07 julho 2014

Imensas possibilidades

É neste momento em que todas as circunstâncias 
históricas e ideológicas se precipitam sobre ti,
como que um regresso, lentamente, a quem se sabe
ser, vindo de um lugar familiar, mas sempre desconhecido,
que sabes quem não és nem consegues ser. Silêncio agora.
Tudo acontece. Pára um pouco. Preciso de tocar este reflexo 
para saber se existo… que existo assim, mas do outro lado.
De madrugada, eterno não-lugar de silêncio, mundo
em âmbar - estou aqui, fora de ti e de mim, falando 
um espelho sem saber quem sou, excepto este sentimento
ondulante sobre esta superfície gelada que eu sou em mim.
Alguém me fale, por favor, que este rosto aqui à minha frente
não me diz nada e a sala está vazia, mais ninguém que não eu.
Só, o sopro das paredes, os mecânicos tornos da claustrofobia, 
pedaços fechados de quem sou feito casa, feito coisa,
e mais um pouco que não sei dizer o quê... Fica-me mal 
esta fraqueza de não ter palavras para dizer, mas continuar
falando para não me esquecer nunca do que pensei ou tentei
esquecer. Comunicar. Tentar dizer como sou por dentro
esperando encontrar menos que um eco. Continua a não haver
ninguém a quem ligar às quatro da manhã. Ninguém na noite
de domingo. Nenhum rosto adormecido no sofá à espera de ser
despertado. Apenas esta cara diante de mim. Sem sorrir. 
Nenhuma mão disposta a despertar do sono como uma serpente
de muitas cabeças e a agarrar o telefone que tocapara dizer vem. 
sei no fundo de mim quem és. sei que palavras te dizer, mas hoje,
só hoje, vamos reencontrar a eloquência do silêncio a dois.
Sobre o mundo, contudo, sucedem-se as cicatrizes das notícias:
as circunstâncias históricas e ideológicas que te ensinaram;
o acaso lancinante da existência de todos, de todos em existência;
o desconhecimento pleno de quem se é aqui, do que esperam...
Das imensas possibilidades de quem não tem nada para oferecer.

James Brown. Live At Montreux . 1981 .

01 julho 2014

Na dúvida se existo

Passemos agora ao exercício da noite:
o poema escrito sobre o silêncio do mundo, 
mãos frias atacando o teclado e lá fora a chuva.
Mais uma vez. Como sempre, afinal. Pensa-se 
em música, mas já não tem nome nem corpo a mulher 
que cruza as ruas e anda sobre a água. Imagem indistinta. 
Cliché. 
Todos os possíveis rostos flutuam, misturados, 
sob a água, 
sem respirar. Não se ouve música. Apenas silêncio. 
Um vento que ganha velocidade à superfície e que entra 
pelas frinchas das frágeis paredes da casa de papel.
O que fazer agora para não me sentir incompleto, 
uma farsa sempre que respiro mais profundamente
e me sinto vivo e em dúvida sobre quem poderia ser?

Dizem que amanhã, aparentemente, vou reencontrar-me 
com a rotina do mundo. O espaço em branco onde me movo. 
A realidade é o silêncio e nenhuma presença que me mostre 
quem sou na mudança das marés. E cada dia novo é apenas
mais estranho que o outro passado. A verdade é que já é tarde 
para dizer quanto valemos, se é que alguma vez valemos um cêntimo.
Já nenhum de nós sabe quem é, o que é. Quanto se vale, ordenado,
quando o que pensas e suas não vale um grama de pó, 
uma mão-cheia de terra para tapar os olhos?

A verdade é que ando a trocar o corpo por umas horas mais 
de completa infelicidade enquanto procuro descobrir
quem sou ainda. Mas fico sempre sem saber o que resta de mim
depois da matemática da perda. Não tenho espelhos em casa.
E tu, à minha frente, guardaste sempre o rosto enquanto roubava
tempo a este tédio de trabalho escrevendo estas palavras entediantes.
Igualmente sombrias. Sombrias como nós quando nenhuma luz chega.
Nesta sombra não consigo deixar de pensar no que poderia pensar 
se fosse outra pessoa, se quem sou fosse outra pessoa ainda por conhecer.
E permaneço na dúvida se existo.

19 junho 2014

estou tão cansado!

