28 janeiro 2013

Lugar vazio


a mesa do fotógrafo tem um portátil e tabaco velho;
um isqueiro, uvas e um telemóvel inútil. papéis.
tem silêncio
e dois lugares. 

um está sempre vazio

Nuvem negra


é sempre o mesmo deserto como paisagem de fundo.
o ruído ram-ram das rodas raspando continuamente
a gravilha do caminho. o sem-fim da paisagem-roda
retro-iluminada, como os desenhos animados onde
ninguém fala e o fundo é repetitivo e se agita perante
as personagens imóveis, repetição de loucura, loucura
repetida acorde após acorde a olhar as cores do som.
é uma experiência e mais uma tarde de domingo onde 
se passa o tempo esgotando a melancolia da semana. 
a imaginação chega pouco, mas tem de servir: recordar
como seria de novo respirar sem esta pressão no peito; 
sem este chumbo derretido desabado dentro da carcaça.
esperei até ser tarde demais para chegar cedo a casa.
a mais outra. casa. a paisagem agora é negra, pontuada 
por luzes e névoa fria da estrada. viajo depois da meia-noite: 
ninguém olha já os rostos com quem se cruza. estações
de serviço meias vazias e com aquela tristeza que se cola
às cores berrantes, à mecânica metálica, aos rostos aquários.
é apenas mais uma viagem, mais umas horas de mediação
entre a distância que me leva daqui até outro lado qualquer.

26 janeiro 2013

Incapaz


não, não me apetece ir a lado nenhum
ou fazer nada. não, não quero compreender
melhor o que me rodeia ou fazer algo 
diferente. 
quero ficar em casa, em silêncio, sozinho
sem música ou o calor das mãos de alguém
fora de mim. ontem explicaram-me sonhos
e um futuro incerto onde não havia lugar
para mim e para as minhas imperfeições.
quando sair daqui tem de ser para uma coisa
em grande. uma casa e um homem maior que
eu, mais capaz de suportar as rotinas, mais
completo e profundo no trabalho e em privado,
capaz de falar e explicar a bela profundidade 
dos seus bolsos e como é incapaz de sentir.

Puro pensamento

Sou puro pensamento impuro.
Sou uma mesa cheia de pratos
sujos e colheres vazias. Uma
cadeira partida e uma toalha
suja. Sou. Uma garrafa meio
de bebeda junto a mais um
euromilhões amarrotado. Puro
pensamento e desilusões. Falta
de sorte e estou aqui calado
e desatento como quem observa.
Para passar o tempo, outros colam
papéis brancos às paredes tentando
reter fugazes memórias, breves ícones
das vozes interiores que nos guiam
e de dias e noites passados sem termo.
Mas até as paredes vão ruir um dia
e, quando temos todo o peso dos factos
como uma engenharia falhada sobre nós
recordar é um exercício difícil e irrespirável.

24 janeiro 2013

Sentença


nada disto é real. são apenas continuações 
dos nossos ódios e medos. nada disto é real.
é um sonho, apenas. um momento de pesadelo
na noite suada, nos olhos abertos de madrugada
para conferir o relógio da insónia. nada disto é real.
falas como quem mente como quem respira. existes?
nada disto é real. ainda assim, as horas continuam,
fortunas frágeis atravessam as minhas mãos, explicam
forçosamente as cadeias de produção do mundo,
do terceiro para o primeiro e o valor acrescentado da viagem...
acima de tudo, é uma questão de etiqueta. de veracidade.
mas nada disto é real. são apenas nomes que são dados
às coisas, às pessoas. nada do que dizes é uma promessa.
nenhuma palavra revela. os signos não são mensagens 
e nunca, nunca te dás de olhos fechados como disseste
sempre que querias que fosse o amor e a vida: um abismo
de carne ou sensações; uma multitude de inteligências
e horas desencontradas onde nos encontrassem os corpos.
os dias continuam e nenhum milagre político ou humano
nos poderão salvar. as horas prolongam-se, estendem-se
os silêncios como lençóis onde passamos mais uma noite,
descobertos e nus, preparando os corpos e as mentes 
para dar descontar mais um dia a esta nossa sentença.

20 janeiro 2013

La cerradura del amor

Soluciona la noche con monedas:
pagas así la cama.
Mas aquello por lo que tanto dieras
(o quizás dieras poco):
la promesa del cielo (que es lo eterno)
o esta vida final (el desengaño),
por el amor lo dieras casi todo.
Mas si lo ves venir aguarda altivo
porque el don que te llega lo mereces.
No le opongas dureza, mas que llame
a la puerta cerrada. No te fíes
de la belleza de un semblante joven,
y escruta su mirada con la tuya;
ayude la experiencia de los años
para tocar el alma. Si algo sabes
debe servirte mucho en esas horas.
Puede que, a quien esperas, le despidas,
y te quedes más solo.
Mas el amor no pagues con monedas,
no mendigues aquello que mereces.



- Francisco Brines
in Poesia completa, Tusquets 

deste blog 

18 janeiro 2013

Qual house



que house, seja ela a música ou a casa
onde se regressa no final do dia
ou de mais outra semana; qual house
é aquela onde vivemos; quem somos
ou o que somos escondidos atrás de vidros
e espelhos, por vezes de palavras em longos
invernos da mente. qual house escutar
profundamente
quando nem vozes, nem telefones
nem nada
nos aproximam dos outros, excepto a noção
nossa dos outros na existência quotidiana
- e como odeio a palavra quotidiana, marca
de nojo e de rigor horário, de rotina podre
como uma lama que nos prende os pés.
qual house, a música que ecoa pelas ruas
entre casas fechadas e portões abertos,
entre casas mortas e casas prontas a habitar,
apagando o rasto dos esqueletos que riscaram
nas paredes uma outra existência tão breve
e semelhante à nossa. qual house é que é uma
feita carne, feita calor, feita hospitalidade de sangue
no fim de cada dia, breve como uma voz sobre
uma linha satélite, orbitando em volta de vontades
passageiras da nossa passagem. qual house esta
desta porta e deste portão riscados, assassinados
se para isso houvesse um espaço melhor e mais vida.
sem dúvida uma boa questão.
e ainda melhor a resposta construída sem palavras
nem perguntas nem afirmações retóricas:

pedra seca apesar da chuva - e das dúvidas.