21 abril 2012

Não ouço


"o quê?"
não escuto o que digo. não compreendo
o que fazes. não sei quem sou entre tu
e eu. o que é que tenho de errado?
gostaria de conseguir parar e mudar.
ser alguém que as pessoas gostam
de encontrar acidentalmente na rua; 
ser alguém a quem ligam para sair;
alguém de quem sentem a falta...
para onde foram as vozes e mãos 
que faziam e sustinham o mundo?
terminaram as tardes imensas onde
o tempo saía dos olhos e parecia eterno
como a frágil juventude  dos ossos . 
como sempre, resta o respirar mecânico
dos relógios, a lógica dos ponteiros, 
os compromissos. sinto que existo 
sem saber como existir por mim mesmo. 
respiro
sem hipótese de o negar. acordo o dia,
sem horas, sem caras, sem ninguém.
o silêncio e o telemóvel vazio. a internet
como um abismo onde me perco. a casa
cheia de estranhos ou vazia, silenciosa.

onde estão todos mesmo?

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