05 abril 2012

O amor, só, não chega


"o amor, só, não chega."

o amor não chega. esperamos sentados,
e ele continua atrasado. passeamos ruas,
passamos estradas e nem lugar dele. 
o amor chega atrasado, quando quer chegar. 
ninguém viu o amor; ninguém sabe dizer
a sua forma ou razão; por onde parou. 
e o amor, só, não chega. nunca. espera…
não, não chegam as palavras faladas 
em línguas sempre estranhas - a confusão 
de olhos que ignoram o que os olhos sabem.
o amor não chega, só, e esperamos fumando.
cadáveres amarrados aos nossos pés como 
grilhetas, como musgo nas raízes da vida, 
uma doença que se entranha e apodrece.
uma velha grita a um canto, o amor é feio
como a aparência deste poema, certa está. 
e foram feias também as horas perdidas 
a escrever, à espera do amor entre cafés, 
cigarros e gatafunhadas arranhadas no papel, 
os rostos de estranhos, sempre mais. gente.
só o amor não chega. gente que chega. fica.
volta a partir sozinha. desaparecem lentamente
como imagens que se esbatem debaixo da luz.
mesas que se esvaem lentamente. falso sangue 
andando de olhos abertos em direcção a nada. 
redescoberto o silêncio, olho em volta calmamente. 
o amor não chegou.

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