24 outubro 2011
17 outubro 2011
Partes de mim
Na realidade sou apenas um romântico desiludido com o mundo e com as pessoas. Parte de mim, pelo menos, é assim. A outra não se importa muito e continua sem pensar muito nas coisas. Ambas não querem acreditar mais e preferem manter-se assim, indisponíveis. Sinceramente, e do que vi e experimentei até agora, a disponibilidade é uma coisa muito interessante que serve para reduzir a nossa produtividade e para nos roubar as horas. Mata a solidão por umas horas, mas pouco mais. Assim sendo, continuo a ser o mesmo romântico desiludido com o mundo e com as pessoas. Sem beleza nem poesia. As coisas parecem mais duras ditas em prosa, mas é uma ilusão do nosso entendimento. Afinal de contas, são apenas as mesmas palavras alinhadas e gastas. Ninguém entende. Elas, as palavras, significam o mesmo de formas diferentes. Dependem das pessoas que as dizem. Se forem escritas parecem mais sérias, mas são igualmente risíveis e insignificantes. Confusas, principalmente. Hoje passei demasiadas horas em frente ao computador. Ontem uma manifestação, tão inocente que chegou a ser bela - não fosse a desilusão um cancro que nos consumia a todos por dentro. Descendo a avenida passava-se uma fronteira invisível entre dois mundos necessariamente contrários. O dos contestatários, o mundo em crise, e o mundo real, das esplanadas cheias e da praxe dos estudantes que se alimentam de MacDonalds, engordando como animais passivos e com um plano. Ambas as partes de mim ficaram desiludidas. Com o mundo real e o mundo contestatário, ambos enfrentados de câmara na mão - e são as mesmas caras que se escondem por detrás das mãos, dos óculos de marca. Acontece-me o mesmo quando sou sincero. Quando tento falar ao coração das mulheres, as portas fecham-se. Excepto quando tento ser quem não sou. Excepto quando os bolsos estão cheios de dinheiro ou paciência (ainda estou para decidir que qualidade é a mais importante). Ainda assim, permaneço romântico e desiludido com o mundo e com as pessoas. É assim que sou e só consigo enganar quem quer ser enganado pelo tempo disponível para o engano. Para terminar, gostaria de dizer que odeio o Paulo Coelho e todas as palavras que ele escreveu e virá a imaginar. É demasiado cruel da parte dele reduzir o mundo todo e toda a gente no mundo a crianças que precisam de metafísica moulinex para sobreviver. E depois de todas estas palavras incertas, rudes na sua prosa, incertas na certeza de definir algo, permaneço romântico, desiludido com o mundo e com as pessoas, mas procuro não pensar muito nisso.
P.S. - Para além do Paulo Coelho, odeio também o Pedro Passos Coelho de uma forma que o reduz apenas a mais um número, a mais um político que vende a carne dos ossos, as gerações presentes e futuras, a uma oligarquia. Infelizmente, não foi o primeiro.
12 outubro 2011
Não te sei
Não te sei dizer o porquê, mas já não consigo
ter um orgasmo contigo. Não sei se será o hábito
do corpo, teu e meu, ou se isto é causado pela falta
de desejo que sinto por mim mesmo. repara, eu
não sou algo que aconselhe a quem quer que seja.
Sei quem és, o que fazes e para que me queres
aqui,
agora,
longe de qualquer futuro, neste presente inconsequente
para qualquer entendimento dos corpos.
Sei que apenas me queres foder, exercer controlo
sobre mim e sobre o meu desejo feito corpo, feito sangue,
e não sei como nomear exactamente isto, o que acontece...
Sei que não me vais ligar amanhã, se calhar nem no dia
seguinte a esse, para nos reencontrarmos: estas horas
pertencem aos corpos e as provas ténues que ficaram
foram os cheiros nos dedos e as erosões seminais na pele.
Sais de mim, sal e terra, como entraste - um rasgão superficial,
umas horas perdidas, um outro sinónimo do prazer descarnado.
Paixão, amor ou qualquer coisa intermédia ou nem isso:
gostava de te perguntar, mulher que conheceu muito mais
do que os rigores e a força do meu corpo. mas não pergunto,
porque sei (e sei que sabes também) que nos conhecemos
demasiado bem para nos apaixonarmos por ilusões
e demasiado mal para nos amarmos. É uma relação feita
de silêncios, de gestos e gemidos, de palavras por dizer
no cansaço da corrida. Agora dorme… Estás cansada,
eu sei,
de tudo isto.
