10 abril 2014

A análise dos pixeis

Não há poesia no corpo nu da Irina Shayk. 
Ele não fala. As revistas, os monitores, as fotos
permanecem em silêncio perante o nosso olhar
solitário e amoroso - crianças que descobrem 
um amor feito corpo, feito ilusão, feito miragem.
Acredito que mesmo a carne dela não fala quando
o toque cai de dedos outros para a pele dela. Silêncio
e vazio cósmico. Superfície plana do desejo, espelho
que se deixa beijar. Contudo, ainda menos do que isto
dirá a sua boca longínqua e de sorriso gravado
e fechado - segredo de um segredo intransmissível.

O perfil, longe de uma identidade ou de um traço 
de vida é uma forma de compreensão, entendimento.
Perfis paletas de fantasia construída, interpretações
de ecos - palavras e carne do cérebro significador.
Ela não é mais que luz fria, matéria inerte. 
Constelação de átomos.
Contudo, não há poesia nesta nudez, resto de pedaços
de bocados de madeira, papel simples coberto de tinta 
em manchas gráficas construtoras;
estátua de sal que olha a nossa solidão de longe, 
expressão nua do vazio de onde emergimos rochas
molhadas na luz da manhã. Uma perfeição demasiado
perfeita magoa os olhos. Mas nenhuma água
nos devolve uma pureza que nunca possuímos.
Só noites passadas em claro procurando o amor
ou algo que encha o nosso medo do escuro ou 
dos olhos fechados com que tentamos ver.

As palavras são débeis para provar o que se faz
e mesmo as acções não têm valor neste mercado.
Mas disso ela não sabe, nem tu. Ela tem o seu reflexo,
tu os teus esquecimentos, ócios, falhas, tempo perdido,
as tarefas do dia que te roubam o pouco tempo que tens
para habitar o teu espaço no mundo. Por isso olhas 
as bancas das revistas procurando um sonho, poesia
para o teu sonho molhado: um pedaço de sonho 
que se pode moldar com as mãos e arruinar.