30 janeiro 2014

Até à próxima manhã

Onde nasce o ódio? A fronteira de uma cama
marcando a divisão de duas pessoas
despindo as roupas do dia, cicatrizes e cheiros
misturados, de costas; os olhares para o chão
ou para as paredes que permanecem sempre
silenciosas. Onde nasce o ódio? Os telemóveis
finalmente silenciosos, a guerra aberta dos lençóis
- e os piores conflitos travam-se sempre no escuro,
nas luzes apagadas, nos olhares que se negam, 
nos longos e delirantes silêncios de água a correr
debaixo de pontes que nunca se encontram. 
Estas portas que explodem fechadas com estrondo, 
a pressão de todos os dias, a pressão que falta no duche,
a pressão das coisas por fazer, da canção por cantar 
em liberdade. As costas olham-se cuidadosamente. 
Há um calor breve que se expande na cama. 
Uma mentira que vai durar
até à próxima manhã.

26 janeiro 2014

http://childbirth.bandcamp.com/

22 janeiro 2014

No horizonte da solidão

não posso exactamente escrever o teu nome no gps e esperar 
que esta máquina e os seus satélites me conduzam a ti. 
não te vejo há anos, assim parece, 
não que tenha contado o tempo que passou: 
ele passou apenas, sem darmos conta. entretanto
perdemos as coordenadas; os mapas confundiram
os caminhos; perdemos o lugar, a hora, os sinais.
esta distância é como um arrepio que nos sobe pelos pés, 
pernas acima, tremor no sexo, breve memória da outra pele
- que não diz nada, excepto a sua existência frágil.
esperei demasiado. fiz muito pouco, demasiado
ocupado com as promessas de um futuro tardio demais. 
o mundo cresceu à nossa volta e caímos cegos num céu
de rocha negra, árvores solitárias cortadas nas raízes
do caminho. dias de sempre, tomados pelo labor
da morte em papéis, números e sangue. pesada ancora 
no centro de nós. porto sem viagens. a ausência pesa fundo.
e o que aguardar enquanto se espera amarrado ao medo?
hoje bastam-me as poucas noites que passo acompanhado
sem promessas nem amanhã certo, 
estranho projecto para o amor possível no horizonte da solidão.