30 abril 2012

Janela nuclear


não tenho palavras para meter a tristeza dentro.
sei que as rupturas nunca são fáceis, alteram 
rotinas, hábitos, pessoas. somos outros 
sendo ainda os mesmos. 
reparem, ainda ontem, sexta, passavam na rua,
dois casais e o desmarque, e voltaram para trás 
quando viram que era eu que estava ali, 
junto a mais um tasco fedorento, de álcool barato
e rua livre. 
acima de tudo, não gostam de me incomodar
com a nova felicidade, 
novos companheiros bons e brilhantes, 
mais calmos e sossegados 
e bem-sucedidos e com melhor alma do que eu. 
agradeço,

porque pessoas assim são por demais entediantes,
por muito interessantes que sejam quando se calam.
ainda assim é cada vez menos fácil ser entendido: 
uma pessoa só vale menos que fotografias desfocadas, 
do que duas palavras perdidas imediatamente entre o vazio 
que há a separar duas pessoas, 
do que telefonemas que ficam por atender ou entender
- somos 
gémeos desconhecidos separados à nascença entre as horas
que medeiam vontades separadas. 

sei bem demais que as rupturas, indiferentes a tudo,
pelo contrário, provocam tristeza, receio e desorientação
- e leio isto e recordo quando sentia fora destes moldes, 
quando não via os padrões, as sequências, 
as mesmas 
repetições de sempre, o meu imenso cansaço de tudo. 
acreditava
cego na cegueira, na vontade inquebrantável: alguém único
para fazer frente ao meu génio indomável. preciso de amor 
e não de sexo, mas ninguém acredita. o meu enorme cinismo 
fala e todos riem. mas ouçam mais uma vez: preciso regressar
a algo que não sei pôr em palavras enquanto o mundo cai
e se desmorona e as casas e os créditos e as economias
e outras mãos se transformam em pó. o plano traçado indicava
que acabaríamos por acreditar e ficaríamos a olhar pela janela 
envelhecendo com o mesmo espírito-livre, 
absolvidos de tudo,
enquanto tudo o mais teria morrido debaixo deste sol, 
desta luz única de um tempo que desaparece. 

Agora não procuro nada… quero sossego e estabilidade 
ou sempre algo mais,
a emoção fugaz de uma nova descoberta, novos cheiros e toques
que levam a nada, 
ao mesmo nada de sempre onde desaguam as emoções
como um rio que transformaram lentamente em esgoto.

não vou apresentar soluções. 

ficar pacificamente em silêncio ajuda.


29 abril 2012

Noite sem rasto guia-me até ao meu destino
escondido na solidão das ruas
inconcreto na vastidão das horas
onde tu existes misteriosa e nocturna
no teu perfil de bruxa e de rainha
apátrida e nostálgica
deslizando no vidro da madrugada
azulando de raios gelados o dia que nasce
viva e oculta
cada vez mais viva e oculta
cada vez mais única de amor humano
com a tristeza das luzes marítimas
com a gravidade de quem parte
suavemente para sempre


- Ernesto Sampaio
in Telhados de Vidro n.º16 (A Antologia em 2012,
de A Procura do Silêncio, Hiena)

neste blog

A letra S





escrito entre 2009 e 2010

the monster under your dreams



28 abril 2012

Para escrever

para escrever é preciso mais do que palavras,
mais do que largos gestos estenográficos, mais
do que papel ou aquela caneta ou computador.
é preciso estar vivo, ter algo para dizer, vontade
de alterar o estatuto das coisas e das pessoas.
escrever transfigura, transforma e, ao contrário
deste poema, destas palavras alinhadas como
soldados tipográficos, é mais do que aparenta.

21 abril 2012



repito-me demasiadas vezes...
a escrita já foi mais apelativa.

Não ouço


"o quê?"
não escuto o que digo. não compreendo
o que fazes. não sei quem sou entre tu
e eu. o que é que tenho de errado?
gostaria de conseguir parar e mudar.
ser alguém que as pessoas gostam
de encontrar acidentalmente na rua; 
ser alguém a quem ligam para sair;
alguém de quem sentem a falta...
para onde foram as vozes e mãos 
que faziam e sustinham o mundo?
terminaram as tardes imensas onde
o tempo saía dos olhos e parecia eterno
como a frágil juventude  dos ossos . 
como sempre, resta o respirar mecânico
dos relógios, a lógica dos ponteiros, 
os compromissos. sinto que existo 
sem saber como existir por mim mesmo. 
respiro
sem hipótese de o negar. acordo o dia,
sem horas, sem caras, sem ninguém.
o silêncio e o telemóvel vazio. a internet
como um abismo onde me perco. a casa
cheia de estranhos ou vazia, silenciosa.

onde estão todos mesmo?

19 abril 2012

O supino da crista


"mantém o controlo, não flipes"

a vida na onda é confusa. as coordenadas alteram-se
com a rapidez do olhar, dos sentidos. do supino da crista,
à solitária raíz tenebrosa e escura de areia e pedras
há a distância de um olhar - que já não se alcança.

