30 dezembro 2013

Palavras Cínicas

      "O pobre corpo nu corre a roda toda como um copo numa bodega, amarrota-se, enlameia-se. Toca-me a vez: os mesmos abraços que deu à minha noiva, os mesmos beijos que dei à minha mãe dou-os agora a esta. Isto é lógico. 
       Vender o corpo é melhor do que vender a alma, mas vender a alma e o corpo como seria bom!
    Mulheres honradas? Ah! tu crês em mulheres honradas e homens bons? És parvo. Todo o homem atraiçoa e toda a mulher falseia. Todos mentem. Mentira é o céu, o inferno é mentira. É mentira Deus, é mentira o Bem, o Amor e a humanidade.
      Em que acredito eu? No crime e no dinheiro. O crime é Deus, o dinheiro é Deus, e de ambos o dinheiro é maior. É por dinheiro que se compram almas, por dinheiro é que as mulheres se vendem.           Quantas almas não conterá um saco de dobrões, quantas? A quantos corpos não poderia ele despir?"

Palavras Cínicas, Albino Forjaz de Sampaio

27 dezembro 2013

Em frente aos outros

Foi o passado que nos cortou a cara.
Foi o passado que nos desfigurou.
Foi o passado que nos deu forma 
         e conteúdo.
Foi o passado que nos conduziu aqui.
É no dia de ontem que vivemos e,
depois de cada dia é a esse dia 
que procuramos escapar sem nunca
conseguir esquecer os traços e os gestos,
os sucessos e as desilusões. Falamos 
uma estranha linguagem de atrasos 
e adiamentos, a língua acaricia fantasmas
e fala de memórias, conta os caminhos 
atravessados até chegarmos aqui,
até à pessoa que nunca chegamos a ser.
Erguemos as mãos vazias em frente à cara,
escondemos os olhos e a cara para nunca 
sabermos quem poderemos ser em frente 
ao espelho… em frente aos outros.

11 dezembro 2013

Um fio de volta ao fim

Somos vasos partidos. cacos de cerâmica 
atirados ao chão por mãos cruéis, devassas
crianças jogando ao rompe-e-rasga, pele 
e cicatriz, lágrima de sangue e ninguém
chora primeiro. quem somos agora?
tudo está feito e nenhuma surpresa pode vir
do corpo vezes e vezes sem conta violado. 
e sempre o mesmo rosto recalcado,
o mesmo nome e as memórias onde se retorna:
a mesma criança perdida, um pálido brilho na noite, 
um fugaz sorriso; as agressões do amor e as coisas 
perdidas e as pérfidas mortes uterinas do tempo.
ainda nos resta um regresso? um só?

15 novembro 2013

Wild is the wind


(o poema, por mais incerto,
corre sempre nos passos
que atiram dois corpos na cama.)

Amargas como o sangue

Inevitavelmente as drogas ficam amargas
como o sangue. É só tempo o que se perde,
dinheiro fácil, olhos vazios espreitando
o interior da noite sem ver mais nada 
que a escuridão habitual dessas horas.
Sair para a rua e encontrar uma exterioridade 
qualquer, algo mais do que o que vemos fora 
dos olhos. Mas não é aqui que a encontramos. 
É dentro. Na cadência do pensamento ou do verbo, 
acção interna. Mas é a rua o que temos. E é tarde.
Outra vez. Demasiado e continuar a andar só 
pode trazer mais confusão. Caminhar e as ruas
e os passeios estão imundos. Tentar esquecer 
e todas as bocas te trazem as mesmas palavras. 
E os olhos estão gastos nas esquinas das ruas 
e nas mesmas caras - e as mesmas mãos 
estendidas como ramos secos para cima, 
a sentir se o que cai é chuva ou um acidente
qualquer dos sentidos. Outras nos bolsos, quentes, 
sentindo músculos, sangue, nervos de paragem. 
Caminhando em direcção a outros corpos. 
As mesmas bocas de hálito fumo e secas.
Amargas as bocas, as drogas, o sangue.
E as ruas sem saída. Os bolsos vazios, sujos 
de sangue e com restos de papel e tabaco. 
E nem por isso mais cheios. Apenas a incerteza 
de tudo, o próximo passo, onde ir - o que o dia 
vai trazer no dia, que nunca tarda e chega
às horas certas da luz. Fumo. E o nevoeiro que cai
e torce a cidade no frio. E o nevoeiro que cai
nas luzes que se apagam. E ninguém a cavalo 
surge do nevoeiro para nos salvar, ou sequer
indicar uma direcção. Luz. E o nevoeiro que cai
sobre os olhos, o tempo perdido, a manhã 
submersa num resto de calor de dois corpos
juntos no naufrágio matinal de uma cama.

29 outubro 2013

Sísifo

as minhas mãos foram feitas para mexer na terra:
largas espátulas e rudes - frágeis como ramos de osso.
contudo, não é terra o que toco, nem mãos me agarram
enquanto tropeço e caio. os dias passam e este cheiro 
agarra-se a mim: indelével rasto de erros, mosto; peso
nado-morto sobre as costas como um mundo impossível.
tento alcançar uma sombra, a promessa de um ramo,
enquanto as águas sobem, mas a fome fica por saciar,
a sede já queima e o corpo cede sob o peso húmido. 
através de mim sorri a noite, a passagem do tempo
- a ausência de vozes amigas à volta da satisfação
das mesas de longas toalhas brancas e sorrisos -
trepadeiras e árvores sobre os esforços de muros.
estas são as melancólicas memórias de outros 
de que já fui feito e as eternas possibilidades 
de um novo dia: mundo sempre reconstruído
em barro e água, ponto fixo onde pés se afundam,
confundem os passos, caem todas as intenções.

as minhas mãos foram feitas para a terra, mas água
é o que as leva, lava, lavra. estão pequenas com o frio.
peixes comem-me os dedos, o barro prende-me os pés.
      tudo isto pesa como uma mitologia transparente,

de um mundo por cumprir, de um dia por encontrar.

