27 maio 2012

O que dói


é com a melhor das intenções, acredita.
vamos continuar, mas muito devagarinho,
como quem está parado e não faz nada;
como quem está só e não sabe o que fazer
para voltar atrás ou acabar com tudo de vez.
afinal de contas, as coisas só doem no corpo
que nos pertence, cujos ecos escutamos.
                o resto,
o corpo dos outros, não dói. nada. miragem 
de carne. ejaculamos ódio. lugares comuns
da língua e da empatia. no fundo, nunca deixar
de temer vida e os outros e as mesmas opiniões 
ocas. lamentar a possibilidade rara de fazer tudo: 
o querer do que sempre se quis. ser sempre
quem sempre se foi e sempre foi escondido. 
mas não. afinal de contas, não me dói nada fazer 
                o que dói em mim.

24 maio 2012

Ferrrugem


transforma-me num objecto e tenta ter prazer.
muitas vezes. mais do que eu conseguiria.
faz-me sentir, sem entraves psicológicos,
abruptas morais, incompletos contactos
regidos por luas, circunstâncias ou vontades.
solta-me. não vamos pensar. não agora.
afinal de contas, estas paredes são pedra 
e estão mudas. estas paredes não falam. 
estas paredes mortas não contam histórias
e são tristes sem nós. aqui és livre. não te julgo.
ninguém saberá uma palavra do que acontece.
lembra-te que enquanto esperas ossos enferrujam,
máquinas paradas e tristes cinzentas pelo tempo,
frágeis pelas circunstâncias em que os envolveram.
os ossos enferrujam, os olhos fecham-se, a mente
esquece quem uma vez fomos, como éramos
quando as palavras para as coisas eram outras,
quando tudo explodia e era real em si e nós,
nós só nos conseguíamos esquecer entre tudo.
pergunta: ainda te lembras do que é sentir assim? 

19 maio 2012

Reconhecimento


as pessoas amam na medida em que se reconhecem:
procuram um espelho na carne baça, alguém 
para reconhecer quem são quando mais ninguém olha.
de resto, mais um nome, outra cara, outro corpo arranjado
entre as lembranças de outros e inevitáveis comparações;
memórias possíveis, uma vontade incrível para contrariar 
as evidências caindo lentamente no poço profundo
onde se escondem os pixéis que já fizeram os dias.
o tempo passa e o mundo vai mudando à sua volta,
as vontades perdidas, os tempos desencontrados, 
os objectivos mútuos feitos aço sujo por detrás das palavras.
somos quem somos na mudança. quanto menos temos,
mais somos quem existe em nós na realidade. ilusões
completamente perdidas atrás de palavras insignificantes, 
sono, séries e filmes de má qualidade que servem para matar
o tempo e o silêncio. a verdade é a paixão transitória.
as vontades desrespeitadas surgem depois, inesquecíveis.
e depois... o verbo esquecer é sempre tão fácil de conjugar.

17 maio 2012

Olhos limpos


não tenho sótão e a casa é demasiado pequena
para as memórias. despojei-me das coisas. vivo.

não tenho luz nem velas. não ilumino. desconheço
o tempo. todo eu sou novo. viajo sem malas ou baús;
câmara apenas, duas objectivas, olhos limpos. 

