16 maio 2014

Último silêncio

apaguei todas as provas de que alguma vez exististe 
na minha vida. não estás presente agora. és memória
em mim - corpo externo do delito da existência e dos 
planos feitos individualmente e de uma vida esquecida
entre os lençóis dos sonhos. ainda consigo ver o teu 
rosto perfeito sorrindo perfeitamente na paisagem
que se afunda. rosto, corpo, voz - és a única que consigo
lembrar completamente na voragem destas ondas.

debaixo deste calor só há espaço para o futuro.
debaixo destas horas só há tempo para o impossível
         esquecer.
debaixo desta pele só há espaço para o último silêncio

         do adeus.

10 abril 2014

A análise dos pixeis

Não há poesia no corpo nu da Irina Shayk. 
Ele não fala. As revistas, os monitores, as fotos
permanecem em silêncio perante o nosso olhar
solitário e amoroso - crianças que descobrem 
um amor feito corpo, feito ilusão, feito miragem.
Acredito que mesmo a carne dela não fala quando
o toque cai de dedos outros para a pele dela. Silêncio
e vazio cósmico. Superfície plana do desejo, espelho
que se deixa beijar. Contudo, ainda menos do que isto
dirá a sua boca longínqua e de sorriso gravado
e fechado - segredo de um segredo intransmissível.

O perfil, longe de uma identidade ou de um traço 
de vida é uma forma de compreensão, entendimento.
Perfis paletas de fantasia construída, interpretações
de ecos - palavras e carne do cérebro significador.
Ela não é mais que luz fria, matéria inerte. 
Constelação de átomos.
Contudo, não há poesia nesta nudez, resto de pedaços
de bocados de madeira, papel simples coberto de tinta 
em manchas gráficas construtoras;
estátua de sal que olha a nossa solidão de longe, 
expressão nua do vazio de onde emergimos rochas
molhadas na luz da manhã. Uma perfeição demasiado
perfeita magoa os olhos. Mas nenhuma água
nos devolve uma pureza que nunca possuímos.
Só noites passadas em claro procurando o amor
ou algo que encha o nosso medo do escuro ou 
dos olhos fechados com que tentamos ver.

As palavras são débeis para provar o que se faz
e mesmo as acções não têm valor neste mercado.
Mas disso ela não sabe, nem tu. Ela tem o seu reflexo,
tu os teus esquecimentos, ócios, falhas, tempo perdido,
as tarefas do dia que te roubam o pouco tempo que tens
para habitar o teu espaço no mundo. Por isso olhas 
as bancas das revistas procurando um sonho, poesia
para o teu sonho molhado: um pedaço de sonho 
que se pode moldar com as mãos e arruinar.

03 março 2014

Amanhã será sempre pior

Respira. Expira. Esvazia-te um pouco.
Mais. Expira. Longas esperas. Expira.
Já ninguém recorda quem eras debaixo
dessa pele de lagarto. Expira. Espera.
Um pouco. Mais. Fala agora. Tenta
redescobrir a tua voz debaixo de tudo
o que dizes e do que foi dito. Não
interessa. Nunca foste uma voz
ou um corpo completo. Expira.
Estás sozinho. Dentro de ti.
Só. A mente. Só. Falas palavras
esquecidas. Tens gestos vagos.
Expira. O teu valor mede-se.
Cêntimos de ti. Expira. Mantém
a ilusão acesa. Estás vivo. Respiras.
Expira. Tens o sangue frio. Expira.
Nada a dizer. Um corpo desconhecido
a que fazer frente. O que queres está ali,
impossível de alcançar. Cair no coma
completo do sono. Confusão. Expira.
Quem és destrói-te por dentro. Nada.
Arritmia circular. Expira. Ainda tens
umas horas mais. Expira. Amanhã
será
sempre
pior.

05 fevereiro 2014

As veias do pescoço

Não é nos outros que podemos esperar o calor,
ou a metade em falta depois do furto. Somos
vazios por dentro, cheios de sangue e de ideias
que vibram a vida na terra dos ossos. E o pó
de todos os caminhos que trazemos dentro
diz que nada muda, nada se perde, nada
se transforma; ciclos imensos de repetições,
procurando, como crianças, preencher os moldes
com as figuras certas, usando palavras cansadas
para encher o verbo e fazer algo com a acção.
Amor é um sinónimo para o desespero que nos
entra dentro da pele e nos rompe a identidade.
E depois deste cinismo de que sofremos
e nos destrói todos os conceitos por dentro,
apenas resta tentar passar uma noite quente,
sem cair no vazio de sempre que espera atrás do sono:
os dentes molhados que nos comem a luz dos olhos,
mãos crispadas dentro dos lençóis, a solidão do dia
que espera no escuro o momento certo para acabar
de morder as veias do pescoço.

30 janeiro 2014

Até à próxima manhã

Onde nasce o ódio? A fronteira de uma cama
marcando a divisão de duas pessoas
despindo as roupas do dia, cicatrizes e cheiros
misturados, de costas; os olhares para o chão
ou para as paredes que permanecem sempre
silenciosas. Onde nasce o ódio? Os telemóveis
finalmente silenciosos, a guerra aberta dos lençóis
- e os piores conflitos travam-se sempre no escuro,
nas luzes apagadas, nos olhares que se negam, 
nos longos e delirantes silêncios de água a correr
debaixo de pontes que nunca se encontram. 
Estas portas que explodem fechadas com estrondo, 
a pressão de todos os dias, a pressão que falta no duche,
a pressão das coisas por fazer, da canção por cantar 
em liberdade. As costas olham-se cuidadosamente. 
Há um calor breve que se expande na cama. 
Uma mentira que vai durar
até à próxima manhã.

26 janeiro 2014

http://childbirth.bandcamp.com/