ainda não me explicaram se sou o crime ou o castigo,
o acto ou a consequência. entregam-me as mãos abertas
sobre os livros, os rastos poluídos da psicose da entrega
marcados na pele, no cansaço dos olhos que se escondem
retribuindo o olhar. falo de fotografias, em olhar na varanda
do olhar do outro, ver o que o outro vê sem o alcançar, sem
conseguir agarrar o tacto e os cheiros da presença... pensamento
libertado e feito coisa física e criação pessoal. há apenas silêncio,
os meus olhos, imagens mal-formadas, intenções dúbias e inuendos
digitais - um silêncio de morte planificada sobre tudo isto.
12 fevereiro 2013
11 fevereiro 2013
10 fevereiro 2013
Bifocais
debaixo das lentes bifocais da culpa
espero
pacientemente a tua voz de cadela
com cio vinda do outro lado, intocada
ainda pelos ácidos da minha saliva,
pelas distorções dos meus sentidos.
não te conheço. tu não me conheces.
vivemos desesperados sendo o que
somos em separado, tendo a certeza
que a união seria fugaz e não apagaria
o teu imenso desejo - e impossibilidade -
de viver plenamente um segundo apenas
na vertigem da velocidade alucinante.
não nos pertencemos e isso é libertador.
sei que se houvesse oportunidade e lugar
tu te entregarias de quatro, o rabo empinado
para mim, de costas para não me veres
e eu ser mais um momento de fantasia;
de costas para te poder matar quando quiser…
como se tu quisesses morrer e isso te excitasse
ainda mais. a tua maior invenção inútil sou eu.
sem utilidade nem corpo como uma miragem
no lonjura do deserto, sem calor nem forma
que não a que a tu me deste. e excita-te o controlo.
sei que as tuas mãos são pequenas, o teu corpo
esguio e que andas como se assassinasses
cada segundo de sangue que respira em ti. sei
a tua voz e sei as verdades relativas do que dizes.
numa cidade desconhecida espera-nos uma tarde
para me infectares com o vírus da existência.
06 fevereiro 2013
Sem tempo para escrever
porque será que os poetas não escrevem
sobre as mãos molhadas da loiça fria?
também nunca lhes escutei nenhuma palavra
sobre os dedos gretados pela normalidade,
o cheiro a comida na roupa, as mãos sujas
do cheiro a alho e cebola, as cicatrizes da vida
regular e comum - como se no mundo todos nós
fossemos ou criaturas de outro mundo; ou amantes
de todos os dias; ou animais políticos engajados; ou
apenas surrealmente doidos e inconsequentes
no exercício de desconstrução da realidade. contudo,
há palavras demasiadas e demasiado grandes
e, por isto, insignificantes demais para o mundo como é:
para regular a morte do amor, a limpeza da sanita no coração,
a pia entupida entre palavras e a língua, a economia entre
os sentimentos e o dia para viver amanhã, mais um sem fim
de horas para nada… para o crescimento do desinteresse
rodeados de estranhos familiares, talvez haja uns minutos.
e disto eles falam: da estranheza do viver, do exercício social,
da impossibilidade do contacto e da comunicação perfeita
- mas por códigos, ocultos nas sombras das letras, sibilantes
como quem não sabe do que fala e tenta parecer que sabe.
desconfio de poetas. escondem monstros dentro deles.
monstros inteligentes e selvagens que mudam e escondem
veneno na saliva, na tinta que lhes suja os dedos, nos olhares
silenciosos para as coisas, nos silêncios arritmicamente
respirados que nos dizem a cadência do mundo:
"sim! sim! sim! três vezes sim! estou vivo - e não sei o que fazer!"
e depois vão lavar a loiça e ficam sem tempo para escrever.
03 fevereiro 2013
31 janeiro 2013
destruir/criar
destruir
passo os dias inteiros a sorrir ou a tentar sorrir
quando só consigo sentir uma árvore de ódio
a crescer em mim, as raízes a descer do coração
aos pés, entrando na terra que me rodeia tornando-a
tão estéril quanto eu sou e sempre fui. onde toco
a vida apodrece, os sorrisos morrem, a pele perde
a sua juventude e fica amarela como a dos velhos.
é este o meu dom - destruir tudo o que toco. odeio
o próprio sangue desta confusão, a minha depressão
de tudo que não passa, as entregas estúpidas
e as mais estúpidas tentativas de lhes encontrar
sentido. odeio as horas desperdiçadas no trabalho
e a trabalhar quando podia estar a viver melhor
e a não me preocupar com nada, excepto os impostos,
a burocracia da vida, o preço por ser cidadão pleno
da ilusão de primeiro mundo. odeio estas palavras
falsas e inúteis, que dizem tudo e não explicam nada
do que realmente acontece. odeio este ódio,
a incompreensão e o sabor dos sexos amargurados,
o falhanço de querer ser mais e não chegar a ser nada.
criar
por isso digo é preciso destruir tudo o que o passado trouxe.
por isso digo que é preciso fuzilar todas as memórias, tudo
o que os dias nos deram para sermos felizes sendo quem somos.
por isso digo que preciso de me ser outro. esquecer-me de mim
todos os dias, todas as horas. deixar respirar as horas em mim
e pensar na sande que me espera quando chegar a casa, no vinho
quente que acompanha a refeição simples, no fumo depois do jantar
e o banho a escaldar antes da calma do meu sono, sozinho, porque
afinal é assim que nos ensinam a existir desde cedo e porque nada
vale mesmo a pena, excepto existir para mais outro dia sem pensar
em nada, sem sabermos mesmo quem somos ou nos interessarmos
minimamente por isso. talvez um dia, assim reinventado o mundo
num turbilhão de novidade inesgotável, seja minimamente confortável
e até divertido acordar à mesma hora, todos os dias, para o resto da vida.
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