28 dezembro 2011

Quantas vezes mais, ainda


não sei porque ainda insisto em te telefonar.
isso claramente não resolve os meus problemas
e há muito que ultrapassamos as palavras, todas,
que poderíamos dizer um ao outro. falamos, sim,
para fazer crescer a minha irritação e o descrédito
que tenho por ti e por todas as que me tentam encher
os ouvidos com palavras bonitas e nenhuma acção,
nenhum alicerce sobre o que constroem. estou farto
das vossas caras múltiplas, sempre a mesma, sempre
o mesmo sorriso frio e postiço, sempre o mesmo silêncio 
comprometido com a própria felicidade, com a rotina
calma de quem tem horas e projectos e uma vida
vazia, oca como as intenções possíveis de ter toda a vida. 
trocar e-mails é também uma ponte de silêncio. o dedo
fácil sobre o delete, a seta irónica sobre a cruz 
do esqueci-me, sinal lacónico do egoísmo. se ainda
conseguisses falar uma única verdade, o que irias dizer?
mais promessas ocas? mais palavras simpáticas? 
escrever-te também não resolveu nada, nunca - e diria 
que nunca o fiz bem, os olhos ficavam turvos, olhava-te,
mas não te via como eras, mas sim como te fazia,
uma ilusão de areia, uma miragem colada com saliva,
tudo o que não eras e eu queria que fosses para acreditar,
ainda, mais um pouco só, que o que trago dentro 
da minha cabeça é real, que não passei todos estes anos
a criar coisas inúteis, a imaginar pessoas impossíveis,
que estou menos só do que aparento e que sim, consigo
estar plenamente com alguém! mas não, nada disto:
não nasci para o deleite e a felicidade escapa-me
por entre os dedos da consciência que me martela
que devia fazer mais; devia fazer melhor; devia ser outro,
melhor, mais forte, mais corajoso, mais intocado;
que toda a minha vida devia ter sido outro, mas quem?
que devia falar mais e melhor com todos; que devia 
fechar os olhos e abrir os braços, confiar, deixar 
a morte nas mãos de outra mais uma vez 
(quantas vezes mais, ainda, que estou farto desta merda?)
- conselhos tão vazios que apenas me fazem forçar
o meu desaparecimento: estar aqui para quê, já agora?
assim sendo, não me falem, esqueçam-me. não quero
mais ver as vossas caras, os vossos olhos falsos 
de quem mede o obstáculo a esmagar. não respondam
que eu também não tentarei comunicar. não compreendam
porque eu também não me vou explicar. não percam
tempo, mais algum, comigo porque já não ocupo 
este espaço. parti, fugi - e só quero esquecer o que deixo.
e, para terminar, puta que vos pariu mais o vosso amor.

20 dezembro 2011

Não


todas as mulheres que toquei acabaram por encontrar 
a felicidade plena nos braços de outros homens. sempre, 
todas elas, passado pouco tempo do nosso fim. umas com sexo,
outras com mais uma visão da coisa chamada amor 
(que nunca é exactamente o mesmo que me deram e prometeram, 
mas outra, mais mágica e plena que acaba por terminar árida 
em qualquer deserto). outras ainda com famílias ou projectos 
como castelos de cartas. normalmente, escolhem-no fazer longe
de mim, longe das memórias. outras há que se agarram e morrem
à minha volta, felizes ou infelizes, não importa - estamos todos a seguir
a vida conhecida. estamos todos entregues a esta lenta dança atómica: 
eu, nós, todos. nada seria anormal, não fossem estes rostos que revejo 
nas minhas memórias, as lágrimas que uma vez choraram e me fecharam 
em mim, incapaz de segurar na mão que pede mais cinco dedos para lhe dar
sentido, incapaz de compreender a razão das emoções. sou um rochedo
de indiferença aparente sem palavras excepto estas, poucas e inglórias. 
fui insignificante entre todos os homens que atravessaram a vida plena
de todas as mulheres que conheci (e nem uma única era virgem, corpo e mente)
e de algumas que me conheceram. fui uma pausa simples numa viagem
mais longa, com outras paragens, paisagens, possibilidades. 
não, foi insuficiente o que dei. não, elas não queriam ficar. 
não, nunca foi assim tão espectacular. não, nunca ficaram ao meu lado
quando precisei mesmo, quando agarrava sozinho o escuro ar da noite;
quando os olhos abertos contavam as horas; quando o mundo
subitamente perdeu sul e o norte e se dividiu de alto a baixo: de um lado eu, 
do outro lado todos os outros, os incompreensíveis,
sempre com os seus cansaços e queixas e pequenos defeitos
alterados pelos objectivos das palavras e eu, com a minha vontade 
enorme de me transformar em pó à sua frente, de desaparecer 
da sua frente para sempre, a sentir a vergonha que sentiam de mim, sempre. 
sempre com uma hora certa para ir dormir e eu insone; sempre uma alegria
distante da minha; sempre com uma vontade distante da minha; sempre
mais ou menos deprimidos do que eu, a querer falar noutros locais mais alegres
e confortáveis do que os que eu conheço - sempre mais alegres, 
locais a regressar quando eu lá não estou. foram estas relações a dois: 
uma onda de palavras vazias durante anos, balões frios de bonecos
satíricos, durante anos a viver com inimigos diferentes entre camas, 
entre gestos, entre punhais preparados, entre palavras afiadas como facas
e noites de planos perfeitos que nunca, mas nunca se vão concretizar.

