29 dezembro 2012

a resposta aos pedidos de ajuda:

hoje não me dá jeito.
não acho boa ideia.
não tenho espaço no meu tempo.

26 dezembro 2012

Nino


é uma frase fraca, mas é a verdade:
as circunstâncias da morte não me deixaram
dizer-te adeus. estar a teu lado a segurar-te 
as mãos que tinham perdido toda a força, 
que lentamente se tornavam lisas planícies
que olhavas todos os dias sem uma palavra.
tive de escolher entre confortar-te a ti ou cuidar 
da confusão e dor da minha mãe, lágrimas
que irromperam demasiado rápido à superficie.
olhei melhor e pareciam ter estado sempre ali.
a minha mãe tão velha e frágil no âmago
deste turbilhão, o pai dela, meu avô, homem forte
que pegava em mim ao colo aos 80 anos, morria. 
o corpo ruía frente a nós e não havia tempo para nada.
tive de confortar os vivos, dizer-lhe suavemente
calma, fizeste tudo o que pudeste. ele sabe.
não podes fazer mais nada. e na minha boca soavam
mal estas palavras, simples como um desenho de criança.
minha mãe dizia-me acho que o teu avô está a morrer.
e dizia calma paizinho, respire. calma. está tudo bem.
como quem embala uma criança assustada.
nas paredes pintadas da casa estava presa a tarde.
amarelo de outono frio e a sombra do que foste
correu veloz em direcção a uma parede sem saída.
sombras velozes na confluência do tempo. o médico, 
que fui buscar à casa da irmã de quem desconfiavas
pela sua religiosidade algo excessiva, dizia 
não podemos fazer mais nada. resta-nos esperar 
pelos momentos finais. depois saiu. tinha algo.
os vivos têm algo e a morte é sempre inesperada.
dei-lhe vinte euros pela notícia. não há nada a fazer.
não consigo enquadrar o terror destes momentos
com a pessoa que sempre conheci: a confusão, 
os ruídos pesados da respiração que enfraquece, 
a minúcia gélida e inumana do médico que te examinou, 
o som do corpo agitado sobre o colchão e os lençóis, 
o choro e um silêncio enorme que parece abraçar tudo.
saímos por uns segundos e tu deixaste de ser. 
e deixou de haver tempo para te perguntar como estavas, 
para me dizeres o poema daquele fado premonitório,
para me explicares como se trata a madeira e o ferro,
para me contares como a vida sempre se desenrola.
os rostos silenciosos espalhados pelas paredes frias
observavam-me a olhar-te do fundo da cama enorme
para ti e para a tua recém-reencontrada leveza. a morte
é uma coisa que nos muda. reconhecia-te os traços, 
mas já eras outro. como explicar, avô? já ninguém 
poderia tocar-te, sabes? a pessoa escondida
dentro do corpo e inexplicável pelos dados biográficos
tinha desaparecido. ficaram objectos marcados 
pelo uso que lhes deste, texturas aplacadas pelo rigor
das tuas mãos, memórias, coisas escritas, sorrisos 
esquecidos em fotografias a preto e branco. coisas
que nos conduzem a ti, mas faltas tu nelas. equilíbrio.
e agora que já passou um mês continuo a ouvir a tua
saudação "oh nino!!!" quando ainda me vias. não me 
esqueço, apesar de não te ver e não te conseguir falar,
e por isso escrevo estas palavras: para tentar entender
o que aconteceu e para dizer que quando terminaram 
as dores dos joelhos, nas costas, o peso de uma vida 
de trabalho duro e suor, havia pessoas à tua volta
preocupadas com a vida que sempre foi tudo para ti.
restaram estas palavras, construção sem cimento 
que não é poema, não é memória, não é nada. 
sou eu, completo, que deixo abertos os alicerces deste dia.

18 dezembro 2012

não ser lido é libertador

"Só queria dizer uma coisa que me parece ter ficado perdida no meio de tanto ódio mútuo e, depois, de tanta indiferença: muito mais do que querer possuir-te o corpo, queria a companhia do teu sono. As minhas noites e o meu dormir são por demais solitários. Foi isso que gostei em Barcelona, bastava acordar um pouco e estavas tu, viva, ao meu lado para negar as mortes várias em que durmo".

