30 janeiro 2013

Não se passa nada


os cães ladram e não se passa nada:
o arco desta travessa arqueia ainda,
o rio corre como um esgoto bucólico,
a mesma luz na janela fechada. 
o telefone não vai tocar hoje. nenhuma
voz vai atravessar este vazio. os ecos
que me chegam não trazem nada bom: 
as paredes dizem que o presente esgota
placidamente as suas horas e relatam
confusões profundas dentro do interior
da minha cabeça calculadora negativa.
entretanto mais um dia escorre na torneira
e eu escrevo novamente na cozinha, 
costas para a janela doente, e sempre
o cigarro estúpido a queimar as horas 
a pensar sempre o mesmo: ninguém nos vê. 
não existimos. os espelhos não conseguem 
devolver aquilo que nunca possuiram.

os cães calam-se subitamente.

alguém desliga a luz.

não se passa nada.

An almost made up poem

I see you drinking at a fountain with tiny
blue hands, no, your hands are not tiny
they are small, and the fountain is in France
where you wrote me that last letter and
I answered and never heard from you again.
you used to write insane poems about
ANGELS AND GOD, all in upper case, and you
knew famous artists and most of them
were your lovers, and I wrote back, it’s all right,
go ahead, enter their lives, I’m not jealous
because we’ve never met. we got close once in
New Orleans, one half block, but never met, never
touched. so you went with the famous and wrote
about the famous, and, of course, what you found out
is that the famous are worried about
their fame –– not the beautiful young girl in bed
with them, who gives them that, and then awakens
in the morning to write upper case poems about
ANGELS AND GOD. we know God is dead, they’ve told
us, but listening to you I wasn’t sure. maybe
it was the upper case. you were one of the
best female poets and I told the publishers,
editors, “her, print her, she’s mad but she’s
magic. there’s no lie in her fire.” I loved you
like a man loves a woman he never touches, only
writes to, keeps little photographs of. I would have
loved you more if I had sat in a small room rolling a
cigarette and listened to you piss in the bathroom,
but that didn’t happen. your letters got sadder.
your lovers betrayed you. kid, I wrote back, all
lovers betray. it didn’t help. you said
you had a crying bench and it was by a bridge and
the bridge was over a river and you sat on the crying
bench every night and wept for the lovers who had
hurt and forgotten you. I wrote back but never
heard again. a friend wrote me of your suicide
3 or 4 months after it happened. if I had met you
I would probably have been unfair to you or you
to me. it was best like this.


Charles Bukowski

29 janeiro 2013

Noite incendiada

não sou poeta nem escrevo poemas.
duvido mesmo que seja um homem,
se homem se pode chamar à carne
desta fractura constante. perco o ser
diariamente, navio sem âncoras e portos
esquecidos marcados no casco. escolho 
palavras que não são palavras (mas
antes espelhos onde o leitor encontra
uma outra face que é também a sua)
para me relembrar como era a certeza
absoluta de tudo - mãos no leme tacteando
um rumo, um sentido para a viagem 
e para o esquecimento. não, não sou 
um poeta, ainda menos um homem.
o meu valor é incendiar a noite escura,
o silêncio do corpo, o vazio preenchido.


28 janeiro 2013

Lugar vazio


a mesa do fotógrafo tem um portátil e tabaco velho;
um isqueiro, uvas e um telemóvel inútil. papéis.
tem silêncio
e dois lugares. 

um está sempre vazio

Nuvem negra


é sempre o mesmo deserto como paisagem de fundo.
o ruído ram-ram das rodas raspando continuamente
a gravilha do caminho. o sem-fim da paisagem-roda
retro-iluminada, como os desenhos animados onde
ninguém fala e o fundo é repetitivo e se agita perante
as personagens imóveis, repetição de loucura, loucura
repetida acorde após acorde a olhar as cores do som.
é uma experiência e mais uma tarde de domingo onde 
se passa o tempo esgotando a melancolia da semana. 
a imaginação chega pouco, mas tem de servir: recordar
como seria de novo respirar sem esta pressão no peito; 
sem este chumbo derretido desabado dentro da carcaça.
esperei até ser tarde demais para chegar cedo a casa.
a mais outra. casa. a paisagem agora é negra, pontuada 
por luzes e névoa fria da estrada. viajo depois da meia-noite: 
ninguém olha já os rostos com quem se cruza. estações
de serviço meias vazias e com aquela tristeza que se cola
às cores berrantes, à mecânica metálica, aos rostos aquários.
é apenas mais uma viagem, mais umas horas de mediação
entre a distância que me leva daqui até outro lado qualquer.

26 janeiro 2013

Incapaz


não, não me apetece ir a lado nenhum
ou fazer nada. não, não quero compreender
melhor o que me rodeia ou fazer algo 
diferente. 
quero ficar em casa, em silêncio, sozinho
sem música ou o calor das mãos de alguém
fora de mim. ontem explicaram-me sonhos
e um futuro incerto onde não havia lugar
para mim e para as minhas imperfeições.
quando sair daqui tem de ser para uma coisa
em grande. uma casa e um homem maior que
eu, mais capaz de suportar as rotinas, mais
completo e profundo no trabalho e em privado,
capaz de falar e explicar a bela profundidade 
dos seus bolsos e como é incapaz de sentir.

Puro pensamento

Sou puro pensamento impuro.
Sou uma mesa cheia de pratos
sujos e colheres vazias. Uma
cadeira partida e uma toalha
suja. Sou. Uma garrafa meio
de bebeda junto a mais um
euromilhões amarrotado. Puro
pensamento e desilusões. Falta
de sorte e estou aqui calado
e desatento como quem observa.
Para passar o tempo, outros colam
papéis brancos às paredes tentando
reter fugazes memórias, breves ícones
das vozes interiores que nos guiam
e de dias e noites passados sem termo.
Mas até as paredes vão ruir um dia
e, quando temos todo o peso dos factos
como uma engenharia falhada sobre nós
recordar é um exercício difícil e irrespirável.