18 dezembro 2011

Onde estavas


onde estavas tu quando a torre cinco do aleixo 
veio abaixo, observada do rio pela oligarquia?
onde estavas quando se montou o circo habitual:
a condensação da informação em locais seguros 
e calmos, chuva dissolvente entre o cimento descampado?
onde estavas quando os media desligaram as câmaras
e foram embora sem visitar o interior do bairro, sem ver
as pessoas entregues à raiva, ao controlo plácido
dos polícias mais preocupados em manter uma calma
podre do que em fazer algo? onde estavam quando, 
depois do facto consumado, os deixaram ser 
quem se pensam que eles são, em que os deixaram 
exprimir as frustrações com a violência vã contra grades
e pedras
voadoras 
nas mãos calejadas e inocentes de crianças perdidas,
de pés e sapatilhas nike da feira enlameadas, pontapeando
redes e saltando muros baixos num frenesim incompreensível
e inútil. pressente-se como tudo vai terminar depois dos gritos
e dos choros e das queixas e das entrevistas devidamente 
editadas para rádios e das corridas para as casas para ver 
o que ficou estragado para juntar a uma já longa lista de queixas,
para lavar o gás pimenta dos olhos. é a hora de correr 
para dentro de portas por portas que já foram arrancadas 
há muito; é a hora de correr para dentro dos cheiros e do ar
fétido. é hora de subir as escadas, muitas, ou andar em elevadores
frágeis, demasiado. é hora de olhar pelas janelas as ruínas,
a paisagem indiferente ao longe, agora distante das outras caras
marcadas pelos passos da vida, pelos pontapés das coisas
a que chamam destino. é a hora de se entregar aos seus 
pensamentos e incertezas - e consideram o que é viver ali, 
entre a droga e o lixo e os malucos e os ressacas
e os problemas dos outros e ainda
entre mais gente normal e confusa e sem lugar no estabelecimento
das coisas ordinárias e mundanas, que sofrem cortes e deslocamentos
e evacuamentos e edições falaciosas e ainda assim continuam
a existir depois disso - enquanto a paisagem indiferente os olha
e se considera o preço dos terrenos e o novo aleixo que vai 
brotar magicamente do interior da barriga daquela terra,
mais um bairro para gente de luxo porque os outros podem ser 
empurrados para longe, somados a outros problemas noutros 
locais menos viáveis para o futuro económico da cidade.
onde estavam todos  quando o pó se espalhou pela cidade 
para se juntar ao pó, visto de ar, terra e água e registado 
como facto para sempre? onde estavam quando, queimada
a raiva toda, se começou a reencontrar a rotina das coisas,
o lugar-comum do bairro, as mesmas corridas e coisas
e outras pessoas esperando a chegada dos filhos ao infantário
com os vidros partidos pelas explosões, lamentando as coisas 
que aconteceram esta manhã, rindo-se das paredes 
cor-de-rosa do apartamento de r. no 11º piso, vistas agora nuas
contra a chuva a uns meros 3 metros do chão, finalmente
no topo de algo, quanto mais num seja um monte de ruínas.

08 dezembro 2011

A moral dos poetas


perguntas-me várias vezes o que vejo em ti.
agora respondo: um corpo do desejo, feições 
do prazer, companhia na solidão que tu também
conheces. ignoras-me à anos; enganamo-nos 
ambos em corpos outros noutros desejos,
continuamos, irresistivelmente, presos pela anca.
e o medo, essa outra circunstância, move-nos
em direcção à religião, à moral, à alma eterna
que será julgada hoje e sempre, ámen.
não acredito na alma. não acredito na morte.
são ambas consequências de existir. de ser
no corpo que se tem. não se podem culpar 
os dados jogados pelo acaso do jogo. a alma, 
nome cristão da voz da nossa pele, da abstracção 
que existe em nós; a morte, dispersão enérgica
da energia, das memórias, dos átomos. acredito
sim, muito, no corpo e na razão. de ser e estar 
plenamente onde se está, para onde vai aquilo 
que nos leva a viver. ser completo dura 1/300 
de um segundo ou uma vida inteira e aquilo 
a que os homens chamam de amor não é mais 
do que desejar, desejar tudo o que se pode ter 
- para si. na verdade, há mais verdade no prazer 
e no vinho do que nas palavras manietadas 
pela moral perversa de todos os poetas.

Incapaz


Olho para mim sobre a minha própria mão
enquanto me olho olhando o que vejo. vejo
mal entre a penumbra dos meus olhos. não 
escuto nada. não sei onde estou. há uma luz
pontual sobre mim, isolando-me do negro. 
não consigo dormir e estou de pé, sozinho,
numa sala (?) sem portas ou janelas, 
sem paredes. ouço a minha respiração 
agora. o tempo deixou de existir. 
não sei quem sou. 
estou aqui. agora dentro de água. o mesmo
silêncio, ecos distantes do mundo, flutuo.
enrolo-me sobre mim mesmo para dormir 
e tudo fica vermelho e abro os olhos e abro
os olhos e a realidade não se materializa. 
vazio. deserto. tudo em nada em meu redor.
lentamente, formas. despertam os pânicos.
ninguém à minha volta, mãos gigantes e unhas
que descem sobre mim, que me cortam o ventre
enquanto me agarram e me fazem subir, fora 
de mim, longe de quem sou. e de novo outro
local, agora coberto de insectos, os olhos
a serem comidos e a pele destruída lentamente
por milhares de dentes. nos últimos momentos,
sou outro, novamente no vazio, afundando-me
sozinho em tudo o que desconheço, sem futuro
e com um passado fechado em mim, incapaz.

30 novembro 2011


"assim como o som se dilui no silêncio, a euforia dilui-se na indiferença, e é sempre uma surpresa que os grandes sentimentos possam assim definhar, desaparecer com o tempo".