18 abril 2012

Mão - Marcas

calo: área dura de pele que se tornou grossa e rígida como uma resposta a repetidos contatos e pressões

17 abril 2012

Definição possível


"loucura: fazer os mesmos actos esperando resultados diferentes"

sinceramente, esperava algo diferente hoje.
afinal de contas, de que vale tentar para repetir
os mesmos erros, as mesmas dúvidas? afinal, 
falando de contas, quanto tempo passou? 
o suficiente? por aqui a arrastar cadáveres 
e litros de dores e lágrimas, esperando anos
que se abra uma fronteira, um armistício, 
armazenando armas e rancores para mais tarde
recordar, para usar numa guerra silenciosa.
sempre a mesma, sempre os mesmos antagonistas.
olho pelos olhos da casa para a mesma paisagem,
                 quietude.
nevoeiro desce do monte, o ar está frio, sempre.
olho desanimado, todos os días, esperando
que algo mude, que as portas se abram, 
que a névoa levante, que os dias sejam mais
que uma constante sucessão das mesmas horas.
resta-me beber o chá sozinho, diferenças 
à parte, como única rotina segura para o dia.

15 abril 2012

As gelatinosas raízes do tempo


posso começar a esquecer-te.
não voltarás a entrar pela porta, 
toda sorrisos e calor (coisas horríveis
perdoadas) para esquecer comigo
as gelatinosas raízes do tempo. 
a imaginação não sabe, confunde.
a razão conhece - novamente o vazio, 
as mesmas inseguranças de sempre, 
os constantes silêncios iguais.
a surpresa será que não sinto nada
para além destas palavras: a crueldade
foi sempre demasiado fácil para mim.

12 abril 2012

Estrada


quando o fim de uma estrada e o início
de outra são o mesmo lugar encontrado,
pode recomeçar-se a viver. respiro. vivo. 
sempre.

Circular


É isto que os círculos fazem: fecham-se;
partem; continuam a girar de ar vazio.

08 abril 2012

Sem beleza e assombrados pela morte


Sem beleza e assombrados pela morte
fechamo-nos todos aqui debaixo, cave
funda do nosso silêncio abafado por música. 
amigos sem amor, amor sem amigos 
e a batida eterna que nos afasta de tudo.
não bebi. não me consigo perder desta forma.
esquecer as tragédias pessoais, a solidão
acompanhada de quem não tem nunca 
ninguém a seu lado quando chega a hora 
de ir. não sei o que fazer para deixar de sentir
esta imobilidade maior que o tempo, maior
que a noção de espaço compreendida. 
caímos neste vão escuro para outro lado, longe 
de nós mais um pouco, quase nada de outro.
Eu falo de mim — daqui —,
desta central,
pelo microfone do corpo,
por esse fio que vem do fundo
eu me irradio:

assim, numa transmissão de
sustos e rangidos,
veia e voz, ao vivo, sob tanto
sangue: pantera escarlate
que passa e pisa

e se espatifa nesse chão:
pata de lacre,
grito, pingo sobre o alvo
tão tátil da minha carne,
nos panos

repentinos do meu espanto,
nas janelas
onde me debruço sucessivo
e vário, sequência de mim,
em fotonovelas

me desdobro — quadro por quadro,
nos desenhos
de dentro do que sou e projeto,
aos poucos — plano e pausa —
para fora

com a vida que me veste
pelo avesso:
— filmes de sêmen onde publico
figuras de suor e celulóide,
numa lâmina

de velocidade e de lembrança,
em fotogramas
de esperas e procuras — falha,
folha de slides-células, sopro
e pulso,

página de pele em que escrevo
o uso,
a articulada letra do meu gesto,
o rascunho de unhas & rasuras
feito à unha

nas nuas marcas do meu corpo
no espaço
e nos lençóis da claridade,
monograma, silhueta, cadência,
e a fala

que se imprime nesta fita,
neste sulco:
— a linguagem como um fim,
— a linguagem por um fio,
e a morte em morse.


- Armando Freitas Filho
in Antologia da Novíssima Poesia Brasileira, Livros Horizonte

deste blog 

05 abril 2012

O amor, só, não chega


"o amor, só, não chega."

o amor não chega. esperamos sentados,
e ele continua atrasado. passeamos ruas,
passamos estradas e nem lugar dele. 
o amor chega atrasado, quando quer chegar. 
ninguém viu o amor; ninguém sabe dizer
a sua forma ou razão; por onde parou. 
e o amor, só, não chega. nunca. espera…
não, não chegam as palavras faladas 
em línguas sempre estranhas - a confusão 
de olhos que ignoram o que os olhos sabem.
o amor não chega, só, e esperamos fumando.
cadáveres amarrados aos nossos pés como 
grilhetas, como musgo nas raízes da vida, 
uma doença que se entranha e apodrece.
uma velha grita a um canto, o amor é feio
como a aparência deste poema, certa está. 
e foram feias também as horas perdidas 
a escrever, à espera do amor entre cafés, 
cigarros e gatafunhadas arranhadas no papel, 
os rostos de estranhos, sempre mais. gente.
só o amor não chega. gente que chega. fica.
volta a partir sozinha. desaparecem lentamente
como imagens que se esbatem debaixo da luz.
mesas que se esvaem lentamente. falso sangue 
andando de olhos abertos em direcção a nada. 
redescoberto o silêncio, olho em volta calmamente. 
o amor não chegou.