02 janeiro 2013

corpo estranho

imaginar um corpo estranho e sentir asco
pelo corpo e tudo o que ele representa
- o que me aconteceu?

29 dezembro 2012

a resposta aos pedidos de ajuda:

hoje não me dá jeito.
não acho boa ideia.
não tenho espaço no meu tempo.

26 dezembro 2012

Nino


é uma frase fraca, mas é a verdade:
as circunstâncias da morte não me deixaram
dizer-te adeus. estar a teu lado a segurar-te 
as mãos que tinham perdido toda a força, 
que lentamente se tornavam lisas planícies
que olhavas todos os dias sem uma palavra.
tive de escolher entre confortar-te a ti ou cuidar 
da confusão e dor da minha mãe, lágrimas
que irromperam demasiado rápido à superficie.
olhei melhor e pareciam ter estado sempre ali.
a minha mãe tão velha e frágil no âmago
deste turbilhão, o pai dela, meu avô, homem forte
que pegava em mim ao colo aos 80 anos, morria. 
o corpo ruía frente a nós e não havia tempo para nada.
tive de confortar os vivos, dizer-lhe suavemente
calma, fizeste tudo o que pudeste. ele sabe.
não podes fazer mais nada. e na minha boca soavam
mal estas palavras, simples como um desenho de criança.
minha mãe dizia-me acho que o teu avô está a morrer.
e dizia calma paizinho, respire. calma. está tudo bem.
como quem embala uma criança assustada.
nas paredes pintadas da casa estava presa a tarde.
amarelo de outono frio e a sombra do que foste
correu veloz em direcção a uma parede sem saída.
sombras velozes na confluência do tempo. o médico, 
que fui buscar à casa da irmã de quem desconfiavas
pela sua religiosidade algo excessiva, dizia 
não podemos fazer mais nada. resta-nos esperar 
pelos momentos finais. depois saiu. tinha algo.
os vivos têm algo e a morte é sempre inesperada.
dei-lhe vinte euros pela notícia. não há nada a fazer.
não consigo enquadrar o terror destes momentos
com a pessoa que sempre conheci: a confusão, 
os ruídos pesados da respiração que enfraquece, 
a minúcia gélida e inumana do médico que te examinou, 
o som do corpo agitado sobre o colchão e os lençóis, 
o choro e um silêncio enorme que parece abraçar tudo.
saímos por uns segundos e tu deixaste de ser. 
e deixou de haver tempo para te perguntar como estavas, 
para me dizeres o poema daquele fado premonitório,
para me explicares como se trata a madeira e o ferro,
para me contares como a vida sempre se desenrola.
os rostos silenciosos espalhados pelas paredes frias
observavam-me a olhar-te do fundo da cama enorme
para ti e para a tua recém-reencontrada leveza. a morte
é uma coisa que nos muda. reconhecia-te os traços, 
mas já eras outro. como explicar, avô? já ninguém 
poderia tocar-te, sabes? a pessoa escondida
dentro do corpo e inexplicável pelos dados biográficos
tinha desaparecido. ficaram objectos marcados 
pelo uso que lhes deste, texturas aplacadas pelo rigor
das tuas mãos, memórias, coisas escritas, sorrisos 
esquecidos em fotografias a preto e branco. coisas
que nos conduzem a ti, mas faltas tu nelas. equilíbrio.
e agora que já passou um mês continuo a ouvir a tua
saudação "oh nino!!!" quando ainda me vias. não me 
esqueço, apesar de não te ver e não te conseguir falar,
e por isso escrevo estas palavras: para tentar entender
o que aconteceu e para dizer que quando terminaram 
as dores dos joelhos, nas costas, o peso de uma vida 
de trabalho duro e suor, havia pessoas à tua volta
preocupadas com a vida que sempre foi tudo para ti.
restaram estas palavras, construção sem cimento 
que não é poema, não é memória, não é nada. 
sou eu, completo, que deixo abertos os alicerces deste dia.