Susan Sontag, O Amante do Vulcão

24 novembro 2011

O quarto


já vi lá morrer duas gerações inteiras. a primeira
aos seis anos, o meu pai a sair do quarto amarelo
e mal iluminado de lágrimas nos olhos, cheiro mau
a coisas feias que nos saem do corpo e enchem
o ar de toda a casa. compreendi a alteração das rotinas,
o desaparecimento daquela pessoa a quem fazia 
carrancas e dizia palavras feias sem significado 
na minha pequena boca. acho que me disseram algo
o teu avô morreu e a morte é como uma viagem. 
não precisas de ter medo porque as pessoas de quem 
gostas estão sempre perto de nós. algo assim, pelo menos.
a segunda, lenta a entrar na morte, perdida no tempo 
e no espaço, na leitura das pessoas, com um único amor 
pelos animais de quem não temia nem os dentes.
perguntava-me muitas vezes quando eu chegava cego
a casa: como estava a micas dona? e dizia-me também,
muitas vezes, chorando, que não tinha bilhete, mas tinha de ir 
para casa, para outro lado qualquer que só ela via.
e depois obrigá-la a tomar os remédios enquanto gritava
vocês querem matar-me! isto é veneno! eu sei o que querem:
o meu dinheiro!!! aquela ali, e apontava para a minha mãe,
quer-me matar com esta comida. eu nem sei de quem és
filho, e falava de mim, ódio profundo nos olhos e nas sílabas. 
estávamos muito longe já do tempo em que me ensinou 
a escrever, em que me lia histórias antes de dormir 
e me dizia, do alto da sua quarta classe feita com distinção,
que os livros e o conhecimento são coisas que nos permitem 
crescer e ser melhores. irónico como acabou por se esquecer 
de tudo, quem era, o que tinha tido, quem tinha sido toda a vida.
e agora há outro a navegar naqueles lençóis, perdendo 
todas as forças do trabalho duro, ficando mais frágil 
do que todos os quilómetros de vidro que assentou,
com as mãos e o jeito a perder a rudeza ígnea das rochas,
no mesmo quarto do sempre, do mesmo jeito, com medo do frio 
que dantes abraçava às 6h00 da manhã, todos os dias,
com um duche quente ou frio e uma navalha afiada 
para a barba. olhar as mesmas paredes, os mesmos retratos 
mudos que lembram a juventude que, uma vez, nos pertenceu,
a mesma luz passando oblíqua pela janela da lucidez, o corpo
a falhar, motor mecânico a acusar o uso, enquanto eu, 
dois andares mais alto, martelo estas letras
e tento não me lembrar disto e do mais que faz parte de mim.

18 novembro 2011

Dizer amor


digo que a amo só para saber se ainda sou capaz
de o dizer, de sentir esta palavra com força.
espero que as palavras despertem o que já não sei. 
digo que a amo e ela não escuta, não sabe o que é 
nem para que serve. digo que a amo para passar 
o tempo, para despertar o sexo e o calor. digo 
que a amo para a tentar despertar, para a humanizar
no meio da minha desumanidade. digo que a amo
e ela não me responde nada. silêncio. geme. apenas.
mentimos ambos. eu com palavras. ela com o corpo.
eu com o corpo das palavras sem corpo. sendo eu.
mentimos ambos sem saber mais para onde ir,
o que dizer ou fazer. somos. existimos. somos sós
e nós, aqueles que somos sem a música das estrelas,
sem a graça do corpo debaixo da lua nua. dizemos
ambos o mesmo de forma diferente: estamos sós 
e temos medo do frio da cama a trincar a nossa pele.

15 novembro 2011

Poema para além da modernidade

Das ruas sobe um clamor insuspeito, das esquinas
de onde se descosem os corpos, dos paralelos sujos,
das bocas abertas para a chuva, das mãos porcas
com que nos tocam. Todas esta vozes dizem
uma só coisa a uma só voz:

ESTAMOS A CAGAR-NOS PARA TODOS!

Somos pequenos egoístas pequenos que não sabemos
existir; somos grandes e umbilicais como a publicidade
nos ensinou a ser; somos estúpidos e gostamos dos estúpidos
porque receamos tudo o que desconhecemos; temos coisas,
não precisamos de ser. A televisão e a internet guiam-nos
os gostos, o que dizemos, o que pensamos e quando o fazemos.
A economia é a nossa religião: não a compreendemos, mas temos fé.
E quando nos caírem todos os dentes e deixarmos de ser úteis,
quando acordarmos de todos os dias para nos tornarmos pó,
a boca cheia de merda não nos deixará falar uma única palavra
- seremos velhos, pobres e não teremos  nada, mais nada,
nenhuma coisa para dizer para dar significado a termos sido
entre cafés chungas, restaurantes manhosos, férias estúpidas
em hotéis que apenas confirmam o nosso egoísmo e medo,
dia-a-dia vivendo cada vez menos, comprando cada vez menos,
sabendo cada vez menos do que somos e do que é viver.

01 novembro 2011

Aquário de medo


como certamente sabes, comunicar é impossível sem palavras, 
excepto quando se dá palavra à linguagem silenciosa do corpo. 
mas no silêncio ele acaba por pronunciar a língua viperina 
da carne, esperando que daí, da redonda ausência, algo mais 
eloquente acorde e se forme. procuro ainda novas formas 
para te dizer algo diferente, mas continuo preso a estas 
que nos ensinaram e que não contam as horas acordado, 
as fotos repisadas pelos olhos, o trabalho sem fim para manter
as paredes do mundo fortes, capazes. ainda hoje, acordo 
mais vezes sozinho, mais vezes do que alguma vez acordamos 
juntos, corpo silencioso em corpo silencioso na eloquência
das manhãs sós e do café quente. e como já ninguém faz,
o parolo romântico, as horas perdidas a reler maus poemas 
escritos quando te conheci, cheios de um homem melhor
(quem sabe?) e de uma mulher que só existia na minha mente; 
as fotos com dois que já não são e talvez nunca tenham sido
mais nada fora daquelas páginas e circunstâncias.
de que vale isto hoje? menos que nada e horas estranhas.
e de nada se fazem as formas da memória, 
e de horas também, 
sempre as mesmas coisas velhas e gastas pelo uso, 
como aquela roupa confortável que se veste quando
não se espera mais ninguém em casa. assim se fica,
entrecortadas por anos, como tem de ser; esquecido
em cima de uma cadeira qualquer num quarto vazio,
fora do que se sabe, do que se conheceu e morreu, 
como morre sempre, como morrerá sempre, no espaço
vazio que cresce selvagem entre duas pessoas quando
a única vida que se conhece é a de um aquário de medo,
de onde olhamos de dentro para fora sem nunca nos ver.
comunicar precisa de dois, não de um espelho embaciado.
a mensagem só precisa dos olhos certos para a ler, sabes? 
de resto, por si só, como quase tudo, não vale nada. 

