas te falta olhar melhor para ti.
            cresce.

06 dezembro 2012

04 dezembro 2012

"A minha experiência, depois de dois casamentos falhados, tinha-me feito compreender que, quanto mais dois seres se amam, mais se devem esforçar para se pouparem mutuamente a sua parte da noite, para deixar intacta a sua parte de luz. Mas é apenas uma teoria e pretende somente explicar por que me era tão difícil confiar-me à mulher que amava."


Vassilis Vassilikos, O Monarca

19 novembro 2012

Chuva


a vida é feita de coisas desaparecidas, de memórias
passadas. de imagens e vozes rompidas até serem
pó ou menos do que isso. muitas vezes, nem isso: 
confundem-se todas, pessoas, vozes, os sentidos,
quando nos tentamos abrigar neles para seleccionar
uma só que nos tenha marcado mais completamente.
passamos entre tudo isto e tentamos acreditar noutra
coisa que não nos medos que trazemos dentro, 
inconfessáveis, privados; distraídos deles pelo cacarejar
da televisão ou pelo lento zumbido dos computadores.
e a memória, essa coisa incompleta, devolve sempre
outros tempos: melhores, passados e iluminados 
por uma luz mais perfeita que a do cinema. mentiras.
reconstruções do que foi à luz da tristeza do agora, 
das incapacidades de todas as verdades, do apoio 
basilar que nos conduz à crença de que é possível
recuperar dias assim, ter novamente a mesma paz,
mesmo quando já não vivem as pessoas procuradas.
e assim vivemos, sonâmbulos enganados sem vislumbre
de qualquer realidade atrás das pálpebras fechadas, 
coladas pelas remelas da infância e pela solidão presente.
mas, quando olharmos para trás e recordarmos a liberdade
construída pedra a pedra, agora destruída cêntimo 
a cêntimo para a fortuna de que não vimos nem as cores, 
e as mãos que nos apoiaram e enviaram para a vida 
com um abraço fraterno, queimadas por séculos de trabalho, 
os paralelos das barricadas onde brincámos e a algibeira 
vazia na incerteza do futuro e as nuvens escuras que correm
sobre as vidas de todos, podemos pensar que esses tempos
estão lá atrás, que são apenas mais uma memória irrecuperável,
uma alegria básica de uma infância maior do que o corpo frágil
que nos foi dado. mas não. agora é a nossa vez de esquecer
todas as maravilhosas mentiras e criar um mundo novo com
todas as oportunidades que nos escapam por entre os dedos.