17 dezembro 2012

Cresce


nada significa nada. tudo é óbvio como um grito. 
só na minha cabeça há confusão. uma tempestade
lá fora. silêncio dentro de casa. espero o sono 
de olhos abertos. tenho frio. desconheço quem sou
e como deveria ser. tenho dúvidas. existo. não sou. 
tenho o vazio do mundo dentro de mim e estou 
coberto com pele e, sobre ela, uma manta simples
e laranja. não voto. não acredito. não compreendo 
o que me aconteceu e confundiu. digo metade 
do que falo e penso. dizem que o mundo vai acabar
e eu só penso em escrever linhas e mais linhas 
a explicar porque deves continuar ao meu lado,
pelo menos até verificarmos se, depois de dia 21,
o nosso corpo continuará quente e o teu húmido,
gruta quente onde me escondo todo dentro do teu
desconhecimento de quem sou, do que faço, do que fui.
há quem confunda amor com o cheiro a lixívia e homens
há que choram lágrimas de gin. é assim o mundo, cheio
de confusões e estranhas trocas de funções, pessoas.
todas estas palavras com que jogamos. noções.
intenções que gostaríamos de explicar melhor no papel
ou para alguém escutar. gostaríamos de nos saber.
contar como somos insubstituíveis quando pressentimos
que é o nosso ego que sente por nós - o que somos?
incapazes de sentir. dentro apenas um alçapão de fumo.
eles chegam e partem de carro. ficam dias frente a portas
fechadas, batem e esperam sem que ninguém abra. tristes.
pelas janelas, escapa-se a existência deles, outros, dentro. 
escolheram não fazer parte. afastaram-se o suficiente
para esquecer tudo o que aconteceu e viver assim. melhor.
passei horas a ver fotografias. tento organizar 7 anos
confusos e desconexos. a todos os segundos perco 
informação e sei lá que mais entre finos espaços. 
não ganho. as coisas desaparecem e eu fico a pensar
nelas. um tonto olhando uma bola que salta rua abaixo.
não há como a agarrar agora. o presente escapou. silêncio.
só há palavras mudas através de redes digitais. o orgulho
continua ferido e a falar mais alto. tudo inútil. desenrolar
a língua como exercício para o futuro que tarda, sacudir 
a morte que a cobre, o fel da desconfiança e da raiva pura
que me atira contra todos, espumando. escolhem o que me 
dizem como se disso dependesse a vida. medo… o que é?
há dias em que a minha pele parece arder, mas ninguém 
repara. dói-me a cabeça e não sei onde a esconder. oiço
verde, tenho nojo e continuo sem saber escapar ao que fiz.
sei nomear a gravidade, mas não compreendo a gravidade 
da situação. só frases. palavras para encher a boca 
de alguém que nunca teve nada a dizer; que escrevia 
como exercício para chegar a si - e que parou de escrever
quando compreendeu que essa estação não chegaria. merda.
consigo criar tudo, menos intimidade. a minha vida não pertence
a ninguém, nem mesmo a mim. a minha nudez cega corta 
as línguas, afasta as mãos, seca as palavras no saco da garganta.
quando falo, tudo em volta arde e desaparece em cinza. estou
nu e só no centro de um campo devastado no interior de mim.
tornei-me nada. é o que és, apenas te falta olhar melhor para ti.
            cresce.

06 dezembro 2012

04 dezembro 2012

"A minha experiência, depois de dois casamentos falhados, tinha-me feito compreender que, quanto mais dois seres se amam, mais se devem esforçar para se pouparem mutuamente a sua parte da noite, para deixar intacta a sua parte de luz. Mas é apenas uma teoria e pretende somente explicar por que me era tão difícil confiar-me à mulher que amava."


Vassilis Vassilikos, O Monarca

19 novembro 2012

Chuva


a vida é feita de coisas desaparecidas, de memórias
passadas. de imagens e vozes rompidas até serem
pó ou menos do que isso. muitas vezes, nem isso: 
confundem-se todas, pessoas, vozes, os sentidos,
quando nos tentamos abrigar neles para seleccionar
uma só que nos tenha marcado mais completamente.
passamos entre tudo isto e tentamos acreditar noutra
coisa que não nos medos que trazemos dentro, 
inconfessáveis, privados; distraídos deles pelo cacarejar
da televisão ou pelo lento zumbido dos computadores.
e a memória, essa coisa incompleta, devolve sempre
outros tempos: melhores, passados e iluminados 
por uma luz mais perfeita que a do cinema. mentiras.
reconstruções do que foi à luz da tristeza do agora, 
das incapacidades de todas as verdades, do apoio 
basilar que nos conduz à crença de que é possível
recuperar dias assim, ter novamente a mesma paz,
mesmo quando já não vivem as pessoas procuradas.
e assim vivemos, sonâmbulos enganados sem vislumbre
de qualquer realidade atrás das pálpebras fechadas, 
coladas pelas remelas da infância e pela solidão presente.
mas, quando olharmos para trás e recordarmos a liberdade
construída pedra a pedra, agora destruída cêntimo 
a cêntimo para a fortuna de que não vimos nem as cores, 
e as mãos que nos apoiaram e enviaram para a vida 
com um abraço fraterno, queimadas por séculos de trabalho, 
os paralelos das barricadas onde brincámos e a algibeira 
vazia na incerteza do futuro e as nuvens escuras que correm
sobre as vidas de todos, podemos pensar que esses tempos
estão lá atrás, que são apenas mais uma memória irrecuperável,
uma alegria básica de uma infância maior do que o corpo frágil
que nos foi dado. mas não. agora é a nossa vez de esquecer
todas as maravilhosas mentiras e criar um mundo novo com
todas as oportunidades que nos escapam por entre os dedos.

11 novembro 2012

"Não pretendia ir para lugar nenhum, não me lembrava de nada ou de ninguém, não desejava nada senão realmente metralhar o mundo. Um massacre que fosse mais real que toda a realidade em que as pessoas eram e não eram elas, morriam e não morriam, eram cadáveres e não eram, sumiam e não sumiam, amavam e não amavam, entregavam-se e não se entregavam, eram de todos e de ninguém, eram e não eram elas mesmas. E, afinal, para lá de serem ou não serem elas, perdiam a própria identidade".

Jorge de Sena, Sinais de Fogo

10 novembro 2012

O cadáver do poema

Brinco já com o cadáver deste poema
que, olhando melhor, nem isso chega
a conseguir ser. As palavras, monólitos
de papel ou de outra coisa qualquer,
são presenças inadequadas para exprimir
esta falta de... clareza. Posso escrever:
foste embora e cabelos teus aparecem 
no colchão nu e frio do Inverno,
mas isto não diz nada do que sinto dentro.
A crise chegou aqui também - ou talvez
nunca tenha saído de dentro de mim
sempre que faço da vida as palavras
possíveis
              ou
outras inutilidades para encher as horas
com algo mais que as melancólicas
observações que antecedem o sono.

