14 junho 2011

Aljustrel

deitado finalmente, olhos fechados,
imaginação à solta nas aranhas 
saídas das sombras da noite para 
se alimentarem de nós. é assim 
que durmo hoje. alentejo de novo.
desta vez sem família nem amor,
só com amigos, músicos, música e calor.
viagem confortável e rápida, sem gastar
um cêntimo, excepto nos roubos que
são as paragens de serviço onde 
empregados deprimidos nos servem 
o nosso próprio sangue em cafés aguados
e chávenas de limpeza duvidosa. depois
paisagem rotativa e fantasmas de outras vidas
nos carros que passam, vislumbres
de um rosto mais que familiar e perdido,
liquefeito pela velocidade e impossível
de alguma vez voltar. sol pelos vidros, 
queimados os braços pela sonolência
dos membros e a incerteza do espaço;
não-lugar, momento passageiro na confusão
entre tempo e espaço, entre o espaço de estar
e o tempo de ser algo mais do que aquilo
que nos permitem. rolamos na vertigem e,
hoje,
temos um destino definido pelas obrigações,
vila mineira morta, montes vazios por dentro,
arqueologia de mãos rudes que medem as forças
da terra e dos animais. animamos a viagem 
com as conversas possíveis, mas sabemos todos
que entre os sorrisos e os olhares nos espreita
o silêncio e a responsabilidade pesa, imenso, 
sobre tudo o que temos para fazer. ainda assim
é sempre esta mesma loucura quando deixo 
a mente rolar livre nas faixas do pensamento. 
não sei se te procuro ou te encontro ou se me perco
nas possibilidades esquecidas, nos fragmentos
do que ainda sei sobre quem és e o que fazes;
sei que isso pouco importa: a vida avançou 
como esta estrada e agora somos outros
- perseguir-te é o mesmo que tentar agarrar 
um fantasma ou fixar a imaginação. as viagens 
agora são outras, outros os companheiros 
e imensos os espaços. não te encontrarei 
em aljustrel, não sei quem és para te agarrar 
pelo braço e dizer olá! por aqui? a verdade é que
vamos todos a caminho de lugares diferentes 
e agora temos idade para saber que o importante
mesmo é chegar onde se quer, como se quer.
tudo o resto são circunstâncias organizáveis,
arrastadas pela circulação do ar dentro do veículo.

07 junho 2011

"For to go as a passenger you must needs have a purse, and a purse is but a rag unless you have something in it."

Melville, Herman "Moby Dick"

04 junho 2011

Mármore

Não sei o que é ser pobre, daqueles
que têm apenas quatro canais 
de sobrevivência: a minha tv está ali,
desligada; é fraco alimento para mim
e as minhas insónias. Sei, contudo, 
o que é ser pobre, daqueles, de espírito
e bolso completo; daqueles que estão
horas a debitar histórias em que são 
o motivo, participante e protagonista 
como se todo o mundo fosse pequeno 
e contido no seu umbigo. Compreendo
o porquê, lamento as razões, tento rir-me
de tudo e ler um livro. Compreender as 
cínicas razões pelas quais não consigo 
dormir, nem sentir algo mais que isto, frio.

03 junho 2011

Formas

entretenho-me rearranjando as grelhas do real,
reconsidero conceitos, significados, significações
repassando pela beleza do nada e a sua perfeita
inutilidade. temos tudo, não há como fugir 
a infelicidade de não saber o que desejar,
ou desejar tudo o que não se pode ter
sendo um perfeito desconhecido para quem se é.
não, já não sei… escrever, falar, comunicar
ao sentido sentimento das coisas-pessoas,
coisas, pessoas que se entrecortam e confundem,
aos pedações dentro de mim, no sólido que sou.
passo os dias em silêncio, batendo teclas
tentando aproximar-me da realidade 
desconhecida. o outro permanece sempre: ilusão,
esfinge,
desafio simples, parte desconhecida de mim,
comboio inalcançável de sensações, de toque
e sentido e realidade quente e carnal.
são poucos os dias em que me vejo, desci
os espelhos das paredes, revejo-me nas pessoas
que conheço e na fotografia, no domínio amador da luz
e não sei ainda quem sou, quem quero ser, 
como devo ser para toda a gente me amar.
afinal de contas, preciso de atenção, de ser a vibração
que te excita o que resta do teu corpo mastigado
352 vezes, cuspido e mutilado outras tantas.
um dia as coisas foram diferentes, nem melhores
nem piores, diferentes apenas. as palavras 
tinham textura, um corpo, um significado óbvio
atrás da tinta e as fotografias não eram apenas
frequências tornadas reais no papel, bisturi 
da insensatez da realidade. não compreendia
nada com aquela capacidade de explicar 
o que tudo é, mas intuía a relação óbvia,
a unidade entre "eu" e mundo. ainda comia 
maõs-cheias de terra e brincava com os vermes
- antes de os substituir pelo sexo - e era impossível
que algo como o mundo pegasse fogo. 
agora não.