20 maio 2014

Poema para um filho morto

Apesar de nunca nos termos visto, 
disseram-me que fui teu pai.
Não tivemos tempo para conversar,
para aprender um com o outro o que 
significa crescer. Não conheceste o cheiro
dos dias de Verão, o perfume da água,
a frescura salvadora dos pinheiros. 
Não saberias sequer compreender 
estas palavras que escrevo para ti 
- ou apenas para acalmar a minha
consciência da tua ausência irreprimível.
Deverias ter nascido em Outubro, dia
desconhecido, abstração de tempo
- espaço desconhecido que te receberia como?
Deverias ter nascido apenas. Conhecido o sol. 
A tua mãe, a única que soube o teu calor,
apertava a barriga como que para te proteger. 
Falava como quem chora uma sentença dada.
Foste breve, mas apesar de tudo foste amado, 
forma breve e incompleta no mundo imperfeito.
Tivesse eu sido outro homem desde sempre
e ter-te-ia abraçado para te ensinar
todo o amor que não consigo compreender
e que perdi ao longo do caminho. Só vejo
quem posso ser. Já não me reconheço 
no espelho nem sei de ninguém à minha volta.
Não tenho espaço para as pessoas reais e 
as representações que delas faço são planas 
e silenciosas como espelhos sem luz.
Só vi a dor de que eras feito. O sangue
e as lágrimas que foram teu único corpo. 
No mundo que te será sempre estranho 
escutam-se os tambores da guerra como
um coração que bate no exterior da caverna.

Agora só me falta conhecer o nome imperfeito

       para tudo isto.

16 maio 2014

Último silêncio

apaguei todas as provas de que alguma vez exististe 
na minha vida. não estás presente agora. és memória
em mim - corpo externo do delito da existência e dos 
planos feitos individualmente e de uma vida esquecida
entre os lençóis dos sonhos. ainda consigo ver o teu 
rosto perfeito sorrindo perfeitamente na paisagem
que se afunda. rosto, corpo, voz - és a única que consigo
lembrar completamente na voragem destas ondas.

debaixo deste calor só há espaço para o futuro.
debaixo destas horas só há tempo para o impossível
         esquecer.
debaixo desta pele só há espaço para o último silêncio

         do adeus.

10 abril 2014

A análise dos pixeis

Não há poesia no corpo nu da Irina Shayk. 
Ele não fala. As revistas, os monitores, as fotos
permanecem em silêncio perante o nosso olhar
solitário e amoroso - crianças que descobrem 
um amor feito corpo, feito ilusão, feito miragem.
Acredito que mesmo a carne dela não fala quando
o toque cai de dedos outros para a pele dela. Silêncio
e vazio cósmico. Superfície plana do desejo, espelho
que se deixa beijar. Contudo, ainda menos do que isto
dirá a sua boca longínqua e de sorriso gravado
e fechado - segredo de um segredo intransmissível.

O perfil, longe de uma identidade ou de um traço 
de vida é uma forma de compreensão, entendimento.
Perfis paletas de fantasia construída, interpretações
de ecos - palavras e carne do cérebro significador.
Ela não é mais que luz fria, matéria inerte. 
Constelação de átomos.
Contudo, não há poesia nesta nudez, resto de pedaços
de bocados de madeira, papel simples coberto de tinta 
em manchas gráficas construtoras;
estátua de sal que olha a nossa solidão de longe, 
expressão nua do vazio de onde emergimos rochas
molhadas na luz da manhã. Uma perfeição demasiado
perfeita magoa os olhos. Mas nenhuma água
nos devolve uma pureza que nunca possuímos.
Só noites passadas em claro procurando o amor
ou algo que encha o nosso medo do escuro ou 
dos olhos fechados com que tentamos ver.

As palavras são débeis para provar o que se faz
e mesmo as acções não têm valor neste mercado.
Mas disso ela não sabe, nem tu. Ela tem o seu reflexo,
tu os teus esquecimentos, ócios, falhas, tempo perdido,
as tarefas do dia que te roubam o pouco tempo que tens
para habitar o teu espaço no mundo. Por isso olhas 
as bancas das revistas procurando um sonho, poesia
para o teu sonho molhado: um pedaço de sonho 
que se pode moldar com as mãos e arruinar.