12 março 2013

Para contar à lareira

deitados, conversando cansados e olhando o trapézio das quatro 
linhas do tecto, descobrimos os nossos egos equilibrados 
nesta cama
estreita e dura longe do frio húmido, da chuva, da solidão das
ruas rasgadas na pele durante horas acumuladas no vazio.
não, não te vou perguntar pelo teu passado. não o quero saber.
se o contares, vou escutar e esquecer. e tentar compreender-te 
como és agora - não o que te trouxe aqui e a esta forma de mim.
escutamos um rumor, uma língua estranha e nova; guardamos
o alfabeto secreto das nossas peles debaixo da língua - para falar 
melhor quem somos agora que temos horas e silêncios, segredos
- e que começamos uma história conjunta para contar, mais tarde,
à lareira.

Cama estreita


deixa estar o mundo, a gente consegue fugir
à roda da rotina, aos gráficos do cansaço e
às químicas absurdas da luz; às horas 
e ao espaço, às pessoas que nos rodeiam,
ao vazio lá fora, ao silêncio estéril e poeirento
de mais um dia de horas acumuladas. não importa
onde, mas há o golpe de sorte de uma cama estreita
onde nos apertarmos, um termoventilador a sussurrar 
o seu calor fechado neste quarto espartano, quatro 
paredes da nossa privacidade onde oferecemos
o corpo às bocas e às mãos e depois ao calor do sono,
adormecendo apenas com a certeza absoluta dos braços 
que nos seguram e impedem a nossa queda no vazio.