Duane Michals


02 outubro 2013

"Grande plano de Vilela, um homem inteiro, cuja vida já teria sido desligada, uma destas noites, por um qualquer funcionário da EDP, se alguém não tivesse feito uma ligação directa no contador."
daqui

26 setembro 2013

Noites demasiado longas

Dias demasiado curtos 
acumulam-se 
debaixo dos olhos
como o peso de um mundo. 

Revolvemos o chão. 
Andamos. 
Carregamos estes pesos. 

Transformamo-nos. 

Procuramos iluminações. 
Um momento de paz.

Equilíbrio. 

18 junho 2013

Fear less. Love more.

Não sei o que escrever sobre o amor. Só me ocorrem lugares-comuns sobre comédias românticas, romances de cordel e egoísmo. Acabo sempre por expressar a minha desilusão pela incapacidade geral das pessoas em viverem os seus sonhos, em se esquecerem de quem são, em abandonar o orgulho, o bom-senso e os costumes rotineiros de uma vida para viverem alguém, o que para mim é cada vez mais uma das poucas coisas que, efectivamente, valem a pena. É mais fácil nos filmes, é certo. Os argumentistas tomaram cuidado para criar ilusões trôpegas, pequenos camiões emocionais que passam por cima de todos os que se cruzam, coleccionistas de solidões e de personagens com defeitos inultrapassáveis, mas cómicos. 

Amei pouco. Disse amor poucas vezes a poucas pessoas. Sou antiquado nesse sentido. Apesar de ter crescido com a mesma dieta de filmes americanos, "love" sempre me pareceu diferente de "amor". Nunca gastei muito essa palavra. Da última vez que a disse, disseram-me para ter calma e perguntaram-me o que vale essa palavra? Se já a tinha dito antes. Disse-lhe que sim, mas que não a disse as vezes suficientes para ela estar gasta. Depois ela foi-se embora e nunca soube o quanto era diferente o meu amor por ela. O quanto era especial e única. Mas é sempre assim nas comédias românticas. Como seria diferente aqui?

Explico: estava partido. Tinha deixado de acreditar que o amor é possível quando nas conversas, nos gostos, nas expressões apenas se pressente uma vontade vaga de posse, de fuga à solidão. Ferramentas humanas de preenchimento de noites solitárias e camas frias. Superficialidades e desconfianças. E depois voltei a acreditar. A reencontrar-me num centro de mim que estava fechado há muito. Voltei a saber que não me é suficiente o sabor desconhecido da pele, a excitação do sexo - tudo o que for menos que uma iluminação não me chega. Olhar uma pessoa, única, e sentir o mundo a explodir por dentro. Sinto-me uno agora. Sei que temos pouco tempo aqui e sinto-me velho e antiquado. E estúpido porque sei que não sou assim tão velho, mas sinto o corpo a abrandar por dentro e estou aqui a escrever um texto sobre o amor, sem saber os motivos concretos pelos quais o faço. E esforço-me para que isto não fique com aquele tom moralizante que odeio. 

Vi esta frase "fear less. love more." escrita hoje nesse propagador de banalidades que é o Facebook. E se tivesse de escrever uma frase para dizer a certas pessoas, especiais, era isso que diria. Para umas em tom de desculpa, porque ou fui uma criança imatura e tive medo - ou fui um estúpido e fugi do passado e do presente e do futuro possível; para uma outra, agora, única só para mim, para que compreendesse que ainda há tempo para deixar as longas tardes de domingo soprarem quentes sobre os nossos corpos imóveis no sofá. E isto sim, são só palavras - porque o que eu queria dizer é muito mais do que isto, mas não aqui. For your eyes only, quando quiseres. Entretanto terei de aprender a viver com a ausência, as sombras de sombras em que se tornam as memórias. 

14 junho 2013

Agora vai ser assim: nunca mais te verei.
Este facto simples, que todos me dizem ser simples, trivial,
e humano, como um destino orgânico e sensato,
Fica em mim como um muro imóvel, um aspecto esquecido
e altivo de todas as coisas, de todas as palavras.
Sempre nos separaram as circunstâncias, e a essência
mesma dos dias, quando entre a relva e a copa das árvores
me esquecia de pensar, e o ar passava
por mim antes de erguer os caules verdes e alimentar
a vida sem imagens da paisagem. Marcávamos férias
em meses diferentes. O fim do ano, a páscoa, calhavam sempre
em outros dias. Tesouras surdas
rompiam o cordão dos telefones, e por engano
urgentes cartas atravessavam o planeta, apareciam
anos depois no arquivo municipal. E mais: a minha idade,
a tua, não poderiam nunca encontrar se no mundo.