17 outubro 2011



uma das músicas mais belas que ouvi. sempre.

Partes de mim

Na realidade sou apenas um romântico desiludido com o mundo e com as pessoas. Parte de mim, pelo menos, é assim. A outra não se importa muito e continua sem pensar muito nas coisas. Ambas não querem acreditar mais e preferem manter-se assim, indisponíveis. Sinceramente, e do que vi e experimentei até agora, a disponibilidade é uma coisa muito interessante que serve para reduzir a nossa produtividade e para nos roubar as horas. Mata a solidão por umas horas, mas pouco mais. Assim sendo, continuo a ser o mesmo romântico desiludido com o mundo e com as pessoas. Sem beleza nem poesia. As coisas parecem mais duras ditas em prosa, mas é uma ilusão do nosso entendimento. Afinal de contas, são apenas as mesmas palavras alinhadas e gastas. Ninguém entende. Elas, as palavras, significam o mesmo de formas diferentes. Dependem das pessoas que as dizem. Se forem escritas parecem mais sérias, mas são igualmente risíveis e insignificantes. Confusas, principalmente. Hoje passei demasiadas horas em frente ao computador. Ontem uma manifestação, tão inocente que chegou a ser bela - não fosse a desilusão um cancro que nos consumia a todos por dentro. Descendo a avenida passava-se uma fronteira invisível entre dois mundos necessariamente contrários. O dos contestatários, o mundo em crise, e o mundo real, das esplanadas cheias e da praxe dos estudantes que se alimentam de MacDonalds, engordando como animais passivos e com um plano. Ambas as partes de mim ficaram desiludidas. Com o mundo real e o mundo contestatário, ambos enfrentados de câmara na mão - e são as mesmas caras que se escondem por detrás das mãos, dos óculos de marca. Acontece-me o mesmo quando sou sincero. Quando tento falar ao coração das mulheres, as portas fecham-se. Excepto quando tento ser quem não sou. Excepto quando os bolsos estão cheios de dinheiro ou paciência (ainda estou para decidir que qualidade é a mais importante). Ainda assim, permaneço romântico e desiludido com o mundo e com as pessoas. É assim que sou e só consigo enganar quem quer ser enganado pelo tempo disponível para o engano. Para terminar, gostaria de dizer que odeio o Paulo Coelho e todas as palavras que ele escreveu e virá a imaginar. É demasiado cruel da parte dele reduzir o mundo todo e toda a gente no mundo a crianças que precisam de metafísica moulinex para sobreviver. E depois de todas estas palavras incertas, rudes na sua prosa, incertas na certeza de definir algo, permaneço romântico, desiludido com o mundo e com as pessoas, mas procuro não pensar muito nisso.


P.S. - Para além do Paulo Coelho, odeio também o Pedro Passos Coelho de uma forma que o reduz apenas a mais um número, a mais um político que vende a carne dos ossos, as gerações presentes e futuras, a uma oligarquia. Infelizmente, não foi o primeiro.

12 outubro 2011

Não te sei


Não te sei dizer o porquê, mas já não consigo
ter um orgasmo contigo. Não sei se será o hábito
do corpo, teu e meu, ou se isto é causado pela falta
de desejo que sinto por mim mesmo. repara, eu
não sou algo que aconselhe a quem quer que seja.
Sei quem és, o que fazes e para que me queres 
aqui,
agora,
longe de qualquer futuro, neste presente inconsequente
para qualquer entendimento dos corpos.
Sei que apenas me queres foder, exercer controlo 
sobre mim e sobre o meu desejo feito corpo, feito sangue,
e não sei como nomear exactamente isto, o que acontece...
Sei que não me vais ligar amanhã, se calhar nem no dia
seguinte a esse, para nos reencontrarmos: estas horas
pertencem aos corpos e as provas ténues que ficaram 
foram os cheiros nos dedos e as erosões seminais na pele. 
Sais de mim, sal e terra, como entraste - um rasgão superficial,
umas horas perdidas, um outro sinónimo do prazer descarnado.
Paixão, amor ou qualquer coisa intermédia ou nem isso: 
gostava de te perguntar, mulher que conheceu muito mais
do que os rigores e a força do meu corpo. mas não pergunto,
porque sei (e sei que sabes também) que nos conhecemos
demasiado bem para nos apaixonarmos por ilusões 
e demasiado mal para nos amarmos. É uma relação feita 
de silêncios, de gestos e gemidos, de palavras por dizer
no cansaço da corrida. Agora dorme… Estás cansada,
eu sei,
de tudo isto.


