apresento-me: existo e tenho medo. desconheço
este mundo que me rodeia e duvido que algo bom
possa acontecer na culpa que transporto.
já disse que tenho medo? demasiado para apreciar
o que possuo? já disse também que me agarro
ao que não tenho? que pressinto que tudo definha
à minha volta? que tenho dentes que me mordem
os tornozelos, o sono… que me vincam o olhar
para eu não ver a beleza infinita da dádiva possível
nos dias que ainda nos permitem. e a culpa, tanta,
latente sob a máscara snob da minha depressão.
as minhas mãos matam tudo o que tocam. sou assim:
azarada, desastrada, um deserto de sal para o amor.
entende, por favor, que o que o mundo é, depende
de quem somos, do que vemos; e o toque de midas
que tanto procuras, a alquimia que conduz do chumbo
ao ouro, da carne simples ao amor, é uma transfiguração
possível, mas asfixia a vida e traz uma riqueza dúbia,
indecisões concretas, uma infinita tristeza da largura
de um abraço que é sempre o primeiro passo do adeus.
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