António Franco Alexandre


neste blog

10 junho 2013


She said that she would prefer a broken neck to another broken heart.
I said “Remember, even the beauty of birth leaves its own scars
And know that you will find your home right where you are.” 
She said, “I know it sounds cliche, but I really am just waiting to exhale.”
She’s not looking for a perfect man, she ain’t holding out for Denzel
She’s just looking for a real man,
But she said “Most of the realest were in graves or in jail”
Just an upright brother, but she’s left with low down brothers, homo thugs, and downlow brothers.
And it took her some time with herself to discover
That having love is even more important than having a lover
But what am I supposed to tell her?
That it’s going to be okay? But it may not be.
It may be hard and ugly,
Difficult, complicated, rough and bloody
And I said, “So many women are struggling”
She said, “Yeah, I’d like a man to kiss me, I’d like a man to hug me
But he’s gotta truly love love before he can truly love me”
I said, “I feel you.” She said, “No, you’re not feeling me.
We are women bringing up seeds,
Our own sons grow up thinking love is a disease
Ducking and dodging real relationships, and just gonna take what they please
And they treat pregnancy like it’s an STD
If the test comes back positive, it’s a negative
And they are ghost in the streets,
Drunk in the wind, only a moment is spent and those moments are brief
Our sons’ role models are rolling stones unknown or deceased
They figure we can’t teach them manhood, so they’ll get grown in the streets
So in the cold world they find warmth with the men holding the heat.
I said “There’s gotta be a change.”
She said, “Yeah, it’s gotta be more than poems on TV”
I said, “I feel you.” She asked me how I survive.
I said, “By Allah, it was my mother otherwise
I would have been dead, crazy, institutionalized.”
“She kept us in the good neighborhoods, even though she couldn’t keep on the lights
So we could go to the best schools learning to read and to write.
Sometimes we’d be so broke, in the store, she’d have to pick between the beans and the rice.
Sometimes she’d put ketchup on a navy bean so it wouldn’t seem like we’re eating the same thing every night.
Two jobs during the day, and one at night.
And the stuff I saw her endure, I never wanna see my wife [endure]
So I know being a man is more than being male, and I’m focused on doing it right.”
“But when I think about my childhood, I don’t think about poverty
I remember how she hugged me, kissed me, taught me, loved me.
And I know you prefer a broken neck to another broken heart
Broken parts that litter the night sky like stars.
But remember, even the beauty of birth leaves its own scars
And know that you will find your home, right where you are
We will find our homes right where we are.”
~ Amir Sulaiman

09 junho 2013

Como uma flor de plástico na montra de um talho

COMODISTA HESITANTE,
protegido das cabeleireiras
e cliente frequente dos feriados nacionais,
acredita nos encontros fortuitos
assim como um relógio estragado
acredita aproximar-se de uma hora astral.
Estes hábitos podem até ser tolerados
Em contos naturalistas
reality showers.

Nós, aqui, little stranger,

Degolamos pardais e fadas de porcelana.
Cobramos interesses à alegria
E vendemos suites com piscina na lua.
A batalha é nossa,
Já alugámos as trincheiras,
Mas custa tanto tirar os pijamas.

Como uma flor de plástico na montra de um talho, 

Golgona Anghel, 
Assírio&Alvim, 
Maio 2013

Um dos melhores livros de poesia que tive oportunidade de ler nos últimos tempos

02 junho 2013

"A woman is not a sea.
A woman is a mountain."

           Masao Yamamoto


31 maio 2013

Sobre o amor

"Amar é dar algo que não temos a alguém que não o quer."

"Entre o homem e a mulher existe amor; entre o homem e o amor existe o mundo; entre o homem e o mundo existe uma parede. É nessa parede que se penduram as fotografias."

Evgen Bavkar, Artist Talk, UCP

Acordei vazio hoje

Acordei vazio hoje.
Não sabia quem era, 
quem tinha sido,
que nome me tinham dado
até este dia. passado.

Já não tenho nome 
- nenhuma voz me nomeia.

Abacate

Braga não tem um único café decente.
Parecem todos montras mostruários 
de uma felicidade nostálgica, indecisa.
Não deixa de ser irónico que ninguém
aqui queira ser visto ou nomeado. 
As pessoas cruzam as praças de olhos
baixos alheias a tudo e são seguidas
por pedintes de vozes inaudíveis. Passos
rápidos entre igrejas e granitos cinzentos.
Afasto-me e procuro um banco sob o sol
incerto deste mês de Maio. 2013. A CGTP
manifesta-se com a sua falta de jeito habitual
- os mesmos rostos de sempre, as mãos
as mesmas de sempre, também, e os slogans,
as palavras de ordem que falam de pão, justiça
e povo, arrastam-se debaixo dos olhares curiosos.
De um lado e outro, quase nenhum rosto jovem
e parece-me cada vez mais que estas vozes
que cantam se treinaram nos campos eclesiásticos
de todas estas igrejas. Nem fotografar consigo.
Não sei a que apontar a câmara e sei que vim
apenas para perder tempo, perseguir um sonho
só meu, rever momentos intransmissíveis. Afinal
a crueldade é um conceito cerebral já que tudo
acontece fora de nós - e o facto de as coisas 
nos acontecerem é apenas um acaso. Somos nós
lá, naquele momento. Senão seriam outros. 
As coisas existem. Não devemos levar nada a sério.
As palavras são palavras são palavras são palavras.
Conceitos vazios. Balões vermelhos sem um fio.
E hoje sou eu a criança estúpida que o veio ver
subir contra o céu e desaparecer nas alturas, 
por entre os dentes de prédios, por entre frágeis
cúpulas das igrejas, por entre os olhares distraídos 
que apenas conseguem focar o chão à frente.

Duas horas de silêncio depois somos sempre outros.
Nem melhores ou piores. Apenas outros.

