Onde nasce o ódio? A fronteira de uma cama
marcando a divisão de duas pessoas
despindo as roupas do dia, cicatrizes e cheiros
misturados, de costas; os olhares para o chão
ou para as paredes que permanecem sempre
silenciosas. Onde nasce o ódio? Os telemóveis
finalmente silenciosos, a guerra aberta dos lençóis
- e os piores conflitos travam-se sempre no escuro,
nas luzes apagadas, nos olhares que se negam,
nos longos e delirantes silêncios de água a correr
debaixo de pontes que nunca se encontram.
Estas portas que explodem fechadas com estrondo,
a pressão de todos os dias, a pressão que falta no duche,
a pressão das coisas por fazer, da canção por cantar
em liberdade. As costas olham-se cuidadosamente.
Há um calor breve que se expande na cama.
Uma mentira que vai durar
até à próxima manhã.