16 maio 2012

Lugar para estacionar


Não és mulher. Não és senhora. Nunca uma criança te atravessou. 
Estás pousada no passeio, na beirinha, sem ouvir as palavras 
que desfio dentro da minha cabeça, sem sequer ver os carros
que deverias estacionar enquanto te desfazes em pó à chuva.
lama lenta dos cabelos brancos raros aos sapatos encontrados 
no lixo, demasiado grandes, casaco castanho de homem, olhos 
cheios de silêncio que não dizem nada. homem morto ambulando. 
o que foste? podias ter 200 anos que ninguém acharia estranho.
seria mais um número sobre ti, um peso mais que não faria diferente.
olho e pergunto-me quem foste. o empregado do café chama-te
boneco de neve à conta do teu cabelo branco e mudez alcoólica. 
o cabelo começa a rarear no topo. derretes? não és mulher. não és.
não és senhora. não és. sentas-te no passeio e fumas. trocas um euro,
compras vinho, adormeces no chão. acordas para o mesmo amanhã.
uma vez também te vi a explorar com a língua a boca de um homem, 
testa baixa, a mesma cara de neandertal dos livros. poucos dentes.
estava frio. não tive coragem para imaginar mais. aquilo chegou, 
uma mistura de asco e nojo e saliva. mais um cigarro. quem és 
debaixo do odor e do silêncio? quem és para além da mão que treme? 
                    uma moedinha… 
e deixas cair a frase, assim, como se nunca tivesses tido algo mais
para dar… que mundo te devorou a humanidade? e depois passamos,
continuamos a olhar as montras como quem não te viu e nunca exististe. 
esqueces facilmente. nunca ninguém te viu. passam-te carros por cima, 
o tempo, homens irreconhecíveis, fumo, o vinho mau, o calor das ruas 
e o seu cheiro a lixo e pedras, a pele esmagada, a cabelo sujo e tu 
permaneces, braço bamboleante basculante que indica o único lugar 
que ainda existe para estacionar - uma sopa, um croquete, um café,
                                                                                             um cigarro.

Misty.


por vezes há palavras que chegam de uma névoa.
sem cor, apenas mensagem envolta em incerteza;
vozes distantes para além da curva do tempo 
e do espaço. não sabemos o som, reconhecemos
o toque possível. acima de tudo ouve: não rasgues a pele. 
dela não é a teia que te prende e magoa; mas é ela que ilumina. 

04 maio 2012

Pensando racionalmente


pensando racionalmente, fui demasiado estúpido:
quanto mais não seja importei-me demasiado
tempo. dei voz a palavras que deveriam permanecer
mudas. entreguei corpo e segredos em corpo e ouvidos 
que nunca os deviam ter conhecido. mesmo agora,
quando escrevo estas palavras e as penso pesadamente,
signo a signo, graves e despersonalizadas que são
completamente fora de mim, compreensões abstractas,
sinto nojo pelo tempo perdido a escrevê-las e sei que, 
apesar de simples, são também muito mais do que mereces. 

é menos que nada

ainda assim, porque continuamos a tentar falar?
comunicar:
chegar à mente do outro com palavras, gestos, coisas.

as palavras são desculpas para a ausência de acção.

03 maio 2012

Es.co.la


"be cunning and full of tricks"

frase escrita numa parede e definidora de épocas


todos sabiam que a vitória seria breve,
mas ainda assim seria uma vitória. 
por um dia, breve também, podiam 
ultrapassar as fronteiras humanas 
impostas por deus, pátria, sociedade, 
família, polícia, capital, educação, 
orçamentos, vícios, espaços, fronteiras, 
propriedade, política, trabalho, preguiça, 
feriado, tempo, idade, e ser democracia: 
uma voz que se ergue do fundo, um corpo 
milípede que caminha numa só direcção.
sem astúcias básicas, sem truques. 
armados de verdades e megafones 
e de mãos nuas contra chapas e parafusos
e paredes sujas e fechadas.
toda a gente sabia que seria breve. um
momento apenas em que se ficaria sozinho
no poço silencioso das vértebras e sentiríamos
igual ao sorriso ao nosso lado. entre a chuva 
de vidro, de metal, e o ruído ensurdecedor 
dos bombos, há um momento pleno de certeza
que emerge, verdadeiro e completo. longe 
da mesquinhez de contractos; real, por fim.
no dia seguinte, de manhã cedo, regressariam
as nuvens negras, os cadeados, os polícias, 
os cassetetes, mais cadeados, aloquetes e outros
pés mais pesados, e ainda as câmaras e as luzes,
e ainda outras mãos para voltar a fazer esquecer 
a absoluta e agora silenciosa vontade popular.