29 maio 2013

Finalmente iguais sob a mesma desgraça - 2009


Encontramo-nos casualmente na rua quando chovia
E sei que preferias partir comigo a ficar aí,
A mexer nesse pó de gesso e a abrir buracos nos tectos das casas,
Apenas para chegar ao céu e o entubar até às paredes respiratórias.
No desencontro desta hora, são horas de terminar a digestão e o cigarro
E voltar a pegar nas ferramentas: a ti a mais completa poesia da destruição
E a arte de fazer de conta que o trabalho se faz rápido, eficaz;
Para mim, a caneta fraca e cobarde, a câmara clara das minhas memórias
E uma mochila pesada e inútil como uma carapaça mole.
Sabes que podíamos percorrer estas ruas húmidas pelas primeiras chuvas
Como uma mulher que se entrega; sabes que podíamos transfigurar
Este granito, todo este peso imenso nos corpos femininos que nos escapam
Às mãos rudes com que os buscamos; sabes que podíamos fazer
Desta cidade a impossível mulher, puta e santa na perfeita medida do desejo.

Meu irmão, resta fazer as contas ao que nos sobra depois de nos roubarem
O coração produtor e acreditar que dias melhores serão possíveis; que, um dia,
Voltaremos todos a falar a mesma língua e as mãos voltarão à sua pureza inicial,
Longe dos árduos cabos das picaretas e dos maços, do corpo rugoso dos escopros
E das cicatrizes do trabalho. Ainda que penses o contrário, preferia muito mais ter
O meu cabelo sujo com o pó do cimento e do gesso, a t-shirt manchada de tinta
E essas mãos cicatrizadas que agora escrevem noutro papel, noutra hora de trabalho
Nocturna ou que se arrastam cansadas pelos sonhos de uma vida melhor, destruindo
A superfície menos dura dos livros. Acredita que dias melhores serão possíveis,
E que o sol brilhará e o pó das casas não se agarrará a ti e que os teus dedos não serão
Mais feitos de metal. Caso o boletim metereológico erre a sua previsão, haverá chuva
Para nos molhar a ambos, a todos, finalmente iguais sob a mesma desgraça.

21 maio 2013

Ed Ruscha - On the Road

Acrylic on canvas. Overall: 38 5/8 x 72 in. (98.1 x 182.9 cm). Courtesy of the artist and Gagosian Gallery.

19 maio 2013

Tarde demasiado longa de domingo


É domingo, lento e nostálgico vento bucólico.
Sozinho em casa escrevo espreitando a janela
quase aberta que me recorda o mundo e a vida
para viver como um animal perdido, selvagem.

corro de dia para dia sem compreender, cego
completamente para além dos sentidos, 
maelstrom,
babel,
sem encontrar novamente uma mesma língua
para falar, tempos em comum para viver. 

penso nos corpos cruzados, no tempo perdido,
na absoluta insignificância de todas as tentativas
contra o peso do passado, esse cobertor curto 
que nos destapa os pés
e as intenções. 

e por dentro resta-me pensar a negro a incompreensão.
a vida, este momento de débil alegria, memória
recuada de mais um momento esquecido, 
breve chama que se extingue 
sonolenta
na tarde demasiado longa de mais um domingo.

16 maio 2013

Café e cigarros


adoras os teus cigarros e fumas, brincas com o fogo
e espalhas a cinza à tua volta. és fumo. cinzento.
invisível presença espalhada pela casa. uma vez
tiraste o coração de plástico de um maço. o meu.
coração translúcido, inútil. o meu. brinquedo partido.
o meu. abrigados num café brincas com o isqueiro.
já não me vês. o cigarro e o beijo. o café breve.
a chuva que mais uma vez cai lá fora sobre as vozes.

Apenas mais um


nunca consegui rastejar para dentro
da aceitação. os abraços prendem-me,
quebram-me o ar do pescoço e penso,
muito, que inevitavelmente se vão rir.
todos.
porque, afinal, sou apenas mais um.

15 maio 2013

Loira, bebe uma cerveja


Loira, bebe uma cerveja 
ao sol,
do outro lado da praça,
neste fim de tarde cansado
de correr 
ruas desinteressantes; 
espera, como eu, alguém
tardio, cheio de dúvidas
e fome,
com contactos breves com o mundo.
Mergulho em apneia, rostos
familiares turvados pela água, 
certo o sol, apertado o estômago.
Sete da tarde e tenho fome, finalmente.
Dia em jejum à espera do momento
fotográfico, sem erros, elusivo. Ela apoia
o queixo no joelho e olha. Não sou eu
quem ela espera. Olha através de mim.
Escrevo.
Envelhecemos ao sol e esperamos.
Sem sorrir.
A cidade comeu o riso. 
Gritos e desconhecidos.
Clic.
Não é esta a foto.
Espero mais um pouco.
Respiro.
Continua a falar e prova
que existe. Agarra o telemóvel, 
relembra quem és, que esperas ainda.
Diz coisas sem significado para espantar
a morte, para que te ouçam, te compreendam
como sendo mais 
que este corpo
ou 
estas horas desperdiçadas
ou
as palavras que contas para adormecer, 
para te agarrares ao cabelo da noite
quando falha a respiração.
Clic.
Sem foco. Luz rasante nas árvores de granito.
Sopra um vento 
adverso,
inactivo verbo sem esperança.
Respira.
Espera.
Caminha com fome,
experimenta 
as contas da ausência.
Ninguém
a quem falar dias a fio, 
a voz como ilusão cerebral,
o aperto no coração quando escreves 
a impossível coragem de arrasar tudo,
construir de novo,
miragem de fome e sol. 
Permaneço
sentado
ainda que diferente, 
ainda o mesmo
e esquecido de como escapar de mim.
Agora somos todos pobres e reconhecemos
apenas mãos
vazias como nós,
por dentro.
E das minhas mãos sobe ainda o teu cheiro de pele 
à memória - acho que todos o sentem,
mas ninguém pergunta
por ti
ou
por mim
ou 
como sinto agora quem sou e como sou.
Diferente. Não tenho o tempo de ninguém.
Fantasma ou presença anónima em espelho
de relógio ausente, sorriso por devolver
na miopia das emoções. Continuo à espera.
Um momento
que nem eu consigo reconhecer,
a cerveja acabou,
os amigos chegaram,
ela já não sabe o que esperar mais.
Clic.
Turistas e línguas estranhas.
Clic.
Velhos cruzam a tarde como navios cansados.
Clic.
Do outro lado da praça já não existe ninguém.
Clic.
Imóveis pessoas perdidas em todas as praças
esperando
também
debaixo de mais um sol
um segundo equilíbrio.

