31 maio 2013

Abacate

Braga não tem um único café decente.
Parecem todos montras mostruários 
de uma felicidade nostálgica, indecisa.
Não deixa de ser irónico que ninguém
aqui queira ser visto ou nomeado. 
As pessoas cruzam as praças de olhos
baixos alheias a tudo e são seguidas
por pedintes de vozes inaudíveis. Passos
rápidos entre igrejas e granitos cinzentos.
Afasto-me e procuro um banco sob o sol
incerto deste mês de Maio. 2013. A CGTP
manifesta-se com a sua falta de jeito habitual
- os mesmos rostos de sempre, as mãos
as mesmas de sempre, também, e os slogans,
as palavras de ordem que falam de pão, justiça
e povo, arrastam-se debaixo dos olhares curiosos.
De um lado e outro, quase nenhum rosto jovem
e parece-me cada vez mais que estas vozes
que cantam se treinaram nos campos eclesiásticos
de todas estas igrejas. Nem fotografar consigo.
Não sei a que apontar a câmara e sei que vim
apenas para perder tempo, perseguir um sonho
só meu, rever momentos intransmissíveis. Afinal
a crueldade é um conceito cerebral já que tudo
acontece fora de nós - e o facto de as coisas 
nos acontecerem é apenas um acaso. Somos nós
lá, naquele momento. Senão seriam outros. 
As coisas existem. Não devemos levar nada a sério.
As palavras são palavras são palavras são palavras.
Conceitos vazios. Balões vermelhos sem um fio.
E hoje sou eu a criança estúpida que o veio ver
subir contra o céu e desaparecer nas alturas, 
por entre os dentes de prédios, por entre frágeis
cúpulas das igrejas, por entre os olhares distraídos 
que apenas conseguem focar o chão à frente.

Duas horas de silêncio depois somos sempre outros.
Nem melhores ou piores. Apenas outros.

29 maio 2013

Finalmente iguais sob a mesma desgraça - 2009


Encontramo-nos casualmente na rua quando chovia
E sei que preferias partir comigo a ficar aí,
A mexer nesse pó de gesso e a abrir buracos nos tectos das casas,
Apenas para chegar ao céu e o entubar até às paredes respiratórias.
No desencontro desta hora, são horas de terminar a digestão e o cigarro
E voltar a pegar nas ferramentas: a ti a mais completa poesia da destruição
E a arte de fazer de conta que o trabalho se faz rápido, eficaz;
Para mim, a caneta fraca e cobarde, a câmara clara das minhas memórias
E uma mochila pesada e inútil como uma carapaça mole.
Sabes que podíamos percorrer estas ruas húmidas pelas primeiras chuvas
Como uma mulher que se entrega; sabes que podíamos transfigurar
Este granito, todo este peso imenso nos corpos femininos que nos escapam
Às mãos rudes com que os buscamos; sabes que podíamos fazer
Desta cidade a impossível mulher, puta e santa na perfeita medida do desejo.

Meu irmão, resta fazer as contas ao que nos sobra depois de nos roubarem
O coração produtor e acreditar que dias melhores serão possíveis; que, um dia,
Voltaremos todos a falar a mesma língua e as mãos voltarão à sua pureza inicial,
Longe dos árduos cabos das picaretas e dos maços, do corpo rugoso dos escopros
E das cicatrizes do trabalho. Ainda que penses o contrário, preferia muito mais ter
O meu cabelo sujo com o pó do cimento e do gesso, a t-shirt manchada de tinta
E essas mãos cicatrizadas que agora escrevem noutro papel, noutra hora de trabalho
Nocturna ou que se arrastam cansadas pelos sonhos de uma vida melhor, destruindo
A superfície menos dura dos livros. Acredita que dias melhores serão possíveis,
E que o sol brilhará e o pó das casas não se agarrará a ti e que os teus dedos não serão
Mais feitos de metal. Caso o boletim metereológico erre a sua previsão, haverá chuva
Para nos molhar a ambos, a todos, finalmente iguais sob a mesma desgraça.

21 maio 2013

Ed Ruscha - On the Road

Acrylic on canvas. Overall: 38 5/8 x 72 in. (98.1 x 182.9 cm). Courtesy of the artist and Gagosian Gallery.