'09

Exercício 7 - continuar


é simples e fácil. basta ser. fazer. acreditar que respirar
é importante e valioso. assim se continua. mesmo quando
se anda em círculos com a ilusão de que se avança. mesmo
quando se sabe até à medula dos ossos que continuar,
prosseguir, avançar, é como uma amputação: lima-se 
a gangrena, mas permanece a dor, a ilusão do membro 
perdido. e como se torna mais difícil o equilíbrio! mas sim,
fazer! fazer tanto que esqueces como se vive enquanto
respiras e pestanejas os olhos como quem não acredita
na vida que tem. fazer tanto que perdes as ilusões e sonhos, 
em que passas os dias a desistir em nome de uma vitória
que nunca vai chegar e, quando chega, nunca é suficiente.
em frente! sem olhar, em frente! o abismo, em frente! 
quanto precisamos para ser felizes? tudo o que preciso 
mesmo cabe dentro de uma mochila - tudo o mais trago
no peito, junto com o orgulho de ser quem sou e como sou.
isto inclui: a teimosia e a imensa estupidez; o mote
"antes quebrar que torcer"; o perfeccionismo; a vontade
e a força de ser; não saber como abdicar dos sonhos
em nome de uma conta bancária melhor e mais estável;
o ódio visceral a tudo o que é político; a honestidade
intrínseca da minha classe e educação; olhar com força
e querer ainda com mais e mais força; o ombro amigo
que me esforço por ter; a imensa paciência para tentar 
compreender e ser um animal bom. por isso avançamos,
avanço e continuo com todo o peso do meu mundo dentro,
a uma velocidade constante definida pela orientação 
espacial dos planetas… continuo a arrastar-me lento
demais para o mundo em que vivo. faço sempre mais,
mas não sei se conseguiria existir manco como estou. 
continuar é andar sempre em direcção ao que não se sabe.

O porco chauvinista estético


o porco chauvinista estético é um conceito 
menos contraditório do que se pensa. 
é mais uma questão em aberto, existente
nos subjectivos olhos de quem vê. 
mas é relativamente simples: todos nós
(os homens, os outros, os estranhos, os simples, 
aqueles que amam e os que não amam e aqueles
que se tentam separar da metade feminina desde o início 
de que nos lembramos) o somos, poucos parecem.
mas este exercício de parecenças está mais nos olhos
de quem observa. aqueles que olham, os de dentro
da acção de olhar, quem é visto, o porco chauvinista
portanto, permanecem ignorantes ao que são 
- falta-lhes um espelho para a compreensão. 
assim sendo, todos nós, e ninguém também, o somos
sempre que olhamos quem desejamos com 
a ardência nos rins, com a ausência de matéria
no ventre, com as palavras mal-colocadas, 
desniveladas, da lubricidade, quem não quer ser
assim olhado por nós. uma figura de acção sexual,
um boneco de prazer que se julga inanimado
quando o que se tenta, com maior ou menor educação,
é contar o desejo, explicar a atracção e a forma 
como todas as formas naturais se encaixam 
(e também a suavidade da pele, o calor dos músculos, 
a solidez salutar de toda a equação matemática da beleza).
como tento dizer desde o início, as palavras mentem 
e as acções não: o porco chauvinista estético é
um conceito contraditório, mas tudo o que fazem não.
não há olhar a que isto consiga escapar impunemente.


(depois de algumas conversas)

09 outubro 2011

Exercício 6 - recear


apresento-me: existo e tenho medo. desconheço
este mundo que me rodeia e duvido que algo bom
possa acontecer na culpa que transporto. 
já disse que tenho medo? demasiado para apreciar
o que possuo? já disse também que me agarro 
ao que não tenho? que pressinto que tudo definha
à minha volta? que tenho dentes que me mordem 
os tornozelos, o sono… que me vincam o olhar
para eu não ver a beleza infinita da dádiva possível
nos dias que ainda nos permitem. e a culpa, tanta,
latente sob a máscara snob da minha depressão.
as minhas mãos matam tudo o que tocam. sou assim:
azarada, desastrada, um deserto de sal para o amor.
entende, por favor, que o que o mundo é, depende 
de quem somos, do que vemos; e o toque de midas 
que tanto procuras, a alquimia que conduz do chumbo
ao ouro, da carne simples ao amor, é uma transfiguração
possível, mas asfixia a vida e traz uma riqueza dúbia, 
indecisões concretas, uma infinita tristeza da largura
de um abraço que é sempre o primeiro passo do adeus.

29 setembro 2011

Exercício 5 - perder


já sabia as regras quando comecei sem noção 
o que efectivamente seria aplicado. que leis
ou ordens seriam as que teria de cumprir. 
estamos todos limitados ao mesmo: agir, reagir,
apostar, perder. faz tudo parte do jogo, do sistema.
sem dar conta, vou perdendo o controlo que sabia
exercer na minha vida, na imposição da minha vontade,
o rumo que tinha imprimido à força de mãos e suor.
agora estou perdido no meu espaço, centrifugo,
sem compreender nada, sem encontrar sentido 
nas palavras mais simples, em gestos normais.
mesmo agora enquanto alinho estas letras, 
luto contra o sentido escondido que quero nelas,
luto contra o que quero dizer de mim e não sei
encontrar. perder. o quê, mais? amigos dizem-me
que devia encontrar um ponto positivo em tudo isto,
que estes ciclos negros são etapas que se cumprem
e que depois de tempestades chega sempre a bonança
- e porque penso sempre em chapéus de cowboy
e em longas tardes a preto-e-branco, cactos e tudo?
quanto tempo demoram estes dias? longos, demasiado
cheios de nada e, lugar comum do pó, clichés enormes,
longas, longas tardes em que se luta por encontrar algo 
que preencha as imensas horas do tédio. e o plano,
sempre o plano por cumprir, a perda de tempo plano,
inteiro, contra as engrenagens da sorte, da circunstância.
perder mais dinheiro também, porque qualquer jogo 
exige apostas - e quanto mais quiseres ganhar,
mais terás de perder, de apostar, de perder, apostar
deixando de ser, sendo um peão da sorte, sendo a mão
que faz agarrar o destino que se faz, que lento se constrói. 
já não sei o que fazer mais, mas continuo a fazer algo.
quando não se tem mais nada a perder, o caminho é um,
em frente, em busca do momento circunstancial 
em que tudo fará sentido - para apenas se perder novamente.