Eclipse con Rimbaud


Eclipse con Rimbaud


He pasado la mitad de mi vida en la oscuridad.
He descargado camiones de oscuridad.
He bebido toda la oscuridad.
He dormido con la oscuridad.
He amado la oscuridad y me he acostado con ella.
He tocado las piedras de la oscuridad hasta herirme las manos.
He repetido tu nombre en la oscuridad.

Los pescadores cantan en la niebla de la oscuridad.
Los jóvenes sin vida están despiertos en la oscuridad.
Los músicos y las rameras guardan su corazón en la oscuridad.

He soñado con la oscuridad la mitad de mi vida.
He hospedado mi juventud en el cáñamo de la oscuridad.
He desnudado a la oscuridad y gozado con ella.
He acariciado con dedos de pastor el sexo de la oscuridad.

La oscuridad es la oración de los acordeones nublados.
La oscuridad vive en las palabras que descifran la muerte.
La oscuridad habita los suburbios de la belleza.

Dad de ladrar al perro de la oscuridad.
Oíd la lepra sagrada de la oscuridad.

- Juan Carlos Mestre
in La Casa Roja, Calambur

neste blog 

09 maio 2013

Saco de plástico

dois meses bem feitos
têm a medida dum saco
de plástico,
daqueles onde se levam 
coisas que se compram.

Saber contar

Quanto tempo dura a tua memória completa 
em números? até quanto sabes contar?
3 vezes 9 é 27. 3 vezes 9 é 27. 3 vezes 9 é 27.
é uma imagem estranha - a rua contrastada
e o homem com o seu guarda-chuva enumerando
a mortal certeza matemática das coisas todas,
(afastando-se certo num descampado de pedra)
moendo os dentes podres nesta lenga-lenga inútil.
Tudo debaixo de uma chuva miúda que engole toda
a cidade com uma voracidade de animal esfomeado.


08 maio 2013

Vindos de longe

agora estamos sempre a dizer adeus.
não respondemos às palavras, falamos
ambos em línguas estranhas, as mensagens
ficam truncadas e sem resposta. desencontros.
corpos tristes que nos assombram os sonos,
silenciosos, uma impressão de frio nos ombros
estranhos que a noite nos empresta para dormir.
demasiadas horas no dia e a cidade não iluminou
a nossa noite, nem abriu os olhos nossos, nem soltou
as vontades e coragem. reconstruir é uma palavra 
vazia, mais um conceito abstracto sem referente,
corpo frio e caprichoso, triste de vazio que é. 
fiquei mais uma vez acordado. a última espera.
ouvi a noite passar e transformar-se em dia,
as janelas que se abrem, as garagens, 
o passo apressado das pessoas que vivem. 
mais uma vez a minha porta permaneceu 
fechada, nem uma palavra pela fechadura. 
risos
escutavam-se claramente, vindos de longe, 
frios.

07 maio 2013

Musgo vermelho


De um quarto andar no candal 
a cidade parece sempre a mesma.
céu cinzento, textura de nuvem,
telhados e cores colina acima,
sobrepostos,
aparência de vida em movimento:
carros pequenos em itinerários,
rotinas da cidade que desconheço
e faz parte integrante de mim, 
anónima, sombria, estreita, dura. 
Uma vez mais amigos vão nesse adeus 
permanente, mais um sinal do tempo
e da crise e de todas as coisas más
e horríveis que os jornais nos vendem
e que fazem os aviões vencer distâncias.
Assim são os dias e os sorrisos feitos
para esconder o negrume que temos dentro,
os ventos depressivos que vêm do mar,
fado de sal e areia e do olhar no horizonte.
E os telhados, deste miradouro, são musgo
vermelho sobre ruínas cinzentas, pintadas
algumas, cores desbotadas dos tempos,
influxo de tudo para dentro da terra, cidade
arrasada, amálgama de granito, ferro e água.