18 dezembro 2012

não ser lido é libertador

"Só queria dizer uma coisa que me parece ter ficado perdida no meio de tanto ódio mútuo e, depois, de tanta indiferença: muito mais do que querer possuir-te o corpo, queria a companhia do teu sono. As minhas noites e o meu dormir são por demais solitários. Foi isso que gostei em Barcelona, bastava acordar um pouco e estavas tu, viva, ao meu lado para negar as mortes várias em que durmo".

17 dezembro 2012

Cresce


nada significa nada. tudo é óbvio como um grito. 
só na minha cabeça há confusão. uma tempestade
lá fora. silêncio dentro de casa. espero o sono 
de olhos abertos. tenho frio. desconheço quem sou
e como deveria ser. tenho dúvidas. existo. não sou. 
tenho o vazio do mundo dentro de mim e estou 
coberto com pele e, sobre ela, uma manta simples
e laranja. não voto. não acredito. não compreendo 
o que me aconteceu e confundiu. digo metade 
do que falo e penso. dizem que o mundo vai acabar
e eu só penso em escrever linhas e mais linhas 
a explicar porque deves continuar ao meu lado,
pelo menos até verificarmos se, depois de dia 21,
o nosso corpo continuará quente e o teu húmido,
gruta quente onde me escondo todo dentro do teu
desconhecimento de quem sou, do que faço, do que fui.
há quem confunda amor com o cheiro a lixívia e homens
há que choram lágrimas de gin. é assim o mundo, cheio
de confusões e estranhas trocas de funções, pessoas.
todas estas palavras com que jogamos. noções.
intenções que gostaríamos de explicar melhor no papel
ou para alguém escutar. gostaríamos de nos saber.
contar como somos insubstituíveis quando pressentimos
que é o nosso ego que sente por nós - o que somos?
incapazes de sentir. dentro apenas um alçapão de fumo.
eles chegam e partem de carro. ficam dias frente a portas
fechadas, batem e esperam sem que ninguém abra. tristes.
pelas janelas, escapa-se a existência deles, outros, dentro. 
escolheram não fazer parte. afastaram-se o suficiente
para esquecer tudo o que aconteceu e viver assim. melhor.
passei horas a ver fotografias. tento organizar 7 anos
confusos e desconexos. a todos os segundos perco 
informação e sei lá que mais entre finos espaços. 
não ganho. as coisas desaparecem e eu fico a pensar
nelas. um tonto olhando uma bola que salta rua abaixo.
não há como a agarrar agora. o presente escapou. silêncio.
só há palavras mudas através de redes digitais. o orgulho
continua ferido e a falar mais alto. tudo inútil. desenrolar
a língua como exercício para o futuro que tarda, sacudir 
a morte que a cobre, o fel da desconfiança e da raiva pura
que me atira contra todos, espumando. escolhem o que me 
dizem como se disso dependesse a vida. medo… o que é?
há dias em que a minha pele parece arder, mas ninguém 
repara. dói-me a cabeça e não sei onde a esconder. oiço
verde, tenho nojo e continuo sem saber escapar ao que fiz.
sei nomear a gravidade, mas não compreendo a gravidade 
da situação. só frases. palavras para encher a boca 
de alguém que nunca teve nada a dizer; que escrevia 
como exercício para chegar a si - e que parou de escrever
quando compreendeu que essa estação não chegaria. merda.
consigo criar tudo, menos intimidade. a minha vida não pertence
a ninguém, nem mesmo a mim. a minha nudez cega corta 
as línguas, afasta as mãos, seca as palavras no saco da garganta.
quando falo, tudo em volta arde e desaparece em cinza. estou
nu e só no centro de um campo devastado no interior de mim.
tornei-me nada. é o que és, apenas te falta olhar melhor para ti.
            cresce.

06 dezembro 2012