22 setembro 2011

Exercício 4: ignorar


Tenho 29 anos e debaixo dos meus pés e ignorância
já atropelei genocídios e guerras e mortes e violência 
e fomes e várias e diferentes pestes e incontáveis mortes
que contam para a forma como a riqueza se distribui, 
sempre pelas mesmas mãos, sempre da mesma forma
hemisférica. Nisto, a economia contraria a gravidade: 
a riqueza sobe. Mas dizia: tenho 29 anos e só consegui
estar vivo até agora sem enlouquecer porque,
como todos nós fazemos, ignoro o que sei que acontece:
aquela besta que vive em todos nós e se revela 
periodicamente por pátria, riquezas, raças, credos, 
políticas e certezas de ganhos maiores do que conseguimos
conceber. Tenho 29 anos e sei, há muito, que há mortos
que valem mais que outros, que há pessoas que valem
mais do que outras, que há gente que merece mais 
que outras - e esta forma de racismo, esta forma de 
eugenia económica,
é, cada vez mais, uma parte maior do nosso pensamento:
é com isto que os políticos nos convencem da necessidade
do sacrifício, da igualdade do sacrifício, da salvação 
pelo sacrificio, de que todos somos sacrificados 
a mando de um deus invisível, de voz forte, e que só a fé
no crescimento exponencial nos poderá manter vivos
para respirar mais um pouco, 
comer mais um pouco,
comprar mais coisas para continuar a esquecer que só 
estamos vivos e felizes porque tivemos a sorte de nascer
no sítio certo, na sociedade certa, com a quantia certa
para encontrar um caminho e termos algum valor…
chamam-lhe civilização. Entretanto, continuam a fazer
as guerras certas, a apoiar as facções correctas, a matar
nos sítios certos as pessoas certas que nasceram para isso:
para encher os nossos telejornais com a sua dor 
para nos fazerem sentir bem, para acharmos que somos 
afortunados, para pensarmos que a nossa sorte poderia ser
pior se tivéssemos nascido ali. Vendo bem, nem são pessoas:
são apenas imagens em movimento, produtos da apatia
dos nossos sentidos umbilicais. Dizem agora que deveríamos 
estar orgulhosos dos acordos que lavram em nosso nome,
das "oportunidades de negócio" que se podem encontrar
num mundo rasgado ao meio, num mundo que se tenta
reencontrar em si próprio e que não sabe para onde olhar,
num mundo onde finalmente se abriu o jogo e se concentra
a riqueza nas mãos de quem interessa, no mundo corporativo,
árido, digital, bits e bytes de dinheiro, números despenhados
do monitor para o pânico, para a conta, para o medo,
para a ignorância de não ter uma vida para além daquela 
que a nossa ignorância nos permite sonhar, perfeita, única,
com um valor igual à das pessoas que nunca se concretizaram.

20 setembro 2011

Exercício 3: respirar


lembra-te: são dois os gestos que precisas
para continuar vivo. primordiais de tão simples,
emanam do mais profundo do teu cérebro
como um eco dos primeiros gestos da tua 
espécie. encher e esvaziar. encher e esvaziar...
deixar que os ritmos obscuros dos teus sentimentos
os controlem por vezes, sem teres peito para 
suster o ar do suspiro; sem ter força para os encher
quando o mundo cai sobre ti. quando os pensas, 
parecem tornar-se noutra coisa, mais difíceis, 
como se de fora visses os processos internos 
que te controlam: a confusão que trazes escondida,
a dúvida que respirar mantém acordada em ti,
a alegria e a excitação dos olhos abertos, do mundo
que se vê e se pode tocar… e o não-saber, nunca,
mesmo debaixo da cortina da rotina, o que o dia
após este pode trazer. encher e esvaziar, encher
e esvaziar, encher e esvaziar, encher e esvaziar...

Exercício 2: apaixonar


gostava de me apaixonar, mas já não sei 
como é que isso se faz. como se acredita,
como nos deixamos ir em águas cujo fundo
não vemos. como amar as horas de outro?

gostava de me apaixonar, mas já não sei
falar outra língua que não a minha
- e ninguém para explicar o que é isto
que se sente enquanto se respira e pensa.

19 setembro 2011

Exercício 1: acreditar


acreditar é comprometer-me,
perder um pouco mais de liberdade,
reduzir o meu campo de acção,
reorganizar os ponteiros do relógio
pelas horas de outros. 

acreditar é fechar-me em casa,
fechar-me em mim,
fechar-me atrás da câmara, 
fechar-me atrás do computador, 
fechar as minhas mãos
à volta da câmara para o mundo.

acreditar é não ceder, perseguir
- mesmo que seja contra todas
as expectativas e sensatez. 

acreditar é fazer 48 das 24 horas
do dia. acreditar é fazer e fazer
e fazer e fazer e perder e perder
e continuar a acreditar. acreditar
é acreditar, olhos fechados
para o significado real das coisas.

acreditar é acreditar por acreditar,
porque se sente e sabe o que importa.

acreditar é esquecer tudo 
o que se podia estar a fazer 
caso não se acreditasse. 

acreditar é jogar contra probabilidades,
gente, dinheiro, sorte, mundo, merda!
acreditar é uma litania sem sentido!
acreditar faz cair o cabelo!
acreditar é tudo o que nos deixam ter
e tudo o que de mais importante nos tiram!
acreditar é não acreditar nos anúncios,
esquecer o crédito, esquecer os sonhos
plásticos que se podem comprar nas lojas! 
acreditar é ter objectivos que não se encontram
à venda ao público! acreditar é uma coisa 
que não se pode enviar por bluetooth ou e-mail!

acreditar é uma coisa pessoal! acreditar é próprio!
acreditar é solitário! acreditar é triste! acreditar é 
permanecer incompleto, insatisfeito, transitório,
uma mera ligação entre ser e encontrar um significado
para o estar vivo, dia após dia, sem mais artifício.

