10 fevereiro 2013

Bifocais


debaixo das lentes bifocais da culpa
espero 
pacientemente a tua voz de cadela 
com cio vinda do outro lado, intocada
ainda pelos ácidos da minha saliva,
pelas distorções dos meus sentidos.
não te conheço. tu não me conheces.
vivemos desesperados sendo o que 
somos em separado, tendo a certeza
que a união seria fugaz e não apagaria
o teu imenso desejo - e impossibilidade -
de viver plenamente um segundo apenas
na vertigem da velocidade alucinante.
não nos pertencemos e isso é libertador.
sei que se houvesse oportunidade e lugar
tu te entregarias de quatro, o rabo empinado 
para mim, de costas para não me veres 
e eu ser mais um momento de fantasia;
de costas para te poder matar quando quiser…
como se tu quisesses morrer e isso te excitasse
ainda mais. a tua maior invenção inútil sou eu.
sem utilidade nem corpo como uma miragem 
no lonjura do deserto, sem calor nem forma
que não a que a tu me deste. e excita-te o controlo.
sei que as tuas mãos são pequenas, o teu corpo
esguio e que andas como se assassinasses 
cada segundo de sangue que respira em ti. sei
a tua voz e sei as verdades relativas do que dizes.
numa cidade desconhecida espera-nos uma tarde
para me infectares com o vírus da existência.

06 fevereiro 2013

#10


Sem tempo para escrever


porque será que os poetas não escrevem 
sobre as mãos molhadas da loiça fria? 
também nunca lhes escutei nenhuma palavra
sobre os dedos gretados pela normalidade,
o cheiro a comida na roupa, as mãos sujas
do cheiro a alho e cebola, as cicatrizes da vida
regular e comum - como se no mundo todos nós 
fossemos ou criaturas de outro mundo; ou amantes
de todos os dias; ou animais políticos engajados; ou
apenas surrealmente doidos e inconsequentes 
no exercício de desconstrução da realidade. contudo, 
há palavras demasiadas e demasiado grandes
e, por isto, insignificantes demais para o mundo como é:
para regular a morte do amor, a limpeza da sanita no coração,
a pia entupida entre palavras e a língua, a economia entre
os sentimentos e o dia para viver amanhã, mais um sem fim
de horas para nada… para o crescimento do desinteresse
rodeados de estranhos familiares, talvez haja uns minutos.
e disto eles falam: da estranheza do viver, do exercício social,
da impossibilidade do contacto e da comunicação perfeita
- mas por códigos, ocultos nas sombras das letras, sibilantes
como quem não sabe do que fala e tenta parecer que sabe.
desconfio de poetas. escondem monstros dentro deles.
monstros inteligentes e selvagens que mudam e escondem 
veneno na saliva, na tinta que lhes suja os dedos, nos olhares
silenciosos para as coisas, nos silêncios arritmicamente
respirados que nos dizem a cadência do mundo:
"sim! sim! sim! três vezes sim! estou vivo - e não sei o que fazer!"
e depois vão lavar a loiça e ficam sem tempo para escrever.

03 fevereiro 2013

31 janeiro 2013

destruir/criar


destruir

passo os dias inteiros a sorrir ou a tentar sorrir
quando só consigo sentir uma árvore de ódio 
a crescer em mim, as raízes a descer do coração
aos pés, entrando na terra que me rodeia tornando-a
tão estéril quanto eu sou e sempre fui. onde toco
a vida apodrece, os sorrisos morrem, a pele perde
a sua juventude e fica amarela como a dos velhos.
é este o meu dom - destruir tudo o que toco. odeio
o próprio sangue desta confusão, a minha depressão
de tudo que não passa, as entregas estúpidas 
e as mais estúpidas tentativas de lhes encontrar 
sentido. odeio as horas desperdiçadas no trabalho
e a trabalhar quando podia estar a viver melhor
e a não me preocupar com nada, excepto os impostos,
a burocracia da vida, o preço por ser cidadão pleno
da ilusão de primeiro mundo. odeio estas palavras 
falsas e inúteis, que dizem tudo e não explicam nada
do que realmente acontece. odeio este ódio, 
a incompreensão e o sabor dos sexos amargurados,
o falhanço de querer ser mais e não chegar a ser nada.


criar

por isso digo é preciso destruir tudo o que o passado trouxe.
por isso digo que é preciso fuzilar todas as memórias, tudo
o que os dias nos deram para sermos felizes sendo quem somos.
por isso digo que preciso de me ser outro. esquecer-me de mim
todos os dias, todas as horas. deixar respirar as horas em mim
e pensar na sande que me espera quando chegar a casa, no vinho
quente que acompanha a refeição simples, no fumo depois do jantar
e o banho a escaldar antes da calma do meu sono, sozinho, porque
afinal é assim que nos ensinam a existir desde cedo e porque nada 
vale mesmo a pena, excepto existir para mais outro dia sem pensar
em nada, sem sabermos mesmo quem somos ou nos interessarmos
minimamente por isso. talvez um dia, assim reinventado o mundo
num turbilhão de novidade inesgotável, seja minimamente confortável
e até divertido acordar à mesma hora, todos os dias, para o resto da vida.

30 janeiro 2013

Não se passa nada


os cães ladram e não se passa nada:
o arco desta travessa arqueia ainda,
o rio corre como um esgoto bucólico,
a mesma luz na janela fechada. 
o telefone não vai tocar hoje. nenhuma
voz vai atravessar este vazio. os ecos
que me chegam não trazem nada bom: 
as paredes dizem que o presente esgota
placidamente as suas horas e relatam
confusões profundas dentro do interior
da minha cabeça calculadora negativa.
entretanto mais um dia escorre na torneira
e eu escrevo novamente na cozinha, 
costas para a janela doente, e sempre
o cigarro estúpido a queimar as horas 
a pensar sempre o mesmo: ninguém nos vê. 
não existimos. os espelhos não conseguem 
devolver aquilo que nunca possuiram.

os cães calam-se subitamente.

alguém desliga a luz.

não se passa nada.

An almost made up poem

I see you drinking at a fountain with tiny
blue hands, no, your hands are not tiny
they are small, and the fountain is in France
where you wrote me that last letter and
I answered and never heard from you again.
you used to write insane poems about
ANGELS AND GOD, all in upper case, and you
knew famous artists and most of them
were your lovers, and I wrote back, it’s all right,
go ahead, enter their lives, I’m not jealous
because we’ve never met. we got close once in
New Orleans, one half block, but never met, never
touched. so you went with the famous and wrote
about the famous, and, of course, what you found out
is that the famous are worried about
their fame –– not the beautiful young girl in bed
with them, who gives them that, and then awakens
in the morning to write upper case poems about
ANGELS AND GOD. we know God is dead, they’ve told
us, but listening to you I wasn’t sure. maybe
it was the upper case. you were one of the
best female poets and I told the publishers,
editors, “her, print her, she’s mad but she’s
magic. there’s no lie in her fire.” I loved you
like a man loves a woman he never touches, only
writes to, keeps little photographs of. I would have
loved you more if I had sat in a small room rolling a
cigarette and listened to you piss in the bathroom,
but that didn’t happen. your letters got sadder.
your lovers betrayed you. kid, I wrote back, all
lovers betray. it didn’t help. you said
you had a crying bench and it was by a bridge and
the bridge was over a river and you sat on the crying
bench every night and wept for the lovers who had
hurt and forgotten you. I wrote back but never
heard again. a friend wrote me of your suicide
3 or 4 months after it happened. if I had met you
I would probably have been unfair to you or you
to me. it was best like this.


Charles Bukowski