Sem nenhum valor

O mundo avançou e tu

ficaste para trás, para horas
perdidas e inúteis investidas
num futuro incompleto. nunca
chegou a devorar-te a carne,
a fazer-te crescer sem plano
traçado ou definido, confuso
apenas por todos os elementos.
Afinal de contas, a vida real
já te abandonou há muito.
Continua a respirar, cumpre
esse reflexo que não sabes parar,
um cristal vegetal de carne rodeado
de paredes de gestos, palavras.
Sem te dar conta, esqueceste tudo:
como eras, de onde vinhas, o mundo
completo que querias apesar do medo.
Já não sabias como ser, mas continuaste
irrevogavelmente, a ser algo, uma outra
forma, mas ainda sem nenhum valor.

19 outubro 2012

sem terra


agora que não és daqui nem de mais nenhum sítio
vão continuar a lembrar-te sempre que lerem
uma palavra tua
ou
quando uma mulher que amamos, sem saber,
passe rápida sem olhar o momento demorado
em que nos prendemos. ao escrever-te agora
escrevo para todos os mortos que trago dentro:
avôs, mulher abandonada, pais que envelhecem
sem que se possa parar o tempo, eu mesmo,
cada dia mais embrutecido e silencioso. escrevo
para todos os mortos perdoarem o esquecimento
que é a sua lembrança. o mundo continua, é certo,
mas um dia todas as palavras serão o mesmo pó
inerte acumulando-se sobre o que fica para trás.
e a viagem é sempre tão curta, não é?

a morte é isto

A um homem do passado

Estes são os tempos futuros que temia
o teu coração mirrou sob pedras,
que podes recear agora tão fundo,
onde não chegam as aflições nem as palavras duras?

Desceste em andamento; afinal era
tudo tão inevitável como o resto.
Viraste-te para o outro lado e sumiram-se
da tua vista os bons e maus momentos.

Tu ainda tinhas essa porta à mão.
(Aposto que a passaste com uma vénia desdenhosa.)
Agora já não é possível morrer ou,
pelo menos, já não chega fechar os olhos.

Manuel António Pina, in "Nenhum Sítio"




01 outubro 2012

Calafetar


e esta navalha, reflexo condicionado
e devolvido. mais um corte, outro
fim. detesto ver estas lojas
fechadas, os gumes cortantes 
das janelas partidas, carros caros
e pessoas baratas confusas, som
repetido na sílica do vidro solto.
reflexos. em conversas banais.
passo a passo do conforto, refluxo 
gástrico do meu sono despertado.
aqui me desloco num tempo-espaço
emprestado, entre sons estridentes
ou vozes de morte que são medida
e cor do meu falhanço, pressentindo 
que as letras gravadas à força de metal
não são suficientes para prender 
mensagens ou sangue. ninguém olha.
mais lojas banais fechadas pela crise
ou
pelo modo como pararam no tempo
ou
pelos shopping cogumelos dos subúrbios
ou
pelo desinteresse irónico pelas coisas banais
que, afinal, eram tudo o que se pode ter 
para calafetar as paredes finas contra o inverno 
rigoroso
da solidão e da velhice.

06 agosto 2012

esclarecimento


aquilo que todos os poemas dizem
por detrás dos lugares menos comuns
do amor, do ódio, do tédio da vida normal,
das incidências do olhar sobre objectos comuns,
pentaprismas de emoções e demais nadas,
é simplesmente,
morram todos que estou cansado desta permanência. 

30 julho 2012

a final


desta vez parece-me que será a final. alguém muito mais do que eu sou disse uma vez que "continuar a escrever quando não há nada a dizer é um crime". e eu acho que já deixei de ter algo a dizer há muito tempo. repito-me. adiciono sem acrescentar. atiro pedras a um lago congelado: não causo ondas, não apresento nada de novo. falo de mim e do amor. do amor em mim. do lugar das pessoas no mundo e outras banalidades. o mundo passa-me ao lado. e ainda assim sei o que se passa. o facto é que deixei de me importar. passei a vogar à tona da água. acordo para as rotinas e passo por elas. chego ao fim do dia e tento ser feliz. vejo televisão para matar o pouco entendimento que me resta ao fim do dia. e as palavras e as ideias são coisas bonitas e inúteis. têm o mesmo valor moral de um spot publicitário a uma empresa de créditos. lá fora chamam pela liaaaaanaaaa!!! e isto não significa nada. saem do café como quem encontrou um motivo maior para estar feliz, e se calhar até encontraram. pronto, acaba assim por agora. 

Dois poemas menores e um texto


o homem polímero

SAÚDEM A CRIAÇÃO MODERNA!!!
O HOMEM POLÍMERO!!! 
PELA PRIMEIRA VEZ RESISTENTE!!!
PELA PRIMEIRA VEZ INQUEBRÁVEL!!!
PELA PRIMEIRA VEZ INFINITAMENTE!!!
PELA PRIMEIRA VEZ DIZER QUE SIM
INFINITAMENTE A TODAS AS PROPOSTAS!!!
SIM, NÃO INTERESSAM CONCEITOS, PRECEITOS,
VALORES, PELA PRIMEIRA VEZ SEM CORAGEM
PARA RESPIRAR FUNDO E GRITAR!!!
PELA PRIMEIRA VEZ INFINITAMENTE SIM!!!
PELA PRIMEIRA VEZ NÃO DEIXOU DE EXISTIR!!!
PELA PRIMEIRA VEZ ÚTIL COMO O SILÊncio imenso
que caiu sobre as vozes sem calar o seu ruído; folhas
secas cheias de conhecimento de nada, ilusões de pessoas
que se multiplicam e enchem o mundo sem significado.