14 setembro 2011

O insecto


Sinto o insecto a crescer no peito. 
Sobre e dentro da pele.
Alimenta-se de mim. 
Já não sei mais se respiro ou se é ele
que sopra o ar pela minha boca, pelo meu nariz, 
no ritmo 
da inconsciência dos gestos automáticos. 
Não consigo comer.
Não consigo dormir. 
Não consigo 
abraçar ninguém com estes braços
de quitina. Tenho como companhia a tábua-rasa 
da sombra. Ninguém confia num homem 
com um besouro dentro, que cheira a coisas 
mastigadas e a saliva; com ruídos
dentro, com o esgar de dor ocasional 
quando as mandíbulas interiores 
atingem algo
- que não o tecido mole que levamos dentro.

06 setembro 2011

Os artistas


faço parte dessa raça de cobardes que levam os sonhos
às costas. os artistas, com fama ou não, são criaturas 
desprezíveis: comem o seu peso em papel e carne
e vomitam sobre os sapatos das pessoas respeitáveis
e trabalhadoras o tédio das suas observações. plantam-se
às janelas de restaurantes chiques na baixa pensando 
como seria comer ali, muito, caro e bem, e depois, durante 
o cigarro, soltar gases discretos entre as pessoas de bem
- e esperar que estes não sejam excessivamente ruidosos.
cheiram mal, suam e alimentam-se apenas de sopas roubadas
aos pobres porque, deles, dos artistas, emana a riqueza 
intelectual, a única verdadeira e apressadamente fodida no cu
em qualquer banco de jardim fora do olhar próximo.
para além disto, usam óculos (eu não, mas devia), mas
agora que eles estão na moda deixaram de usar; 
trocaram-nos por um telemóvel com bloco de notas, 
câmara fotográfica 5 mpx, internet para procurar palavras
e conceitos perdidos e enxovalhados na algibeira do tempo
- e aplicações, mais e outras, para a sua imensa inutilidade 
e falta de talento. os sonhos são coisas belas, mas chega 
o dia em que é impossível não acordar, não sentir os dentes
do tempo mordendo os calcanhares como um cão vadio
e raivoso; em que é impossível não experimentar na carne
o fracasso e o erro e a tentativa e o erro e a tentativa 
da tentativa do último erro que nunca se pôde cometer; 
em que é impossível não sentir fome e ter o bolso vazio
e ter de voltar sempre e sempre ao mesmo momento, 
às mesmas mãos estendidas, às mesmas oportunidades
repetidas, a compreensão do sangue e a sua eterna paciência.
os artistas com dinheiro, esses, também fazem tudo isto,
mas de formas absurdamente mais discretas e rentáveis.

01 setembro 2011

Duras como espelhos


Não sei para onde foram as palavras
onde aprisionava o mundo. Das mãos
fugitivas furtaram-se; na boca, secaram 
entre as dunas da língua, as montanhas
afiadas dos dentes; da mente, escondem-se
sem dificuldades, como crianças jogando
um jogo sem vontade, apenas para passar
o tempo, para ir daqui para ali sem propósito.
São tempos duros estes, em que lentamente
deixamos de ser, nos transformamos em sal
silencioso, sem significado maior para atribuir
aos objectos que nos rodeiam. Vendo bem, 
é isto que temos: coisas para definir; objectos
para renomear, referencias nada subtis do mundo
- e, para isto, as palavras que nos restam servem 
perfeitamente, planas e frágeis como sempre foram.
Quanto ao que se perdeu, não escondem nada:
são duras como espelhos.

28 agosto 2011

Chats


vivemos dentro de caixas… digitais e invisíveis.
existimos como animais de circo a quem é dado
o poder de escolher em que direcção quer ir dentro 
de linhas pré-definidas: direita. esquerda. frente.
por vezes demasiado para trás, em direcção 
desconhecida. é sempre de noite aqui e agarramos
os sexos para esquecer a tristeza dos dias, para ter
um pouco de calor conhecido e contacto humano
quando a solidão se aperta à volta dos dentes
e não se sente o sabor de mais nada. quanto somos
nestas sombras a excitar-nos com imagens falsas
que representam apenas impotentes fantasias 
de hipóteses que se perderam, calor feito carne,
a hipótese fugaz de, por uma vez, conseguir silenciar
os gritos, o tremor do medo, a noite vazia, 
as mãos que se distendem em busca de outras
e nunca encontram nada para além de bytes
- que de forma alguma trazem calma.

09 agosto 2011

"As individuals they have been busted, excluded and defeated in so many ways that they are not about to be polite or careful in the one area where they have an edge."

Hells Angels, Hunter S. Thompson

08 agosto 2011

Actividades não-sexuais

Deviam inventar um cartão
Para as actividades não-sexuais;
A tudo o que mate o desejo
E o prazer do momento, do ajuste,
Da procura do aperfeiçoamento
Da escultura do tacto. Como no futebol
dois cartões implicavam a expulsão
para longe de quem quer viver livre.
Já há demasiado tempo perdido 
e controlo assumido nos dias para perder 
nisso as noites e os corpos. Alem do mais, 
a economia de tudo, hoje, já nos permite pouca 
expressão, poucas palavras, nenhum gesto 
que não seja filho de uma taxa. A cor do cartão 
é irrisória; o seu tamanho indiferente. 
O que importa é que consiga parar 
(antes de acontecer) 
A ditadura dos corpos estranhos sobre
A possibilidade da expressão pessoal,
Sobre a tela da pele e da sensibilidade.