'09
Exercício 7 - continuar
é simples e fácil. basta ser. fazer. acreditar que respirar
é importante e valioso. assim se continua. mesmo quando
se anda em círculos com a ilusão de que se avança. mesmo
quando se sabe até à medula dos ossos que continuar,
prosseguir, avançar, é como uma amputação: lima-se
a gangrena, mas permanece a dor, a ilusão do membro
perdido. e como se torna mais difícil o equilíbrio! mas sim,
fazer! fazer tanto que esqueces como se vive enquanto
respiras e pestanejas os olhos como quem não acredita
na vida que tem. fazer tanto que perdes as ilusões e sonhos,
em que passas os dias a desistir em nome de uma vitória
que nunca vai chegar e, quando chega, nunca é suficiente.
em frente! sem olhar, em frente! o abismo, em frente!
quanto precisamos para ser felizes? tudo o que preciso
mesmo cabe dentro de uma mochila - tudo o mais trago
no peito, junto com o orgulho de ser quem sou e como sou.
isto inclui: a teimosia e a imensa estupidez; o mote
"antes quebrar que torcer"; o perfeccionismo; a vontade
e a força de ser; não saber como abdicar dos sonhos
em nome de uma conta bancária melhor e mais estável;
o ódio visceral a tudo o que é político; a honestidade
intrínseca da minha classe e educação; olhar com força
e querer ainda com mais e mais força; o ombro amigo
que me esforço por ter; a imensa paciência para tentar
compreender e ser um animal bom. por isso avançamos,
avanço e continuo com todo o peso do meu mundo dentro,
a uma velocidade constante definida pela orientação
espacial dos planetas… continuo a arrastar-me lento
demais para o mundo em que vivo. faço sempre mais,
mas não sei se conseguiria existir manco como estou.
continuar é andar sempre em direcção ao que não se sabe.
O porco chauvinista estético
o porco chauvinista estético é um conceito
menos contraditório do que se pensa.
é mais uma questão em aberto, existente
nos subjectivos olhos de quem vê.
mas é relativamente simples: todos nós
(os homens, os outros, os estranhos, os simples,
aqueles que amam e os que não amam e aqueles
que se tentam separar da metade feminina desde o início
de que nos lembramos) o somos, poucos parecem.
mas este exercício de parecenças está mais nos olhos
de quem observa. aqueles que olham, os de dentro
da acção de olhar, quem é visto, o porco chauvinista
portanto, permanecem ignorantes ao que são
- falta-lhes um espelho para a compreensão.
assim sendo, todos nós, e ninguém também, o somos
sempre que olhamos quem desejamos com
a ardência nos rins, com a ausência de matéria
no ventre, com as palavras mal-colocadas,
desniveladas, da lubricidade, quem não quer ser
assim olhado por nós. uma figura de acção sexual,
um boneco de prazer que se julga inanimado
quando o que se tenta, com maior ou menor educação,
é contar o desejo, explicar a atracção e a forma
como todas as formas naturais se encaixam
(e também a suavidade da pele, o calor dos músculos,
a solidez salutar de toda a equação matemática da beleza).
como tento dizer desde o início, as palavras mentem
e as acções não: o porco chauvinista estético é
um conceito contraditório, mas tudo o que fazem não.
não há olhar a que isto consiga escapar impunemente.
(depois de algumas conversas)
09 outubro 2011
Exercício 6 - recear
apresento-me: existo e tenho medo. desconheço
este mundo que me rodeia e duvido que algo bom
possa acontecer na culpa que transporto.
já disse que tenho medo? demasiado para apreciar
o que possuo? já disse também que me agarro
ao que não tenho? que pressinto que tudo definha
à minha volta? que tenho dentes que me mordem
os tornozelos, o sono… que me vincam o olhar
para eu não ver a beleza infinita da dádiva possível
nos dias que ainda nos permitem. e a culpa, tanta,
latente sob a máscara snob da minha depressão.
as minhas mãos matam tudo o que tocam. sou assim:
azarada, desastrada, um deserto de sal para o amor.
entende, por favor, que o que o mundo é, depende
de quem somos, do que vemos; e o toque de midas
que tanto procuras, a alquimia que conduz do chumbo
ao ouro, da carne simples ao amor, é uma transfiguração
possível, mas asfixia a vida e traz uma riqueza dúbia,
indecisões concretas, uma infinita tristeza da largura
de um abraço que é sempre o primeiro passo do adeus.
06 outubro 2011
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