lado nenhum da vida

dizem-me que disseste que estiveste quase para morrer.
é nesta incerteza do diz que ouve e que o que se ouve 
significa aquilo que as palavras dizem mais claramente
no preto-branco do dicionário que vou escrever este poema.
não tenho vontade de continuar a escrever estas coisas
transitórias, cheias apenas do ar que as torna audíveis
e palpáveis. ainda assim continuo a escrever-te e a sentir
a tua falta. ora, eu posso dizer que morri. desapareci em cinza
e passei para o outro lado de mim. não passa um dia sem tentar
compreender onde nos perdemos… refaço vezes sem 
conta um caminho queimado que o tempo começa 
a tapar com os mesmos paralelos cinzentos da infância
e as silvas onde aprendi a brincar enquanto prédios eram
construídos e ocupados por gente estranha. e, sabes, 
nunca chego a lado algum. tudo parece ter desaparecido 
continuando lá. refeitos os dias e as horas e todos os gestos
agora, sob uma luz diferente, e somos outros agora, 
como sempre fomos e apenas não conseguíamos ver.
é domingo, e um poema destes só poderia ser escrito
a um domingo, quando todos os telefonemas falharam 
e nem amigos nem mulheres encontraram tempo 
para ti, para a companhia dos teus problemas 
e pouco mais. e isto seriam umas quantas palavras mais 
trocadas entre si, vozes cruzadas e linhas que se tentam 
fechar em círculos sobre a compreensão. e tudo isto é nada,
e tão belo. e então chegas tu, ou mais uma imagem de ti,
e é como se nunca tivesses partido de mim, muito tempo 
antes de nos separarmos da carne que nos unia. 
e preocupo-me outra vez contigo,
pergunto-me onde estarás ainda… 
sinto-me estúpido e sei que sou e muito,
uma vez mais, pela inutilidade de tudo isto e por saber,
lá bem fundo onde tudo isto significa sentimentos apodrecidos, 
que nada disto passa por ti agora. esqueceste. a verdade é essa. 
e fico eu, poeta homem feito poeta panuca, a lamentar-me
e a procurar-te em outras ao domingo, a tentar reencontrar
uma pista de ti neste trajecto de ideias feitas gesto, feitas sons, 
refeitas novamente noutras ideias - agora de quem lê.
é este o equilíbrio da balança: 5 anos de bem para 5 anos de inferno.
os pratos vão equilibrar-se um dia, a estaca zero do recomeço. 
acima de tudo, um dia tudo voltará a fazer um sentido mais pleno
e deixaremos todos de estar à espera de oportunidades sem sentido, 
sentados dia após dia nos mesmos sítios, rompendo as pedras 
de um caminho que está sempre parado demais. as águas, aqui,
não correm. passam arrependimentos, estas moléculas  de egoísmo, 
de carácter ferido. e o que acontece agora do outro lado do mar?
sudoeste da minha imensa confusão… ondas, palavras 
como ondas, ondas como um prazer prático correndo sobre a pele.
e um dia aquela sensação de tocar alguém voltará a ser algo maior 
quando toco alguém; não será mais um roubo, um sentimento de violação,
mais um roubo. os anos passam e será uma vez mais a entrega plena. 
a questão básica, desconhecida e tensa. e por agora, enquanto continuam 
a olhar-me como a um menino e por dentro sempre existiu um homem 
reavaliando penosamente quem é com olhos limpos: 
nem um passo mais perto dos objectivos; circulando num ritual animista 
as mesmas passadas pesadas do ritmo dos antepassados que nos trouxeram aqui, 
a este lado nenhum da vida.


o meu funeral

por força de circunstâncias fora do meu controlo, tenho pensado muito no meu funeral. inevitavelmente, acaba por me ocorrer a música "o teu funeral" de censurados e os piores coros da história da música portuguesa. e estou a ser simpático porque até gosto de censurados. apesar desta associação demasiado óbvia, não nos esqueçamos do que faço aqui. literalmente. o pensamento recorrente é este: serei reconhecido pelo quê? não no sentido mesquinho do engrandecimento pessoal e do ego das grandes obras e da memória colectiva (ou o menos mesquinho possível tendo em conta o tema deste texto), mas para tentar descobrir como sou fora de mim. como sou na boca dos outros, daqueles que a trazem perto do peito. é uma ginástica complicada esta. os sopros da fala, como quem diz respira coração, que teriam a dizer? ando a tentar descobrir se acertei em alguma das coisas que tenho vindo a fazer… ou se apenas existo em 1000 avos de segundo ou menos, num equilíbrio triangular entre abertura, velocidade e iso. efemeridade. decisões rápidas e a verdade é uma coisa por demais desconhecida. numa perspectiva mais darwinista, este interesse súbito prende-se à necessidade de saber como é a minha imagem de animal sobrevivente. se efectivamente sobrevivo ou deixo andar a ver como correm as coisas, como se voga no rio. 

afinal de contas não posso ser criticado: apenas procuro o significado das coisas.

