29 outubro 2013

Sísifo

as minhas mãos foram feitas para mexer na terra:
largas espátulas e rudes - frágeis como ramos de osso.
contudo, não é terra o que toco, nem mãos me agarram
enquanto tropeço e caio. os dias passam e este cheiro 
agarra-se a mim: indelével rasto de erros, mosto; peso
nado-morto sobre as costas como um mundo impossível.
tento alcançar uma sombra, a promessa de um ramo,
enquanto as águas sobem, mas a fome fica por saciar,
a sede já queima e o corpo cede sob o peso húmido. 
através de mim sorri a noite, a passagem do tempo
- a ausência de vozes amigas à volta da satisfação
das mesas de longas toalhas brancas e sorrisos -
trepadeiras e árvores sobre os esforços de muros.
estas são as melancólicas memórias de outros 
de que já fui feito e as eternas possibilidades 
de um novo dia: mundo sempre reconstruído
em barro e água, ponto fixo onde pés se afundam,
confundem os passos, caem todas as intenções.

as minhas mãos foram feitas para a terra, mas água
é o que as leva, lava, lavra. estão pequenas com o frio.
peixes comem-me os dedos, o barro prende-me os pés.
      tudo isto pesa como uma mitologia transparente,

de um mundo por cumprir, de um dia por encontrar.

Duane Michals


02 outubro 2013

"Grande plano de Vilela, um homem inteiro, cuja vida já teria sido desligada, uma destas noites, por um qualquer funcionário da EDP, se alguém não tivesse feito uma ligação directa no contador."
daqui

26 setembro 2013

Noites demasiado longas

Dias demasiado curtos 
acumulam-se 
debaixo dos olhos
como o peso de um mundo. 

Revolvemos o chão. 
Andamos. 
Carregamos estes pesos. 

Transformamo-nos. 

Procuramos iluminações. 
Um momento de paz.

Equilíbrio.