19 maio 2013

Tarde demasiado longa de domingo


É domingo, lento e nostálgico vento bucólico.
Sozinho em casa escrevo espreitando a janela
quase aberta que me recorda o mundo e a vida
para viver como um animal perdido, selvagem.

corro de dia para dia sem compreender, cego
completamente para além dos sentidos, 
maelstrom,
babel,
sem encontrar novamente uma mesma língua
para falar, tempos em comum para viver. 

penso nos corpos cruzados, no tempo perdido,
na absoluta insignificância de todas as tentativas
contra o peso do passado, esse cobertor curto 
que nos destapa os pés
e as intenções. 

e por dentro resta-me pensar a negro a incompreensão.
a vida, este momento de débil alegria, memória
recuada de mais um momento esquecido, 
breve chama que se extingue 
sonolenta
na tarde demasiado longa de mais um domingo.

16 maio 2013

Café e cigarros


adoras os teus cigarros e fumas, brincas com o fogo
e espalhas a cinza à tua volta. és fumo. cinzento.
invisível presença espalhada pela casa. uma vez
tiraste o coração de plástico de um maço. o meu.
coração translúcido, inútil. o meu. brinquedo partido.
o meu. abrigados num café brincas com o isqueiro.
já não me vês. o cigarro e o beijo. o café breve.
a chuva que mais uma vez cai lá fora sobre as vozes.

Apenas mais um


nunca consegui rastejar para dentro
da aceitação. os abraços prendem-me,
quebram-me o ar do pescoço e penso,
muito, que inevitavelmente se vão rir.
todos.
porque, afinal, sou apenas mais um.

15 maio 2013

Loira, bebe uma cerveja


Loira, bebe uma cerveja 
ao sol,
do outro lado da praça,
neste fim de tarde cansado
de correr 
ruas desinteressantes; 
espera, como eu, alguém
tardio, cheio de dúvidas
e fome,
com contactos breves com o mundo.
Mergulho em apneia, rostos
familiares turvados pela água, 
certo o sol, apertado o estômago.
Sete da tarde e tenho fome, finalmente.
Dia em jejum à espera do momento
fotográfico, sem erros, elusivo. Ela apoia
o queixo no joelho e olha. Não sou eu
quem ela espera. Olha através de mim.
Escrevo.
Envelhecemos ao sol e esperamos.
Sem sorrir.
A cidade comeu o riso. 
Gritos e desconhecidos.
Clic.
Não é esta a foto.
Espero mais um pouco.
Respiro.
Continua a falar e prova
que existe. Agarra o telemóvel, 
relembra quem és, que esperas ainda.
Diz coisas sem significado para espantar
a morte, para que te ouçam, te compreendam
como sendo mais 
que este corpo
ou 
estas horas desperdiçadas
ou
as palavras que contas para adormecer, 
para te agarrares ao cabelo da noite
quando falha a respiração.
Clic.
Sem foco. Luz rasante nas árvores de granito.
Sopra um vento 
adverso,
inactivo verbo sem esperança.
Respira.
Espera.
Caminha com fome,
experimenta 
as contas da ausência.
Ninguém
a quem falar dias a fio, 
a voz como ilusão cerebral,
o aperto no coração quando escreves 
a impossível coragem de arrasar tudo,
construir de novo,
miragem de fome e sol. 
Permaneço
sentado
ainda que diferente, 
ainda o mesmo
e esquecido de como escapar de mim.
Agora somos todos pobres e reconhecemos
apenas mãos
vazias como nós,
por dentro.
E das minhas mãos sobe ainda o teu cheiro de pele 
à memória - acho que todos o sentem,
mas ninguém pergunta
por ti
ou
por mim
ou 
como sinto agora quem sou e como sou.
Diferente. Não tenho o tempo de ninguém.
Fantasma ou presença anónima em espelho
de relógio ausente, sorriso por devolver
na miopia das emoções. Continuo à espera.
Um momento
que nem eu consigo reconhecer,
a cerveja acabou,
os amigos chegaram,
ela já não sabe o que esperar mais.
Clic.
Turistas e línguas estranhas.
Clic.
Velhos cruzam a tarde como navios cansados.
Clic.
Do outro lado da praça já não existe ninguém.
Clic.
Imóveis pessoas perdidas em todas as praças
esperando
também
debaixo de mais um sol
um segundo equilíbrio.