19 julho 2012

Gestos habituais


a poesia é como um gato que não sabe brincar:
desinteressante, agressiva, inexplicável. estou
cansado. repito-me, mas é esta a verdade. estou
cansado. estou cansado e sangro e hoje deram-me
amor sem pedir nada em troca. estou cansado e 
sangro e hoje vi lágrimas e gritos e terminei o dia
separado. estou cansado e sangro e estou feliz
apesar dos passados que me perseguem. não 
quero mais poesia nem boas palavras, sonhos 
fátuos que me cegam às evidências: não amamos
a mais ninguém do que a nós mesmos - por isso
não consigo compreender o porquê do teu carinho
hoje de manhã, tentando recompor as minhas costas
partidas, tortas, doentes. escrevo-te este último poema
porque não me pediste nada em troca e te conseguiste
comover com o gesto, por demais habitual, que tentava 
sossegar o susto da vibração do telemóvel que chama
na manhã sonolenta - e fazia-me falta estar vivo assim.

10 julho 2012

Praça dos Poveiros - 2012

29 junho 2012

O que faz um lar


não são as paredes que fazem um lar.
é o calor que fica entre os tijolos, a pele
perdida sobre a tinta, as camadas de tempo
acumuladas como pó sobre os tacos. 

21 junho 2012

Anónimo


agora outras palavras para encher os mesmos significados. é este
o reverso do silêncio, da ironia: ódios ciciados, o cochichar eléctrico;
a televisão está longe e já não serve - é preciso despertar novamente,
encontrar algo novo para sacudir o torpor dos olhos e dos dedos. olha,
antes de mais, a moral e a verdade são conceitos que não pertencem
a ninguém: apropriamo-nos deles para dar valor às crenças, aos actos,
para explicar quem somos e porque razão fazemos o que fazemos. 
ouvem-se as palavras, mas as vontades ficam por cumprir. limitamo-nos
a ser, preguiçamos por sofás alheios o nosso tédio, o privilégio burguês
que nos permite considerar as acções dos outros à luz do querer, nosso, 
as influências dos astros sobre as personalidades e os humores, deles,
a profundidade e a qualidade de algo tão abstracto como a proximidade
e, sobretudo, sobre quem queremos ser aos olhos e mãos de outros.
estas considerações a dois tempos, como os motores afogados das motas
da minha infância, que subiam como sisífos mecânicos a rampa da rua, 
são apenas outros reflexos da preguiça que nos anima, animais contentes
e enfartados, sem grandes problemas, que precisam de se confundir
para se sentirem um pouco mais vivos. o amor que escrevo, a minha forma
de amar ou de explicar a confusão do amor, não é um axioma, muito menos
é verdade: são palavras alinhadas, uma construção que se pode encher
de ar ou de água, de gritos ou suspiros; é um balão que toma a forma-leitor
e que fala (quando chega a falar) da confusão, da falta de certezas, 
dos caminhos que se tomam, sentidos na flor da pele ainda jovem, 
coisas que todos sentimos e que eu limito dentro do alcance destes signos. 
se tivesse de fazer da minha poesia uma só imagem, escolheria o branco,
a saturação de tudo, a presença de tudo no exagero da luz que cega, 
que corta, que magoa, que esconde. explico ainda melhor, escrevo 
para esconder quem sou, as certezas que tenho, para explicar os medos 
que nos conduziram a tudo isto, a esta confusão de formas e sentidos.
posso também dizer, não me procurem no que escrevo. são fragmentos
que nunca conduzirão a quem sou mesmo - porque sempre um rosto
reconstruído é mais um rosto falseado - acrescentamos muito mais de nós
do que da verdade a que tentamos, sempre, agarrar os nossos receios.

18 junho 2012

Coração de pedra


a saber: tenho um coração de pedra e amo. tenho amor de pedra para dar
a quem eu escolho, sem prender esta pedra em alicerces vãos de edifícios
tortos; tenho uma pedra no lugar do coração que me sustém na queda; 
sou uma pedra que se afunda só, escolhendo a proximidade quando quer.
sou uma pedra fria fundida no calor certo; mãos certas trabalham-me. 
sou eu que escolho quem me trabalha e quando; a solidão não assusta
as pedras, porque o mundo é uma pedra e vivemos sobre ele. alguém
vive sobre mim, ocasionalmente. sou uma pedra e sou quente sob o sol.
já me escondi nas sombras, mas a erosão revelou-me novamente. sou
completamente pedra sobre o sol, impossível perda - ardo sendo mundo.

