23 abril 2013

No fundo do mundo


o mundo sabe-me a lixo. sou o lixo
no fundo do mundo à roda, pedaço
de terra e mar. sei que amanhã 
acordarei confuso, sem saber 
quem sou ou onde estou ou porquê.
afinal de contas
há perguntas muito mais importantes.

17 abril 2013

Tempo efémero


Sorvo cada segundo que morre porque 
rapidamente começamos a esquecer 
como se cai em braços apaixonados; 
como se esquece a noite de todos os dias
sorrindo;
onde se encontram as palavras simples 
para construir um amanhã possível.
existe o medo, o egoísmo, a roda psicótica
da rotina, a vontade de poder triunfante 
sobre uma paz interior subtil, efémera.
infelizmente no nosso mundo de sábios
cada vez mais estúpidos, tudo o que é real
e importante não passa de mais uma ilusão:
um engano transitório onde nos perdemos 
para continuarmos a suportar uma existência
cheia de objectos plásticos, áridos, sem voz.

O tamanho do sotão


esperavam-me à porta da minha casa alugada
segurando os sonhos nas mãos. pouco mais 
que os 20 anos, ambos. ela talvez mais nova,
com o habitual piercing a fazer de sinal no canto
inferior direito do lábio, camisola roxa apertada
evidenciando uma enorme gravidez. queriam 
ver a casa, procuravam um sítio para crescer
juntos - os 3. entraram por não mais que um 
minuto, olharam, e foram-se embora sorrindo.
lamento, mas não, não sei o tamanho do sotão.

10 abril 2013

Minutos que te antecedem


devia estar a responder a anúncios, 
a lamentar o péssimo dia de trabalho 
e os objectivos por cumprir, as horas 
perdidas entre as horas marcadas 
para viver o dia e as incertezas curtas
do amanhã, mas já não consigo. estou
sentado, na cozinha, a escrever como 
quem fuma, concentrado, a contar 
os minutos que te antecedem. 

12 março 2013

Para contar à lareira

deitados, conversando cansados e olhando o trapézio das quatro 
linhas do tecto, descobrimos os nossos egos equilibrados 
nesta cama
estreita e dura longe do frio húmido, da chuva, da solidão das
ruas rasgadas na pele durante horas acumuladas no vazio.
não, não te vou perguntar pelo teu passado. não o quero saber.
se o contares, vou escutar e esquecer. e tentar compreender-te 
como és agora - não o que te trouxe aqui e a esta forma de mim.
escutamos um rumor, uma língua estranha e nova; guardamos
o alfabeto secreto das nossas peles debaixo da língua - para falar 
melhor quem somos agora que temos horas e silêncios, segredos
- e que começamos uma história conjunta para contar, mais tarde,
à lareira.

Cama estreita


deixa estar o mundo, a gente consegue fugir
à roda da rotina, aos gráficos do cansaço e
às químicas absurdas da luz; às horas 
e ao espaço, às pessoas que nos rodeiam,
ao vazio lá fora, ao silêncio estéril e poeirento
de mais um dia de horas acumuladas. não importa
onde, mas há o golpe de sorte de uma cama estreita
onde nos apertarmos, um termoventilador a sussurrar 
o seu calor fechado neste quarto espartano, quatro 
paredes da nossa privacidade onde oferecemos
o corpo às bocas e às mãos e depois ao calor do sono,
adormecendo apenas com a certeza absoluta dos braços 
que nos seguram e impedem a nossa queda no vazio.

25 fevereiro 2013

Elogio da sombra


as sombras protegem e modelam.
as sombras falam quando as bocas
se entreabrem num beijo sem tempo.
sombras vermelhas reflectidas, manhã
difusa, mundo em suave contraluz e saliva.