05 fevereiro 2014

As veias do pescoço

Não é nos outros que podemos esperar o calor,
ou a metade em falta depois do furto. Somos
vazios por dentro, cheios de sangue e de ideias
que vibram a vida na terra dos ossos. E o pó
de todos os caminhos que trazemos dentro
diz que nada muda, nada se perde, nada
se transforma; ciclos imensos de repetições,
procurando, como crianças, preencher os moldes
com as figuras certas, usando palavras cansadas
para encher o verbo e fazer algo com a acção.
Amor é um sinónimo para o desespero que nos
entra dentro da pele e nos rompe a identidade.
E depois deste cinismo de que sofremos
e nos destrói todos os conceitos por dentro,
apenas resta tentar passar uma noite quente,
sem cair no vazio de sempre que espera atrás do sono:
os dentes molhados que nos comem a luz dos olhos,
mãos crispadas dentro dos lençóis, a solidão do dia
que espera no escuro o momento certo para acabar
de morder as veias do pescoço.

30 janeiro 2014

Até à próxima manhã

Onde nasce o ódio? A fronteira de uma cama
marcando a divisão de duas pessoas
despindo as roupas do dia, cicatrizes e cheiros
misturados, de costas; os olhares para o chão
ou para as paredes que permanecem sempre
silenciosas. Onde nasce o ódio? Os telemóveis
finalmente silenciosos, a guerra aberta dos lençóis
- e os piores conflitos travam-se sempre no escuro,
nas luzes apagadas, nos olhares que se negam, 
nos longos e delirantes silêncios de água a correr
debaixo de pontes que nunca se encontram. 
Estas portas que explodem fechadas com estrondo, 
a pressão de todos os dias, a pressão que falta no duche,
a pressão das coisas por fazer, da canção por cantar 
em liberdade. As costas olham-se cuidadosamente. 
Há um calor breve que se expande na cama. 
Uma mentira que vai durar
até à próxima manhã.

26 janeiro 2014

http://childbirth.bandcamp.com/

22 janeiro 2014

No horizonte da solidão

não posso exactamente escrever o teu nome no gps e esperar 
que esta máquina e os seus satélites me conduzam a ti. 
não te vejo há anos, assim parece, 
não que tenha contado o tempo que passou: 
ele passou apenas, sem darmos conta. entretanto
perdemos as coordenadas; os mapas confundiram
os caminhos; perdemos o lugar, a hora, os sinais.
esta distância é como um arrepio que nos sobe pelos pés, 
pernas acima, tremor no sexo, breve memória da outra pele
- que não diz nada, excepto a sua existência frágil.
esperei demasiado. fiz muito pouco, demasiado
ocupado com as promessas de um futuro tardio demais. 
o mundo cresceu à nossa volta e caímos cegos num céu
de rocha negra, árvores solitárias cortadas nas raízes
do caminho. dias de sempre, tomados pelo labor
da morte em papéis, números e sangue. pesada ancora 
no centro de nós. porto sem viagens. a ausência pesa fundo.
e o que aguardar enquanto se espera amarrado ao medo?
hoje bastam-me as poucas noites que passo acompanhado
sem promessas nem amanhã certo, 
estranho projecto para o amor possível no horizonte da solidão.

30 dezembro 2013

Palavras Cínicas

      "O pobre corpo nu corre a roda toda como um copo numa bodega, amarrota-se, enlameia-se. Toca-me a vez: os mesmos abraços que deu à minha noiva, os mesmos beijos que dei à minha mãe dou-os agora a esta. Isto é lógico. 
       Vender o corpo é melhor do que vender a alma, mas vender a alma e o corpo como seria bom!
    Mulheres honradas? Ah! tu crês em mulheres honradas e homens bons? És parvo. Todo o homem atraiçoa e toda a mulher falseia. Todos mentem. Mentira é o céu, o inferno é mentira. É mentira Deus, é mentira o Bem, o Amor e a humanidade.
      Em que acredito eu? No crime e no dinheiro. O crime é Deus, o dinheiro é Deus, e de ambos o dinheiro é maior. É por dinheiro que se compram almas, por dinheiro é que as mulheres se vendem.           Quantas almas não conterá um saco de dobrões, quantas? A quantos corpos não poderia ele despir?"

Palavras Cínicas, Albino Forjaz de Sampaio

27 dezembro 2013

Em frente aos outros

Foi o passado que nos cortou a cara.
Foi o passado que nos desfigurou.
Foi o passado que nos deu forma 
         e conteúdo.
Foi o passado que nos conduziu aqui.
É no dia de ontem que vivemos e,
depois de cada dia é a esse dia 
que procuramos escapar sem nunca
conseguir esquecer os traços e os gestos,
os sucessos e as desilusões. Falamos 
uma estranha linguagem de atrasos 
e adiamentos, a língua acaricia fantasmas
e fala de memórias, conta os caminhos 
atravessados até chegarmos aqui,
até à pessoa que nunca chegamos a ser.
Erguemos as mãos vazias em frente à cara,
escondemos os olhos e a cara para nunca 
sabermos quem poderemos ser em frente 
ao espelho… em frente aos outros.