O meu nome fui eu quem o escreveu sobre a pele
para não esquecer quem sou para os outros.
Encho-me de sinais silenciosos que ninguém sabe e
tenho uma vida vazia e como lembrar tudo agora?
As mãos lavadas pelo tempo, pela água dos olhos,
e nenhuma boca me recorda com a forma do medo…
O passado morto. Eu morto. Há muito fechado
ou caído sobre eu mesmo como uma ruína.
Ninguém que me veja a dormir e pense que eu preciso
que afastem a noite de cima de mim. Quando durmo
é um ensaio da morte. Já tenho medo de fechar os olhos.
Nem sei se eles ainda me pertencem ou apenas olham.
Não é neles que as palavras se complicam. A minha boca
também ninguém vê ou alguma vez eu peguei numa caneta
para escrever. Não há sombras nestas letras. Falta-lhes corpo.
O meu.
Vou contar o fim desta noite, o recomeço sempre do poema:
Estou a chegar a casa e não reconheço nada do caminho.
Onde estou? Vim de dentro da cidade, sozinho e cansado
de voltar sempre a casa, sempre a mesma casa, sempre a casa
vazia que me espera fria, portas fechadas, silêncio de mim.
Distraí-me entre o fumo e as vozes e a música e bebi e fumei.
Ninguém me vê. Em silêncio no redemoinho da festa. Sair,
ruas cheias de rostos que não me dizem nada, vozes sem fim
a preencher o meu silêncio. E eu não consigo dizer que sou;
o que fui e que agora está tão longe de mim como um sonho.
Sou uma criança outra vez e o meu rosto perde-se no escuro
e no fumo e no fundo dos copos. Sem substância ou voz.
Beleza e fogo perdidos, desperdiçados na passagem das horas.
Ninguém a quem os dar ou entregar em paz. A noite regressa.
Só eu vejo as minhas rugas a crescer, a cavarem-se no rosto
que também não me dá respostas. O espelho está vazio.
Envelheço com palavras, mas sem a história. Sou esquecido
a cada dia que passa. Ainda estou no bar, recordo-me, e lembro
os mortos e as suas vozes. Os olhos que suplicam um segundo
mais;
as mãos já sem peso que não os conseguem prender aqui.
O horizonte é uma navalha. É lá que o tempo se divide,
é lá que nos separamos das esperanças e entregamos moedas
em troca da vida e da paz que trazíamos dentro.
Anos e anos de espera, de esperança que haja luz noutros olhos
porque os meus estão mortos - não sei quem vê o quê com eles.
Mas a vida já não cresce nas paredes e os meus dias passo-os só.
Agora estou num quarto e é de manhã. Sempre a mesma sequência
dramática de mais um dia fechado. Já alguém acabou de apagar
as velas da noite, os autocarros recomeçam a sua carreira de insectos
e vozes despertam, crianças gritam na rua a caminho da escola.
Ninguém consegue espreitar por detrás destas paredes.
Ainda ninguém sabe quem eu sou.