15 novembro 2013

Wild is the wind


(o poema, por mais incerto,
corre sempre nos passos
que atiram dois corpos na cama.)

Amargas como o sangue

Inevitavelmente as drogas ficam amargas
como o sangue. É só tempo o que se perde,
dinheiro fácil, olhos vazios espreitando
o interior da noite sem ver mais nada 
que a escuridão habitual dessas horas.
Sair para a rua e encontrar uma exterioridade 
qualquer, algo mais do que o que vemos fora 
dos olhos. Mas não é aqui que a encontramos. 
É dentro. Na cadência do pensamento ou do verbo, 
acção interna. Mas é a rua o que temos. E é tarde.
Outra vez. Demasiado e continuar a andar só 
pode trazer mais confusão. Caminhar e as ruas
e os passeios estão imundos. Tentar esquecer 
e todas as bocas te trazem as mesmas palavras. 
E os olhos estão gastos nas esquinas das ruas 
e nas mesmas caras - e as mesmas mãos 
estendidas como ramos secos para cima, 
a sentir se o que cai é chuva ou um acidente
qualquer dos sentidos. Outras nos bolsos, quentes, 
sentindo músculos, sangue, nervos de paragem. 
Caminhando em direcção a outros corpos. 
As mesmas bocas de hálito fumo e secas.
Amargas as bocas, as drogas, o sangue.
E as ruas sem saída. Os bolsos vazios, sujos 
de sangue e com restos de papel e tabaco. 
E nem por isso mais cheios. Apenas a incerteza 
de tudo, o próximo passo, onde ir - o que o dia 
vai trazer no dia, que nunca tarda e chega
às horas certas da luz. Fumo. E o nevoeiro que cai
e torce a cidade no frio. E o nevoeiro que cai
nas luzes que se apagam. E ninguém a cavalo 
surge do nevoeiro para nos salvar, ou sequer
indicar uma direcção. Luz. E o nevoeiro que cai
sobre os olhos, o tempo perdido, a manhã 
submersa num resto de calor de dois corpos
juntos no naufrágio matinal de uma cama.