02 junho 2013

"A woman is not a sea.
A woman is a mountain."

           Masao Yamamoto


31 maio 2013

Sobre o amor

"Amar é dar algo que não temos a alguém que não o quer."

"Entre o homem e a mulher existe amor; entre o homem e o amor existe o mundo; entre o homem e o mundo existe uma parede. É nessa parede que se penduram as fotografias."

Evgen Bavkar, Artist Talk, UCP

Acordei vazio hoje

Acordei vazio hoje.
Não sabia quem era, 
quem tinha sido,
que nome me tinham dado
até este dia. passado.

Já não tenho nome 
- nenhuma voz me nomeia.

Abacate

Braga não tem um único café decente.
Parecem todos montras mostruários 
de uma felicidade nostálgica, indecisa.
Não deixa de ser irónico que ninguém
aqui queira ser visto ou nomeado. 
As pessoas cruzam as praças de olhos
baixos alheias a tudo e são seguidas
por pedintes de vozes inaudíveis. Passos
rápidos entre igrejas e granitos cinzentos.
Afasto-me e procuro um banco sob o sol
incerto deste mês de Maio. 2013. A CGTP
manifesta-se com a sua falta de jeito habitual
- os mesmos rostos de sempre, as mãos
as mesmas de sempre, também, e os slogans,
as palavras de ordem que falam de pão, justiça
e povo, arrastam-se debaixo dos olhares curiosos.
De um lado e outro, quase nenhum rosto jovem
e parece-me cada vez mais que estas vozes
que cantam se treinaram nos campos eclesiásticos
de todas estas igrejas. Nem fotografar consigo.
Não sei a que apontar a câmara e sei que vim
apenas para perder tempo, perseguir um sonho
só meu, rever momentos intransmissíveis. Afinal
a crueldade é um conceito cerebral já que tudo
acontece fora de nós - e o facto de as coisas 
nos acontecerem é apenas um acaso. Somos nós
lá, naquele momento. Senão seriam outros. 
As coisas existem. Não devemos levar nada a sério.
As palavras são palavras são palavras são palavras.
Conceitos vazios. Balões vermelhos sem um fio.
E hoje sou eu a criança estúpida que o veio ver
subir contra o céu e desaparecer nas alturas, 
por entre os dentes de prédios, por entre frágeis
cúpulas das igrejas, por entre os olhares distraídos 
que apenas conseguem focar o chão à frente.

Duas horas de silêncio depois somos sempre outros.
Nem melhores ou piores. Apenas outros.

29 maio 2013

Finalmente iguais sob a mesma desgraça - 2009


Encontramo-nos casualmente na rua quando chovia
E sei que preferias partir comigo a ficar aí,
A mexer nesse pó de gesso e a abrir buracos nos tectos das casas,
Apenas para chegar ao céu e o entubar até às paredes respiratórias.
No desencontro desta hora, são horas de terminar a digestão e o cigarro
E voltar a pegar nas ferramentas: a ti a mais completa poesia da destruição
E a arte de fazer de conta que o trabalho se faz rápido, eficaz;
Para mim, a caneta fraca e cobarde, a câmara clara das minhas memórias
E uma mochila pesada e inútil como uma carapaça mole.
Sabes que podíamos percorrer estas ruas húmidas pelas primeiras chuvas
Como uma mulher que se entrega; sabes que podíamos transfigurar
Este granito, todo este peso imenso nos corpos femininos que nos escapam
Às mãos rudes com que os buscamos; sabes que podíamos fazer
Desta cidade a impossível mulher, puta e santa na perfeita medida do desejo.

Meu irmão, resta fazer as contas ao que nos sobra depois de nos roubarem
O coração produtor e acreditar que dias melhores serão possíveis; que, um dia,
Voltaremos todos a falar a mesma língua e as mãos voltarão à sua pureza inicial,
Longe dos árduos cabos das picaretas e dos maços, do corpo rugoso dos escopros
E das cicatrizes do trabalho. Ainda que penses o contrário, preferia muito mais ter
O meu cabelo sujo com o pó do cimento e do gesso, a t-shirt manchada de tinta
E essas mãos cicatrizadas que agora escrevem noutro papel, noutra hora de trabalho
Nocturna ou que se arrastam cansadas pelos sonhos de uma vida melhor, destruindo
A superfície menos dura dos livros. Acredita que dias melhores serão possíveis,
E que o sol brilhará e o pó das casas não se agarrará a ti e que os teus dedos não serão
Mais feitos de metal. Caso o boletim metereológico erre a sua previsão, haverá chuva
Para nos molhar a ambos, a todos, finalmente iguais sob a mesma desgraça.

21 maio 2013

Ed Ruscha - On the Road

Acrylic on canvas. Overall: 38 5/8 x 72 in. (98.1 x 182.9 cm). Courtesy of the artist and Gagosian Gallery.

19 maio 2013

Tarde demasiado longa de domingo


É domingo, lento e nostálgico vento bucólico.
Sozinho em casa escrevo espreitando a janela
quase aberta que me recorda o mundo e a vida
para viver como um animal perdido, selvagem.

corro de dia para dia sem compreender, cego
completamente para além dos sentidos, 
maelstrom,
babel,
sem encontrar novamente uma mesma língua
para falar, tempos em comum para viver. 

penso nos corpos cruzados, no tempo perdido,
na absoluta insignificância de todas as tentativas
contra o peso do passado, esse cobertor curto 
que nos destapa os pés
e as intenções. 

e por dentro resta-me pensar a negro a incompreensão.
a vida, este momento de débil alegria, memória
recuada de mais um momento esquecido, 
breve chama que se extingue 
sonolenta
na tarde demasiado longa de mais um domingo.