22 fevereiro 2013

Viagem de comboio à noite

viagem de comboio à noite:  lá fora
só a pontuação histérica das luzes 
- laranja e branco néon. nem um rosto
perceptível atrás das muralhas do sono. 
viagem. lenta enumeração de estações
e apeadeiros, aproximo-me mais, 
entre bocejos, 
de um destino transitório, daquela voz
metálica que me diz o caminho. casas vazias. 
não tenho sono e o corpo dói-me. ruído  
e inclinações de enjoo e a funda percepção
da eterna e constante mudança do corpo.
movimento. a velhice enorme de cada segundo, 
a fugaz passagem do futuro a passado na brevidade
dos dias presentes. assim passamos por aqui.
estou só. continuo só. sou só. só sei ser bem
só. por muito que me queria enganar e pensar
o amor em formatos que só eu conheço e acredito;
formatos indizíveis e irrepetíveis. falta-me uma bolsa
a condizer com os desejos; falta-me um coração
para esta boca, uma boca para estes pensamentos
e mãos para escrever tudo no seu significado absoluto.
só eu acredito ainda no amor, por mais que o negue.
nas contradições do amor, nas fugas do amor, 
nas imensas mentiras e completas traições do amor.
e acredito que depois de tudo, as feridas se fecham
com amor completo nas mãos vazias que se entregam.
na janela está tudo negro agora e uma enorme paz caiu,
apagando luz, ruído, movimento e ponto de partida.
inexoravelmente aproximo-me cada vez mais de uma casa
que só eu sei preencher de luz, de silêncio - e calor.

17 fevereiro 2013

Espera

ele tarda, ela não chega, 
os carros na rua permanecem os mesmos. 
os cães ladram e o jantar arrefece. 
nunca fui feliz em serzedo, ainda menos
aqui… seja em casa, nas lentas cavernas 
onde durmo algumas noites, ou em lares
e camas emprestadas para umas horas apenas.
noites estranhas que culminam os dias trabalhosos,
sangue e dor. gritos primordiais. flash de amnésia
e uma imensa solidão interior na madrugada
de mais um dia em que se entra de pé em riste.
nenhuma paz. gritos e ódio. nervos no cancro da pele.
conduzir horas e horas a fio, fio negro à minha frente,
quilómetros de nada enquanto a manhã avança
até casa. todas as janelas fechadas. ninguém 
dentro de mim ou fora. silêncio agora. sem pânico. 
vazio 
enquanto meto a chave na fechadura. mais porta
do que passagem, entro. sofá durante horas a ver
a névoa do dia a crescer. mais cinzento que eu.
dormitar vestido com a cabeça ainda cheia de ruído.
acordar com o toque assimétrico da chuva nos vidros.
dormir outra vez. 4 horas em que me posso esquecer
de tudo, menos de mim que existo dentro desta cabeça,
nesta forma incompleta e incomunicável - e nada acontece.
bip-bip-bip do relógio que herdei do meu avô. realidade
high key da janela enquadrada em torno da madeira 
e ninguém com quem falar. nenhum divertimento mais a ter.
4 horas ilusórias em que me posso esquecer de tudo, 
menos de mim que existo dentro desta cabeça, desta forma 
incompleta.

14 fevereiro 2013

Dias assim


esperamos que o amor nos entre portas dentro
enquanto esperamos à janela uma palavra 
que nos fixe ali, naquele momento de encontro.
a mesa está posta, o vinho servido, a casa quente
- faltam somente as vozes para dar música às paredes.




13 fevereiro 2013

Reflexo esquecido


sempre que como maçãs volto a sentir o teu sabor, 
fruto quente de agosto gostoso, 
reflexo esquecido das minhas mãos nuas.

12 fevereiro 2013

#77


Crime ou castigo

ainda não me explicaram se sou o crime ou o castigo,
o acto ou a consequência. entregam-me as mãos abertas
sobre os livros, os rastos poluídos da psicose da entrega
marcados na pele, no cansaço dos olhos que se escondem
retribuindo o olhar. falo de fotografias, em olhar na varanda
do olhar do outro, ver o que o outro vê sem o alcançar, sem
conseguir agarrar o tacto e os cheiros da presença... pensamento
libertado e feito coisa física e criação pessoal. há apenas silêncio,
os meus olhos, imagens mal-formadas, intenções dúbias e inuendos
digitais - um silêncio de morte planificada sobre tudo isto.