14 junho 2012

Riga


Riga, cidade estranha dividida pelo mercado, antigos
hangares de zepelins quando sobre a cidade pairavam
foices e martelos e as botas mortas de outros nazis;
e pelos comboios de carga que ainda consigo ouvir
no quarto onde estou hospedado. As ruas aqui ainda 
têm os nomes da revolução: estou na rua do povo, 
entrecruzada com a rua gogol, Gogola iela. de manhã,
entre o meu sono e a janela aberta, gritos dos vendedores,
os produtos que despertam para mais um dia de venda, 
debaixo da chuva, debaixo dos olhos tristes acumulados
sob os tectos altos cheios de ecos e as caras muito pintadas
das mulheres. devia ser deprimente na altura. ainda é agora. 
entre os armazéns vazios e ruas desertas, bêbedos e velhas, 
velhos bêbedos amputados se por bombas ou gelo ou necessidade
não sabemos. dormem nas ruas, nas pontes até chegar a polícia 
para os afastar. do outro lado é o bairro russo, uma continuação
das mesmas casas deprimidas, opressivas, desequilibradas, 
velhas, gastas, das mesmas garrafas vazias, dos mesmo corpos
vazios e de alguns jovens com pinta de mafiosos russos sem potência. 
por cima de tudo isto, a torre imensa da academia das ciências, 
foices e martelos no topo, gotham sem poesia noir e o silêncio total
das ruas vazias. estamos a dez minutos a pé do centro, a 3 passos 
de hugo boss, versace, louis vuitton, de sonhos feitos de vidro, 
cimento e de casas saídas de um sonho eslavo. ruas amplas
e bares e restaurantes e turistas e carrinhas de polícia para segurar
a miragem; mulheres lindas de morrer que passam cheias de frescura
e leveza e olham e sorriem e o mundo pára e depois passam 
e tudo recomeça: bentleys, mercedes, bmw's, turistas, cerveja
e mulheres lindas de morrer que passam e te ignoram e o mundo pára,
ainda assim, para as ver passar debaixo destes tijolos, submetendo
as pedras do caminho sob tacões afiados. aqui a depressão é outra,
é a recuperação, negócios de venda e compra, especulações totais 
e portas a bater interrompem-me,  continuo neste hostel muito hostil
onde estou há dois dias. os russos que aparentemente vivem na sala
de convívio continuam a tossir e a fumar, tudo cheira mal. chegarei
novamente a casa com os dois rins? imensa paranóia
entre os gritos das gaivotas e dos corvos. riga, duas cidades, 
a riqueza separatista do centro que alastra como como cancro
sobre as margens do rio, até englobar tudo sob a mesma alçada
unificadora. mundo de sonho, limpo, onde todos os olhares seguros
se reúnem e corpos se cruzam, sempre anónimos e anódinos.
feira da ladra todos os dias, escondida entre lojas e paredes arruinadas.
um portão em folha de zinco marca a entrada, vagabundos acumulam-se
em volta vendendo pedaços de coisas em cima de revistas velhas, 
partilham em grandes baforadas o péssimo vinho da manhã e antigas
palavras em russo incompreensível. entre eles uma mulher de lenço
e óculos escuros, estranhamente nobre para o local, a vender relógio
de homem, colher de prata trabalhada, com o ar de quem espera
um autocarro para um sítio melhor da cidade. do outro lado do muro,
gritos em russo e letão, vozes que se agridem na manhã ainda incerta
e fria, cheiro a velho a pairar sobre poças de água ainda mais suja,
alcatrão. carros velhos, parados há anos, velhas caravanas, bancas
de madeira húmida, centenas de coisas, entrecruzamento de violências
e ideologias: capacetes nazis, capacetes soviéticos, condecorações
e medalhas de ambos os lados, carimbo das ss, balas, morteiros, 
propaganda imensa de morte, de poder, de supremacia bacoca
recuperada das margens dos rios sem ossos, já carcomidos 
pela lenta digestão do tempo e da terra. quando se volta a sair, 
estamos mais pesados pelo pó que trazemos em cima, memórias
despertadas que nos lembram o precário equilíbrio da história.
e depois o rio a dividir a cidade, as pontes cheias de trânsito 
numa cidade vazia, os barcos das travessias cheios de turistas
sorridentes, os trams e a melancolia destes passos esquecida.
ao lado do mercado, a estação de autocarros. sempre vigiada
pelos grunhos de fato de treino, óculo mosca, vestidos de preto
- medem-te mal sais do autocarro, não se pode facilitar aqui.
depois a estação de comboios e o relógio alto com as horas 
e RIGA garrafal e iluminada. pelo boulevard em frente chegamos
a um jardim que é uma das novas muralhas da cidade, a ópera 
nacional e o eterno céu dividido entre torres de vidro
e torres de igreja. entre o rócóco e a art nouveu e a funcionalismo
teutónico e o racionalismo mecanicista dos soviéticos. cidade
bombardeada, cidade de hotéis, cidade de restaurantes e cafés,
jardins e esplanadas, edifícios que caem lentamente sob o tempo
e o gelo, ruas que se alargam cada vez mais a partir do centro
e se fecham sem gente onde o dinheiro começa a terminar,
pontes, edifícios embargados, o mastodonte que será 
a biblioteca nacional parado do outro lado do rio, 
animal a quem acabou o dinheiro para crescer, torres do sheraton 
e de empresas russas. cidade bombardeada. catedral ortodoxa, 
estranha sensação no interior, debaixo da luz das cúpulas
e da profusão das pinturas, rostos, ouro, dos ícones 
que uma velha limpa com lenços de papel e ajax depois de se benzer,
da mesma forma como limparia lágrimas do rosto de alguém que se ama
ou mais ainda. o pedinte que, fora, exige esmolas de quem esteve lá dentro. 
cidade bombardeada. taparam as feridas com comércio, com hotéis.
está sempre de dia. nunca há noite real, como a conheço. sempre 
um brilho irreal, alvorada permanente e o silêncio de uma cidade 
vazia, cheia de ruelas e turistas que preferi ver de longe. âmbar
do báltico e outras recordações sobre-valorizadas e de mau gosto. 
sushi no centro e casais de vagabundos que deambulam nos parques,
zombies que se espancam lentamente, que todos ignoram enquanto
admiram os aloquetes que casais em casamentos prendem nas pontes.
limusines, hummers e jipes que concorrem entre si e eu, esperando
a vez de passar para o outro lado, admirando o edifício da ópera 
nacional, pensando como é que me escapou o amor e ficaram 
apenas as dúvidas, ouvindo os trams que parecem relíquias 
soviéticas esquecidas pelo tempo, cheias de gente que foge, 
as senhoras idosas que vendem flores de ar triste no final do dia,
pensando na viagem que tenho de fazer amanhã e em tudo o que vi;
abre o sinal verde e atravesso, outra pessoa, regressando a pé 
ao quarto onde vou passar o resto da noite que me sobra a pensar
como e quando vou conseguir recuperar e voltar a sentir-me completo.