02 maio 2013

Tempo


Primavera terminada

não te cheguei a contar o mais importante.
não te disse como o fado veio ter comigo 
no la bohéme. lisboa menina e moça, 
sem dúvida, e havia também uma estrela
da tarde e aquele cabrão reaccionário 
do carlos do carmo a cantar dentro 
de todas as lágrimas que me esforçava 
por esconder agora, quando só eu escuto
as mensagens e percorro as costas da noite
e te quero falar e não sei como chegar a ti.
(aqui o silêncio elusivo do medo - meu e teu.)
chegaram finalmente os diapositivos de lisboa,
dos dias breves que corremos na tua cidade 
e me explicaste como batiam os tambores
e corria o sangue e a vida. e as fotos, 
na sua frágil imitação de realidade, 
não conseguem explicar a ninguém a felicidade.
continuo sem compreender porque foste
e a memória corre a frio e o vento sopra
num quarto só nosso que não vê luz nova agora,
que está parado em âmbar como um fóssil
de uma memória, uma foto da última noite
insuspeita - a roupa dobrada na cadeira,
as sapatilhas tão pequenas abrigadas 
do pó, a cama marcada de sombras
e duas almofadas com a forma do sono,
esperando o teu corpo para o completar.
e eu, atravessando o tempo, querendo ser outro 
diferente, melhor, para não me perder enquanto
tu não nos reencontras no teu sorriso completo,
por agora tenho este metro de passeio
diante dos pés e muito para andar até chegar
a casa. mãos frias esquecidas nos bolsos, 
rua vazia, rua vazia, 
rua vazia nesta primavera terminada.


23 abril 2013

No fundo do mundo


o mundo sabe-me a lixo. sou o lixo
no fundo do mundo à roda, pedaço
de terra e mar. sei que amanhã 
acordarei confuso, sem saber 
quem sou ou onde estou ou porquê.
afinal de contas
há perguntas muito mais importantes.

17 abril 2013

Tempo efémero


Sorvo cada segundo que morre porque 
rapidamente começamos a esquecer 
como se cai em braços apaixonados; 
como se esquece a noite de todos os dias
sorrindo;
onde se encontram as palavras simples 
para construir um amanhã possível.
existe o medo, o egoísmo, a roda psicótica
da rotina, a vontade de poder triunfante 
sobre uma paz interior subtil, efémera.
infelizmente no nosso mundo de sábios
cada vez mais estúpidos, tudo o que é real
e importante não passa de mais uma ilusão:
um engano transitório onde nos perdemos 
para continuarmos a suportar uma existência
cheia de objectos plásticos, áridos, sem voz.

O tamanho do sotão


esperavam-me à porta da minha casa alugada
segurando os sonhos nas mãos. pouco mais 
que os 20 anos, ambos. ela talvez mais nova,
com o habitual piercing a fazer de sinal no canto
inferior direito do lábio, camisola roxa apertada
evidenciando uma enorme gravidez. queriam 
ver a casa, procuravam um sítio para crescer
juntos - os 3. entraram por não mais que um 
minuto, olharam, e foram-se embora sorrindo.
lamento, mas não, não sei o tamanho do sotão.

10 abril 2013

Minutos que te antecedem


devia estar a responder a anúncios, 
a lamentar o péssimo dia de trabalho 
e os objectivos por cumprir, as horas 
perdidas entre as horas marcadas 
para viver o dia e as incertezas curtas
do amanhã, mas já não consigo. estou
sentado, na cozinha, a escrever como 
quem fuma, concentrado, a contar 
os minutos que te antecedem. 

12 março 2013

Para contar à lareira

deitados, conversando cansados e olhando o trapézio das quatro 
linhas do tecto, descobrimos os nossos egos equilibrados 
nesta cama
estreita e dura longe do frio húmido, da chuva, da solidão das
ruas rasgadas na pele durante horas acumuladas no vazio.
não, não te vou perguntar pelo teu passado. não o quero saber.
se o contares, vou escutar e esquecer. e tentar compreender-te 
como és agora - não o que te trouxe aqui e a esta forma de mim.
escutamos um rumor, uma língua estranha e nova; guardamos
o alfabeto secreto das nossas peles debaixo da língua - para falar 
melhor quem somos agora que temos horas e silêncios, segredos
- e que começamos uma história conjunta para contar, mais tarde,
à lareira.

Cama estreita


deixa estar o mundo, a gente consegue fugir
à roda da rotina, aos gráficos do cansaço e
às químicas absurdas da luz; às horas 
e ao espaço, às pessoas que nos rodeiam,
ao vazio lá fora, ao silêncio estéril e poeirento
de mais um dia de horas acumuladas. não importa
onde, mas há o golpe de sorte de uma cama estreita
onde nos apertarmos, um termoventilador a sussurrar 
o seu calor fechado neste quarto espartano, quatro 
paredes da nossa privacidade onde oferecemos
o corpo às bocas e às mãos e depois ao calor do sono,
adormecendo apenas com a certeza absoluta dos braços 
que nos seguram e impedem a nossa queda no vazio.

25 fevereiro 2013

Elogio da sombra


as sombras protegem e modelam.
as sombras falam quando as bocas
se entreabrem num beijo sem tempo.
sombras vermelhas reflectidas, manhã
difusa, mundo em suave contraluz e saliva.

22 fevereiro 2013

Viagem de comboio à noite

viagem de comboio à noite:  lá fora
só a pontuação histérica das luzes 
- laranja e branco néon. nem um rosto
perceptível atrás das muralhas do sono. 
viagem. lenta enumeração de estações
e apeadeiros, aproximo-me mais, 
entre bocejos, 
de um destino transitório, daquela voz
metálica que me diz o caminho. casas vazias. 
não tenho sono e o corpo dói-me. ruído  
e inclinações de enjoo e a funda percepção
da eterna e constante mudança do corpo.
movimento. a velhice enorme de cada segundo, 
a fugaz passagem do futuro a passado na brevidade
dos dias presentes. assim passamos por aqui.
estou só. continuo só. sou só. só sei ser bem
só. por muito que me queria enganar e pensar
o amor em formatos que só eu conheço e acredito;
formatos indizíveis e irrepetíveis. falta-me uma bolsa
a condizer com os desejos; falta-me um coração
para esta boca, uma boca para estes pensamentos
e mãos para escrever tudo no seu significado absoluto.
só eu acredito ainda no amor, por mais que o negue.
nas contradições do amor, nas fugas do amor, 
nas imensas mentiras e completas traições do amor.
e acredito que depois de tudo, as feridas se fecham
com amor completo nas mãos vazias que se entregam.
na janela está tudo negro agora e uma enorme paz caiu,
apagando luz, ruído, movimento e ponto de partida.
inexoravelmente aproximo-me cada vez mais de uma casa
que só eu sei preencher de luz, de silêncio - e calor.

