26 janeiro 2014
22 janeiro 2014
No horizonte da solidão
não posso exactamente escrever o teu nome no gps e esperar
que esta máquina e os seus satélites me conduzam a ti.
não te vejo há anos, assim parece,
não que tenha contado o tempo que passou:
ele passou apenas, sem darmos conta. entretanto
perdemos as coordenadas; os mapas confundiram
os caminhos; perdemos o lugar, a hora, os sinais.
esta distância é como um arrepio que nos sobe pelos pés,
pernas acima, tremor no sexo, breve memória da outra pele
- que não diz nada, excepto a sua existência frágil.
esperei demasiado. fiz muito pouco, demasiado
ocupado com as promessas de um futuro tardio demais.
o mundo cresceu à nossa volta e caímos cegos num céu
de rocha negra, árvores solitárias cortadas nas raízes
do caminho. dias de sempre, tomados pelo labor
da morte em papéis, números e sangue. pesada ancora
no centro de nós. porto sem viagens. a ausência pesa fundo.
e o que aguardar enquanto se espera amarrado ao medo?
hoje bastam-me as poucas noites que passo acompanhado,
sem promessas nem amanhã certo,
estranho projecto para o amor possível no horizonte da solidão.
30 dezembro 2013
Palavras Cínicas
"O pobre corpo nu corre a roda toda como um copo numa bodega, amarrota-se, enlameia-se. Toca-me a vez: os mesmos abraços que deu à minha noiva, os mesmos beijos que dei à minha mãe dou-os agora a esta. Isto é lógico.
Vender o corpo é melhor do que vender a alma, mas vender a alma e o corpo como seria bom!
Mulheres honradas? Ah! tu crês em mulheres honradas e homens bons? És parvo. Todo o homem atraiçoa e toda a mulher falseia. Todos mentem. Mentira é o céu, o inferno é mentira. É mentira Deus, é mentira o Bem, o Amor e a humanidade.
Em que acredito eu? No crime e no dinheiro. O crime é Deus, o dinheiro é Deus, e de ambos o dinheiro é maior. É por dinheiro que se compram almas, por dinheiro é que as mulheres se vendem. Quantas almas não conterá um saco de dobrões, quantas? A quantos corpos não poderia ele despir?"
Palavras Cínicas, Albino Forjaz de Sampaio
27 dezembro 2013
Em frente aos outros
Foi o passado que nos cortou a cara.
Foi o passado que nos desfigurou.
Foi o passado que nos deu forma
e conteúdo.
Foi o passado que nos conduziu aqui.
É no dia de ontem que vivemos e,
depois de cada dia é a esse dia
que procuramos escapar sem nunca
conseguir esquecer os traços e os gestos,
os sucessos e as desilusões. Falamos
uma estranha linguagem de atrasos
e adiamentos, a língua acaricia fantasmas
e fala de memórias, conta os caminhos
atravessados até chegarmos aqui,
até à pessoa que nunca chegamos a ser.
Erguemos as mãos vazias em frente à cara,
escondemos os olhos e a cara para nunca
sabermos quem poderemos ser em frente
ao espelho… em frente aos outros.
11 dezembro 2013
Um fio de volta ao fim
Somos vasos partidos. cacos de cerâmica
atirados ao chão por mãos cruéis, devassas
crianças jogando ao rompe-e-rasga, pele
e cicatriz, lágrima de sangue e ninguém
chora primeiro. quem somos agora?
tudo está feito e nenhuma surpresa pode vir
do corpo vezes e vezes sem conta violado.
e sempre o mesmo rosto recalcado,
o mesmo nome e as memórias onde se retorna:
a mesma criança perdida, um pálido brilho na noite,
um fugaz sorriso; as agressões do amor e as coisas
perdidas e as pérfidas mortes uterinas do tempo.
ainda nos resta um regresso? um só?
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