02 junho 2012

Tudo isto é um erro

tudo isto é um erro.

o meu cérebro zeloso
corre silenciosamente
- sombra pela rua.

27 maio 2012

O que dói


é com a melhor das intenções, acredita.
vamos continuar, mas muito devagarinho,
como quem está parado e não faz nada;
como quem está só e não sabe o que fazer
para voltar atrás ou acabar com tudo de vez.
afinal de contas, as coisas só doem no corpo
que nos pertence, cujos ecos escutamos.
                o resto,
o corpo dos outros, não dói. nada. miragem 
de carne. ejaculamos ódio. lugares comuns
da língua e da empatia. no fundo, nunca deixar
de temer vida e os outros e as mesmas opiniões 
ocas. lamentar a possibilidade rara de fazer tudo: 
o querer do que sempre se quis. ser sempre
quem sempre se foi e sempre foi escondido. 
mas não. afinal de contas, não me dói nada fazer 
                o que dói em mim.

24 maio 2012

Ferrrugem


transforma-me num objecto e tenta ter prazer.
muitas vezes. mais do que eu conseguiria.
faz-me sentir, sem entraves psicológicos,
abruptas morais, incompletos contactos
regidos por luas, circunstâncias ou vontades.
solta-me. não vamos pensar. não agora.
afinal de contas, estas paredes são pedra 
e estão mudas. estas paredes não falam. 
estas paredes mortas não contam histórias
e são tristes sem nós. aqui és livre. não te julgo.
ninguém saberá uma palavra do que acontece.
lembra-te que enquanto esperas ossos enferrujam,
máquinas paradas e tristes cinzentas pelo tempo,
frágeis pelas circunstâncias em que os envolveram.
os ossos enferrujam, os olhos fecham-se, a mente
esquece quem uma vez fomos, como éramos
quando as palavras para as coisas eram outras,
quando tudo explodia e era real em si e nós,
nós só nos conseguíamos esquecer entre tudo.
pergunta: ainda te lembras do que é sentir assim? 

19 maio 2012

Reconhecimento


as pessoas amam na medida em que se reconhecem:
procuram um espelho na carne baça, alguém 
para reconhecer quem são quando mais ninguém olha.
de resto, mais um nome, outra cara, outro corpo arranjado
entre as lembranças de outros e inevitáveis comparações;
memórias possíveis, uma vontade incrível para contrariar 
as evidências caindo lentamente no poço profundo
onde se escondem os pixéis que já fizeram os dias.
o tempo passa e o mundo vai mudando à sua volta,
as vontades perdidas, os tempos desencontrados, 
os objectivos mútuos feitos aço sujo por detrás das palavras.
somos quem somos na mudança. quanto menos temos,
mais somos quem existe em nós na realidade. ilusões
completamente perdidas atrás de palavras insignificantes, 
sono, séries e filmes de má qualidade que servem para matar
o tempo e o silêncio. a verdade é a paixão transitória.
as vontades desrespeitadas surgem depois, inesquecíveis.
e depois... o verbo esquecer é sempre tão fácil de conjugar.

17 maio 2012

Olhos limpos


não tenho sótão e a casa é demasiado pequena
para as memórias. despojei-me das coisas. vivo.

não tenho luz nem velas. não ilumino. desconheço
o tempo. todo eu sou novo. viajo sem malas ou baús;
câmara apenas, duas objectivas, olhos limpos. 

16 maio 2012

Lugar para estacionar


Não és mulher. Não és senhora. Nunca uma criança te atravessou. 
Estás pousada no passeio, na beirinha, sem ouvir as palavras 
que desfio dentro da minha cabeça, sem sequer ver os carros
que deverias estacionar enquanto te desfazes em pó à chuva.
lama lenta dos cabelos brancos raros aos sapatos encontrados 
no lixo, demasiado grandes, casaco castanho de homem, olhos 
cheios de silêncio que não dizem nada. homem morto ambulando. 
o que foste? podias ter 200 anos que ninguém acharia estranho.
seria mais um número sobre ti, um peso mais que não faria diferente.
olho e pergunto-me quem foste. o empregado do café chama-te
boneco de neve à conta do teu cabelo branco e mudez alcoólica. 
o cabelo começa a rarear no topo. derretes? não és mulher. não és.
não és senhora. não és. sentas-te no passeio e fumas. trocas um euro,
compras vinho, adormeces no chão. acordas para o mesmo amanhã.
uma vez também te vi a explorar com a língua a boca de um homem, 
testa baixa, a mesma cara de neandertal dos livros. poucos dentes.
estava frio. não tive coragem para imaginar mais. aquilo chegou, 
uma mistura de asco e nojo e saliva. mais um cigarro. quem és 
debaixo do odor e do silêncio? quem és para além da mão que treme? 
                    uma moedinha… 
e deixas cair a frase, assim, como se nunca tivesses tido algo mais
para dar… que mundo te devorou a humanidade? e depois passamos,
continuamos a olhar as montras como quem não te viu e nunca exististe. 
esqueces facilmente. nunca ninguém te viu. passam-te carros por cima, 
o tempo, homens irreconhecíveis, fumo, o vinho mau, o calor das ruas 
e o seu cheiro a lixo e pedras, a pele esmagada, a cabelo sujo e tu 
permaneces, braço bamboleante basculante que indica o único lugar 
que ainda existe para estacionar - uma sopa, um croquete, um café,
                                                                                             um cigarro.

Misty.


por vezes há palavras que chegam de uma névoa.
sem cor, apenas mensagem envolta em incerteza;
vozes distantes para além da curva do tempo 
e do espaço. não sabemos o som, reconhecemos
o toque possível. acima de tudo ouve: não rasgues a pele. 
dela não é a teia que te prende e magoa; mas é ela que ilumina. 

