16 maio 2013

Café e cigarros


adoras os teus cigarros e fumas, brincas com o fogo
e espalhas a cinza à tua volta. és fumo. cinzento.
invisível presença espalhada pela casa. uma vez
tiraste o coração de plástico de um maço. o meu.
coração translúcido, inútil. o meu. brinquedo partido.
o meu. abrigados num café brincas com o isqueiro.
já não me vês. o cigarro e o beijo. o café breve.
a chuva que mais uma vez cai lá fora sobre as vozes.

Apenas mais um


nunca consegui rastejar para dentro
da aceitação. os abraços prendem-me,
quebram-me o ar do pescoço e penso,
muito, que inevitavelmente se vão rir.
todos.
porque, afinal, sou apenas mais um.

15 maio 2013

Loira, bebe uma cerveja


Loira, bebe uma cerveja 
ao sol,
do outro lado da praça,
neste fim de tarde cansado
de correr 
ruas desinteressantes; 
espera, como eu, alguém
tardio, cheio de dúvidas
e fome,
com contactos breves com o mundo.
Mergulho em apneia, rostos
familiares turvados pela água, 
certo o sol, apertado o estômago.
Sete da tarde e tenho fome, finalmente.
Dia em jejum à espera do momento
fotográfico, sem erros, elusivo. Ela apoia
o queixo no joelho e olha. Não sou eu
quem ela espera. Olha através de mim.
Escrevo.
Envelhecemos ao sol e esperamos.
Sem sorrir.
A cidade comeu o riso. 
Gritos e desconhecidos.
Clic.
Não é esta a foto.
Espero mais um pouco.
Respiro.
Continua a falar e prova
que existe. Agarra o telemóvel, 
relembra quem és, que esperas ainda.
Diz coisas sem significado para espantar
a morte, para que te ouçam, te compreendam
como sendo mais 
que este corpo
ou 
estas horas desperdiçadas
ou
as palavras que contas para adormecer, 
para te agarrares ao cabelo da noite
quando falha a respiração.
Clic.
Sem foco. Luz rasante nas árvores de granito.
Sopra um vento 
adverso,
inactivo verbo sem esperança.
Respira.
Espera.
Caminha com fome,
experimenta 
as contas da ausência.
Ninguém
a quem falar dias a fio, 
a voz como ilusão cerebral,
o aperto no coração quando escreves 
a impossível coragem de arrasar tudo,
construir de novo,
miragem de fome e sol. 
Permaneço
sentado
ainda que diferente, 
ainda o mesmo
e esquecido de como escapar de mim.
Agora somos todos pobres e reconhecemos
apenas mãos
vazias como nós,
por dentro.
E das minhas mãos sobe ainda o teu cheiro de pele 
à memória - acho que todos o sentem,
mas ninguém pergunta
por ti
ou
por mim
ou 
como sinto agora quem sou e como sou.
Diferente. Não tenho o tempo de ninguém.
Fantasma ou presença anónima em espelho
de relógio ausente, sorriso por devolver
na miopia das emoções. Continuo à espera.
Um momento
que nem eu consigo reconhecer,
a cerveja acabou,
os amigos chegaram,
ela já não sabe o que esperar mais.
Clic.
Turistas e línguas estranhas.
Clic.
Velhos cruzam a tarde como navios cansados.
Clic.
Do outro lado da praça já não existe ninguém.
Clic.
Imóveis pessoas perdidas em todas as praças
esperando
também
debaixo de mais um sol
um segundo equilíbrio.

Eclipse con Rimbaud


Eclipse con Rimbaud


He pasado la mitad de mi vida en la oscuridad.
He descargado camiones de oscuridad.
He bebido toda la oscuridad.
He dormido con la oscuridad.
He amado la oscuridad y me he acostado con ella.
He tocado las piedras de la oscuridad hasta herirme las manos.
He repetido tu nombre en la oscuridad.

Los pescadores cantan en la niebla de la oscuridad.
Los jóvenes sin vida están despiertos en la oscuridad.
Los músicos y las rameras guardan su corazón en la oscuridad.

He soñado con la oscuridad la mitad de mi vida.
He hospedado mi juventud en el cáñamo de la oscuridad.
He desnudado a la oscuridad y gozado con ella.
He acariciado con dedos de pastor el sexo de la oscuridad.

La oscuridad es la oración de los acordeones nublados.
La oscuridad vive en las palabras que descifran la muerte.
La oscuridad habita los suburbios de la belleza.

Dad de ladrar al perro de la oscuridad.
Oíd la lepra sagrada de la oscuridad.

- Juan Carlos Mestre
in La Casa Roja, Calambur

neste blog 

09 maio 2013

Saco de plástico

dois meses bem feitos
têm a medida dum saco
de plástico,
daqueles onde se levam 
coisas que se compram.

Saber contar

Quanto tempo dura a tua memória completa 
em números? até quanto sabes contar?
3 vezes 9 é 27. 3 vezes 9 é 27. 3 vezes 9 é 27.
é uma imagem estranha - a rua contrastada
e o homem com o seu guarda-chuva enumerando
a mortal certeza matemática das coisas todas,
(afastando-se certo num descampado de pedra)
moendo os dentes podres nesta lenga-lenga inútil.
Tudo debaixo de uma chuva miúda que engole toda
a cidade com uma voracidade de animal esfomeado.


08 maio 2013

Vindos de longe

agora estamos sempre a dizer adeus.
não respondemos às palavras, falamos
ambos em línguas estranhas, as mensagens
ficam truncadas e sem resposta. desencontros.
corpos tristes que nos assombram os sonos,
silenciosos, uma impressão de frio nos ombros
estranhos que a noite nos empresta para dormir.
demasiadas horas no dia e a cidade não iluminou
a nossa noite, nem abriu os olhos nossos, nem soltou
as vontades e coragem. reconstruir é uma palavra 
vazia, mais um conceito abstracto sem referente,
corpo frio e caprichoso, triste de vazio que é. 
fiquei mais uma vez acordado. a última espera.
ouvi a noite passar e transformar-se em dia,
as janelas que se abrem, as garagens, 
o passo apressado das pessoas que vivem. 
mais uma vez a minha porta permaneceu 
fechada, nem uma palavra pela fechadura. 
risos
escutavam-se claramente, vindos de longe, 
frios.