06 agosto 2011

Passeio de domingo

é verdade, cá estou eu novamente, 
repetindo os movimentos de anos, 
a depressão de outros. foz, palmeiras,
este cais de embarque ou observação
aparentemente real e que nunca abraçou 
um navio, onde burgueses nunca embarcaram
em direcção a uma vida melhor; estou
aquí, estacionado no passeio, vendo 
os faróis como quem espera algo melhor,
horrorizado porque não consigo pensar
em nada para ocupar as 24 horas do dia
de amanhã. segunda-feira, o que fazer?
como dei à costa a este naufrágio?
continuar vivo, acreditar que serão estas
vinte e quatro horas (por extenso) as reais, 
as salvadoras para a navegação entre balizas
invisíveis, fúteis. a verdade é que esta solidão 
é um cancro, uma coisa viva que cresce 
e se alimenta de nós, de tudo o que fazemos 
para nos aproximar da vida que nos ilude, 
do trabalho que falha, dos que nos rodeiam 
igualmente sós, como cada um de nós está, 
todos os dias. sem nome, é o que somos,
apenas mais uma partícula menos fina agarrada
à terra, à vida, ao canto que encontramos 
no mundo que nos rodeia e sofoca a cada domingo.

14 junho 2011

Aljustrel

deitado finalmente, olhos fechados,
imaginação à solta nas aranhas 
saídas das sombras da noite para 
se alimentarem de nós. é assim 
que durmo hoje. alentejo de novo.
desta vez sem família nem amor,
só com amigos, músicos, música e calor.
viagem confortável e rápida, sem gastar
um cêntimo, excepto nos roubos que
são as paragens de serviço onde 
empregados deprimidos nos servem 
o nosso próprio sangue em cafés aguados
e chávenas de limpeza duvidosa. depois
paisagem rotativa e fantasmas de outras vidas
nos carros que passam, vislumbres
de um rosto mais que familiar e perdido,
liquefeito pela velocidade e impossível
de alguma vez voltar. sol pelos vidros, 
queimados os braços pela sonolência
dos membros e a incerteza do espaço;
não-lugar, momento passageiro na confusão
entre tempo e espaço, entre o espaço de estar
e o tempo de ser algo mais do que aquilo
que nos permitem. rolamos na vertigem e,
hoje,
temos um destino definido pelas obrigações,
vila mineira morta, montes vazios por dentro,
arqueologia de mãos rudes que medem as forças
da terra e dos animais. animamos a viagem 
com as conversas possíveis, mas sabemos todos
que entre os sorrisos e os olhares nos espreita
o silêncio e a responsabilidade pesa, imenso, 
sobre tudo o que temos para fazer. ainda assim
é sempre esta mesma loucura quando deixo 
a mente rolar livre nas faixas do pensamento. 
não sei se te procuro ou te encontro ou se me perco
nas possibilidades esquecidas, nos fragmentos
do que ainda sei sobre quem és e o que fazes;
sei que isso pouco importa: a vida avançou 
como esta estrada e agora somos outros
- perseguir-te é o mesmo que tentar agarrar 
um fantasma ou fixar a imaginação. as viagens 
agora são outras, outros os companheiros 
e imensos os espaços. não te encontrarei 
em aljustrel, não sei quem és para te agarrar 
pelo braço e dizer olá! por aqui? a verdade é que
vamos todos a caminho de lugares diferentes 
e agora temos idade para saber que o importante
mesmo é chegar onde se quer, como se quer.
tudo o resto são circunstâncias organizáveis,
arrastadas pela circulação do ar dentro do veículo.

07 junho 2011

"For to go as a passenger you must needs have a purse, and a purse is but a rag unless you have something in it."

Melville, Herman "Moby Dick"

04 junho 2011

Mármore

Não sei o que é ser pobre, daqueles
que têm apenas quatro canais 
de sobrevivência: a minha tv está ali,
desligada; é fraco alimento para mim
e as minhas insónias. Sei, contudo, 
o que é ser pobre, daqueles, de espírito
e bolso completo; daqueles que estão
horas a debitar histórias em que são 
o motivo, participante e protagonista 
como se todo o mundo fosse pequeno 
e contido no seu umbigo. Compreendo
o porquê, lamento as razões, tento rir-me
de tudo e ler um livro. Compreender as 
cínicas razões pelas quais não consigo 
dormir, nem sentir algo mais que isto, frio.

03 junho 2011

Formas

entretenho-me rearranjando as grelhas do real,
reconsidero conceitos, significados, significações
repassando pela beleza do nada e a sua perfeita
inutilidade. temos tudo, não há como fugir 
a infelicidade de não saber o que desejar,
ou desejar tudo o que não se pode ter
sendo um perfeito desconhecido para quem se é.
não, já não sei… escrever, falar, comunicar
ao sentido sentimento das coisas-pessoas,
coisas, pessoas que se entrecortam e confundem,
aos pedações dentro de mim, no sólido que sou.
passo os dias em silêncio, batendo teclas
tentando aproximar-me da realidade 
desconhecida. o outro permanece sempre: ilusão,
esfinge,
desafio simples, parte desconhecida de mim,
comboio inalcançável de sensações, de toque
e sentido e realidade quente e carnal.
são poucos os dias em que me vejo, desci
os espelhos das paredes, revejo-me nas pessoas
que conheço e na fotografia, no domínio amador da luz
e não sei ainda quem sou, quem quero ser, 
como devo ser para toda a gente me amar.
afinal de contas, preciso de atenção, de ser a vibração
que te excita o que resta do teu corpo mastigado
352 vezes, cuspido e mutilado outras tantas.
um dia as coisas foram diferentes, nem melhores
nem piores, diferentes apenas. as palavras 
tinham textura, um corpo, um significado óbvio
atrás da tinta e as fotografias não eram apenas
frequências tornadas reais no papel, bisturi 
da insensatez da realidade. não compreendia
nada com aquela capacidade de explicar 
o que tudo é, mas intuía a relação óbvia,
a unidade entre "eu" e mundo. ainda comia 
maõs-cheias de terra e brincava com os vermes
- antes de os substituir pelo sexo - e era impossível
que algo como o mundo pegasse fogo. 
agora não.