04 maio 2012

Pensando racionalmente


pensando racionalmente, fui demasiado estúpido:
quanto mais não seja importei-me demasiado
tempo. dei voz a palavras que deveriam permanecer
mudas. entreguei corpo e segredos em corpo e ouvidos 
que nunca os deviam ter conhecido. mesmo agora,
quando escrevo estas palavras e as penso pesadamente,
signo a signo, graves e despersonalizadas que são
completamente fora de mim, compreensões abstractas,
sinto nojo pelo tempo perdido a escrevê-las e sei que, 
apesar de simples, são também muito mais do que mereces. 

é menos que nada

ainda assim, porque continuamos a tentar falar?
comunicar:
chegar à mente do outro com palavras, gestos, coisas.

as palavras são desculpas para a ausência de acção.

03 maio 2012

Es.co.la


"be cunning and full of tricks"

frase escrita numa parede e definidora de épocas


todos sabiam que a vitória seria breve,
mas ainda assim seria uma vitória. 
por um dia, breve também, podiam 
ultrapassar as fronteiras humanas 
impostas por deus, pátria, sociedade, 
família, polícia, capital, educação, 
orçamentos, vícios, espaços, fronteiras, 
propriedade, política, trabalho, preguiça, 
feriado, tempo, idade, e ser democracia: 
uma voz que se ergue do fundo, um corpo 
milípede que caminha numa só direcção.
sem astúcias básicas, sem truques. 
armados de verdades e megafones 
e de mãos nuas contra chapas e parafusos
e paredes sujas e fechadas.
toda a gente sabia que seria breve. um
momento apenas em que se ficaria sozinho
no poço silencioso das vértebras e sentiríamos
igual ao sorriso ao nosso lado. entre a chuva 
de vidro, de metal, e o ruído ensurdecedor 
dos bombos, há um momento pleno de certeza
que emerge, verdadeiro e completo. longe 
da mesquinhez de contractos; real, por fim.
no dia seguinte, de manhã cedo, regressariam
as nuvens negras, os cadeados, os polícias, 
os cassetetes, mais cadeados, aloquetes e outros
pés mais pesados, e ainda as câmaras e as luzes,
e ainda outras mãos para voltar a fazer esquecer 
a absoluta e agora silenciosa vontade popular.

30 abril 2012

Janela nuclear


não tenho palavras para meter a tristeza dentro.
sei que as rupturas nunca são fáceis, alteram 
rotinas, hábitos, pessoas. somos outros 
sendo ainda os mesmos. 
reparem, ainda ontem, sexta, passavam na rua,
dois casais e o desmarque, e voltaram para trás 
quando viram que era eu que estava ali, 
junto a mais um tasco fedorento, de álcool barato
e rua livre. 
acima de tudo, não gostam de me incomodar
com a nova felicidade, 
novos companheiros bons e brilhantes, 
mais calmos e sossegados 
e bem-sucedidos e com melhor alma do que eu. 
agradeço,

porque pessoas assim são por demais entediantes,
por muito interessantes que sejam quando se calam.
ainda assim é cada vez menos fácil ser entendido: 
uma pessoa só vale menos que fotografias desfocadas, 
do que duas palavras perdidas imediatamente entre o vazio 
que há a separar duas pessoas, 
do que telefonemas que ficam por atender ou entender
- somos 
gémeos desconhecidos separados à nascença entre as horas
que medeiam vontades separadas. 

sei bem demais que as rupturas, indiferentes a tudo,
pelo contrário, provocam tristeza, receio e desorientação
- e leio isto e recordo quando sentia fora destes moldes, 
quando não via os padrões, as sequências, 
as mesmas 
repetições de sempre, o meu imenso cansaço de tudo. 
acreditava
cego na cegueira, na vontade inquebrantável: alguém único
para fazer frente ao meu génio indomável. preciso de amor 
e não de sexo, mas ninguém acredita. o meu enorme cinismo 
fala e todos riem. mas ouçam mais uma vez: preciso regressar
a algo que não sei pôr em palavras enquanto o mundo cai
e se desmorona e as casas e os créditos e as economias
e outras mãos se transformam em pó. o plano traçado indicava
que acabaríamos por acreditar e ficaríamos a olhar pela janela 
envelhecendo com o mesmo espírito-livre, 
absolvidos de tudo,
enquanto tudo o mais teria morrido debaixo deste sol, 
desta luz única de um tempo que desaparece. 

Agora não procuro nada… quero sossego e estabilidade 
ou sempre algo mais,
a emoção fugaz de uma nova descoberta, novos cheiros e toques
que levam a nada, 
ao mesmo nada de sempre onde desaguam as emoções
como um rio que transformaram lentamente em esgoto.

não vou apresentar soluções. 

ficar pacificamente em silêncio ajuda.


29 abril 2012

Noite sem rasto guia-me até ao meu destino
escondido na solidão das ruas
inconcreto na vastidão das horas
onde tu existes misteriosa e nocturna
no teu perfil de bruxa e de rainha
apátrida e nostálgica
deslizando no vidro da madrugada
azulando de raios gelados o dia que nasce
viva e oculta
cada vez mais viva e oculta
cada vez mais única de amor humano
com a tristeza das luzes marítimas
com a gravidade de quem parte
suavemente para sempre


- Ernesto Sampaio
in Telhados de Vidro n.º16 (A Antologia em 2012,
de A Procura do Silêncio, Hiena)

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