17 fevereiro 2013

Espera

ele tarda, ela não chega, 
os carros na rua permanecem os mesmos. 
os cães ladram e o jantar arrefece. 
nunca fui feliz em serzedo, ainda menos
aqui… seja em casa, nas lentas cavernas 
onde durmo algumas noites, ou em lares
e camas emprestadas para umas horas apenas.
noites estranhas que culminam os dias trabalhosos,
sangue e dor. gritos primordiais. flash de amnésia
e uma imensa solidão interior na madrugada
de mais um dia em que se entra de pé em riste.
nenhuma paz. gritos e ódio. nervos no cancro da pele.
conduzir horas e horas a fio, fio negro à minha frente,
quilómetros de nada enquanto a manhã avança
até casa. todas as janelas fechadas. ninguém 
dentro de mim ou fora. silêncio agora. sem pânico. 
vazio 
enquanto meto a chave na fechadura. mais porta
do que passagem, entro. sofá durante horas a ver
a névoa do dia a crescer. mais cinzento que eu.
dormitar vestido com a cabeça ainda cheia de ruído.
acordar com o toque assimétrico da chuva nos vidros.
dormir outra vez. 4 horas em que me posso esquecer
de tudo, menos de mim que existo dentro desta cabeça,
nesta forma incompleta e incomunicável - e nada acontece.
bip-bip-bip do relógio que herdei do meu avô. realidade
high key da janela enquadrada em torno da madeira 
e ninguém com quem falar. nenhum divertimento mais a ter.
4 horas ilusórias em que me posso esquecer de tudo, 
menos de mim que existo dentro desta cabeça, desta forma 
incompleta.

14 fevereiro 2013

Dias assim


esperamos que o amor nos entre portas dentro
enquanto esperamos à janela uma palavra 
que nos fixe ali, naquele momento de encontro.
a mesa está posta, o vinho servido, a casa quente
- faltam somente as vozes para dar música às paredes.




13 fevereiro 2013

Reflexo esquecido


sempre que como maçãs volto a sentir o teu sabor, 
fruto quente de agosto gostoso, 
reflexo esquecido das minhas mãos nuas.

12 fevereiro 2013

#77


Crime ou castigo

ainda não me explicaram se sou o crime ou o castigo,
o acto ou a consequência. entregam-me as mãos abertas
sobre os livros, os rastos poluídos da psicose da entrega
marcados na pele, no cansaço dos olhos que se escondem
retribuindo o olhar. falo de fotografias, em olhar na varanda
do olhar do outro, ver o que o outro vê sem o alcançar, sem
conseguir agarrar o tacto e os cheiros da presença... pensamento
libertado e feito coisa física e criação pessoal. há apenas silêncio,
os meus olhos, imagens mal-formadas, intenções dúbias e inuendos
digitais - um silêncio de morte planificada sobre tudo isto.

11 fevereiro 2013

#107

Porto, 2013


há locais que me fascinam porque não deveriam existir.

10 fevereiro 2013

Bifocais


debaixo das lentes bifocais da culpa
espero 
pacientemente a tua voz de cadela 
com cio vinda do outro lado, intocada
ainda pelos ácidos da minha saliva,
pelas distorções dos meus sentidos.
não te conheço. tu não me conheces.
vivemos desesperados sendo o que 
somos em separado, tendo a certeza
que a união seria fugaz e não apagaria
o teu imenso desejo - e impossibilidade -
de viver plenamente um segundo apenas
na vertigem da velocidade alucinante.
não nos pertencemos e isso é libertador.
sei que se houvesse oportunidade e lugar
tu te entregarias de quatro, o rabo empinado 
para mim, de costas para não me veres 
e eu ser mais um momento de fantasia;
de costas para te poder matar quando quiser…
como se tu quisesses morrer e isso te excitasse
ainda mais. a tua maior invenção inútil sou eu.
sem utilidade nem corpo como uma miragem 
no lonjura do deserto, sem calor nem forma
que não a que a tu me deste. e excita-te o controlo.
sei que as tuas mãos são pequenas, o teu corpo
esguio e que andas como se assassinasses 
cada segundo de sangue que respira em ti. sei
a tua voz e sei as verdades relativas do que dizes.
numa cidade desconhecida espera-nos uma tarde
para me infectares com o vírus da existência.

