debaixo das lentes bifocais da culpa
espero
pacientemente a tua voz de cadela
com cio vinda do outro lado, intocada
ainda pelos ácidos da minha saliva,
pelas distorções dos meus sentidos.
não te conheço. tu não me conheces.
vivemos desesperados sendo o que
somos em separado, tendo a certeza
que a união seria fugaz e não apagaria
o teu imenso desejo - e impossibilidade -
de viver plenamente um segundo apenas
na vertigem da velocidade alucinante.
não nos pertencemos e isso é libertador.
sei que se houvesse oportunidade e lugar
tu te entregarias de quatro, o rabo empinado
para mim, de costas para não me veres
e eu ser mais um momento de fantasia;
de costas para te poder matar quando quiser…
como se tu quisesses morrer e isso te excitasse
ainda mais. a tua maior invenção inútil sou eu.
sem utilidade nem corpo como uma miragem
no lonjura do deserto, sem calor nem forma
que não a que a tu me deste. e excita-te o controlo.
sei que as tuas mãos são pequenas, o teu corpo
esguio e que andas como se assassinasses
cada segundo de sangue que respira em ti. sei
a tua voz e sei as verdades relativas do que dizes.
numa cidade desconhecida espera-nos uma tarde
para me infectares com o vírus da existência.