06 fevereiro 2013

#10


Sem tempo para escrever


porque será que os poetas não escrevem 
sobre as mãos molhadas da loiça fria? 
também nunca lhes escutei nenhuma palavra
sobre os dedos gretados pela normalidade,
o cheiro a comida na roupa, as mãos sujas
do cheiro a alho e cebola, as cicatrizes da vida
regular e comum - como se no mundo todos nós 
fossemos ou criaturas de outro mundo; ou amantes
de todos os dias; ou animais políticos engajados; ou
apenas surrealmente doidos e inconsequentes 
no exercício de desconstrução da realidade. contudo, 
há palavras demasiadas e demasiado grandes
e, por isto, insignificantes demais para o mundo como é:
para regular a morte do amor, a limpeza da sanita no coração,
a pia entupida entre palavras e a língua, a economia entre
os sentimentos e o dia para viver amanhã, mais um sem fim
de horas para nada… para o crescimento do desinteresse
rodeados de estranhos familiares, talvez haja uns minutos.
e disto eles falam: da estranheza do viver, do exercício social,
da impossibilidade do contacto e da comunicação perfeita
- mas por códigos, ocultos nas sombras das letras, sibilantes
como quem não sabe do que fala e tenta parecer que sabe.
desconfio de poetas. escondem monstros dentro deles.
monstros inteligentes e selvagens que mudam e escondem 
veneno na saliva, na tinta que lhes suja os dedos, nos olhares
silenciosos para as coisas, nos silêncios arritmicamente
respirados que nos dizem a cadência do mundo:
"sim! sim! sim! três vezes sim! estou vivo - e não sei o que fazer!"
e depois vão lavar a loiça e ficam sem tempo para escrever.

03 fevereiro 2013

31 janeiro 2013

destruir/criar


destruir

passo os dias inteiros a sorrir ou a tentar sorrir
quando só consigo sentir uma árvore de ódio 
a crescer em mim, as raízes a descer do coração
aos pés, entrando na terra que me rodeia tornando-a
tão estéril quanto eu sou e sempre fui. onde toco
a vida apodrece, os sorrisos morrem, a pele perde
a sua juventude e fica amarela como a dos velhos.
é este o meu dom - destruir tudo o que toco. odeio
o próprio sangue desta confusão, a minha depressão
de tudo que não passa, as entregas estúpidas 
e as mais estúpidas tentativas de lhes encontrar 
sentido. odeio as horas desperdiçadas no trabalho
e a trabalhar quando podia estar a viver melhor
e a não me preocupar com nada, excepto os impostos,
a burocracia da vida, o preço por ser cidadão pleno
da ilusão de primeiro mundo. odeio estas palavras 
falsas e inúteis, que dizem tudo e não explicam nada
do que realmente acontece. odeio este ódio, 
a incompreensão e o sabor dos sexos amargurados,
o falhanço de querer ser mais e não chegar a ser nada.


criar

por isso digo é preciso destruir tudo o que o passado trouxe.
por isso digo que é preciso fuzilar todas as memórias, tudo
o que os dias nos deram para sermos felizes sendo quem somos.
por isso digo que preciso de me ser outro. esquecer-me de mim
todos os dias, todas as horas. deixar respirar as horas em mim
e pensar na sande que me espera quando chegar a casa, no vinho
quente que acompanha a refeição simples, no fumo depois do jantar
e o banho a escaldar antes da calma do meu sono, sozinho, porque
afinal é assim que nos ensinam a existir desde cedo e porque nada 
vale mesmo a pena, excepto existir para mais outro dia sem pensar
em nada, sem sabermos mesmo quem somos ou nos interessarmos
minimamente por isso. talvez um dia, assim reinventado o mundo
num turbilhão de novidade inesgotável, seja minimamente confortável
e até divertido acordar à mesma hora, todos os dias, para o resto da vida.

30 janeiro 2013

Não se passa nada


os cães ladram e não se passa nada:
o arco desta travessa arqueia ainda,
o rio corre como um esgoto bucólico,
a mesma luz na janela fechada. 
o telefone não vai tocar hoje. nenhuma
voz vai atravessar este vazio. os ecos
que me chegam não trazem nada bom: 
as paredes dizem que o presente esgota
placidamente as suas horas e relatam
confusões profundas dentro do interior
da minha cabeça calculadora negativa.
entretanto mais um dia escorre na torneira
e eu escrevo novamente na cozinha, 
costas para a janela doente, e sempre
o cigarro estúpido a queimar as horas 
a pensar sempre o mesmo: ninguém nos vê. 
não existimos. os espelhos não conseguem 
devolver aquilo que nunca possuiram.

os cães calam-se subitamente.

alguém desliga a luz.

não se passa nada.

An almost made up poem

I see you drinking at a fountain with tiny
blue hands, no, your hands are not tiny
they are small, and the fountain is in France
where you wrote me that last letter and
I answered and never heard from you again.
you used to write insane poems about
ANGELS AND GOD, all in upper case, and you
knew famous artists and most of them
were your lovers, and I wrote back, it’s all right,
go ahead, enter their lives, I’m not jealous
because we’ve never met. we got close once in
New Orleans, one half block, but never met, never
touched. so you went with the famous and wrote
about the famous, and, of course, what you found out
is that the famous are worried about
their fame –– not the beautiful young girl in bed
with them, who gives them that, and then awakens
in the morning to write upper case poems about
ANGELS AND GOD. we know God is dead, they’ve told
us, but listening to you I wasn’t sure. maybe
it was the upper case. you were one of the
best female poets and I told the publishers,
editors, “her, print her, she’s mad but she’s
magic. there’s no lie in her fire.” I loved you
like a man loves a woman he never touches, only
writes to, keeps little photographs of. I would have
loved you more if I had sat in a small room rolling a
cigarette and listened to you piss in the bathroom,
but that didn’t happen. your letters got sadder.
your lovers betrayed you. kid, I wrote back, all
lovers betray. it didn’t help. you said
you had a crying bench and it was by a bridge and
the bridge was over a river and you sat on the crying
bench every night and wept for the lovers who had
hurt and forgotten you. I wrote back but never
heard again. a friend wrote me of your suicide
3 or 4 months after it happened. if I had met you
I would probably have been unfair to you or you
to me. it was best like this.


Charles Bukowski